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Vida urbana precária aumenta risco de doenças crônicas | VEJA

Fonte: veja.abril.com.br | Data: 01/05/2026 12:20:36

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Faixa de poluição é vista do Edifício Itália, na região central da cidade de São Paulo, na tarde desta segunda-feira (25). A cidade entrou em estado de alerta, com a umidade relativa do ar em 14%, número muito ruim para a saúde, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS)
Faixa de poluição é vista do Edifício Itália, na região central da cidade de São Paulo: alertas de emissões acima do recomendado pela OMS são frequentes  (André Lucas Almeida/Futura Press)

O  debate sobre as consequências do envelecimento acelerado da população brasileira ainda costuma ser tratado de forma fragmentada. Enquanto a discussão se concentra, com frequência, nos impactos previdenciários, um efeito igualmente relevante permanece em segundo plano: a pressão crescente do tratamento das doenças crônicas sobre o financiamento da saúde pública. Em um sistema universal como o Sistema Único de Saúde (SUS), o envelhecimento populacional altera não apenas o volume da demanda por serviços como também a própria estrutura de custos da política do setor — e a gestão desses recursos.

O perfil demográfico do país mostra que estamos envelhecendo em um ritmo acelerado. Tanto os dados do IBGE quanto a literatura acadêmica reforçam, constantemente, que não podemos mais adiar essa pauta, em especial no que diz respeito ao financiamento e à criação de políticas públicas eficazes. Essa mudança demográfica vem acompanhada da consolidação das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) como principal causa de mortalidade. De acordo com o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde, doenças cardiovasculares, câncer, diabetes e doenças respiratórias crônicas já respondem por aproximadamente 75% das mortes no país. Na cidade de São Paulo, segundo a ISA-Capital 2024, a hipertensão lidera o ranking, com 58,5% da prevalência em pessoas a partir dos 60 anos; na sequência, há a predominância da multimorbidade, duas ou mais DCNT com 40% de representatividade.

As DCNT possuem características que ampliam seu impacto sobre o sistema de saúde. São doenças de longa duração que exigem acompanhamento contínuo, uso regular de medicamentos, exames periódicos e, em muitos casos, procedimentos hospitalares complexos. Internações por complicações cardiovasculares, tratamento oncológico, cirurgias e terapias de longa duração, como hemodiálise, representam despesas significativas para o SUS, responsável pela assistência integral de cerca de três quartos da população brasileira. Além disso, os efeitos indiretos dessas doenças repercutem em outras áreas do orçamento público, como a Previdência Social e a assistência social, especialmente quando ocorre perda de autonomia funcional entre idosos.

Parte importante dessa pressão sobre o sistema de saúde, no entanto, é moldada fora das unidades de atendimento. Alguns aspectos relacionados à vida nas cidades influenciam diretamente fatores de risco associados às DCNT. Infraestruturas urbanas que dificultam a mobilidade ativa, como calçadas inadequadas, travessias inseguras e escassez de áreas verdes contribuem para o sedentarismo. A poluição atmosférica em regiões metropolitanas está relacionada ao agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias. Ao mesmo tempo, o ambiente alimentar de muitos territórios urbanos favorece o consumo de ultraprocessados e dificulta o acesso regular a uma dieta mais natural e saudável.

Esses fatores evidenciam que o planejamento de uma cidade exerce influência direta sobre a distribuição de riscos para doenças crônicas. Intervenções estruturais, como ampliação de áreas verdes, qualificação de calçadas, incentivo à mobilidade ativa e melhoria do transporte coletivo podem contribuir para reduzir fatores de risco e prevenir o agravamento dessas condições.
Precisamos encarar, com lucidez, o impacto que a falta de planejamento urbano causa no orçamento da saúde. Sabemos que essa não é uma transição fácil, pois depende de uma coragem política que muitas vezes supera a técnica. Em uma metrópole como São Paulo, diante dos dados demográficos atuais, o orçamento seguirá sob pressão se não mudarmos a abordagem. É uma questão lógica: a prevenção de doenças crônicas é multifatorial e multidimensional, e ignorar essas variáveis no planejamento da cidade é, em última análise, o que torna a gestão pública financeiramente insustentável.

Não se pode deixar de considerar ainda que o enfrentamento das DCNT depende também do fortalecimento da Atenção Primária à Saúde. Profissionais bem qualificados na linha de frente do SUS são essenciais para ampliar o diagnóstico precoce, o acompanhamento longitudinal dos pacientes e o controle adequado de fatores de risco. Investimentos na formação e na educação permanente das equipes de saúde da família aumentam a capacidade do sistema de prevenir complicações e evitar internações hospitalares de alto custo.

Diante da aceleração do envelhecimento da população nos grandes centros, a sustentabilidade do sistema de saúde dependerá cada vez mais da combinação entre prevenção, planejamento urbano e fortalecimento da atenção primária. Reduzir o impacto das doenças crônicas não é apenas uma agenda sanitária. Trata-se também de uma estratégia essencial para preservar a capacidade de financiamento das políticas públicas nas próximas décadas.

*Gabriela Vasconcelos é economista, urbanista social, coordenadora de Projetos do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper e mestranda em Saúde Pública na FSP/USP