Choque do petróleo e El Niño atrapalham trajetória da inflação para 2026, dizem economistas
Fonte: valor.globo.com | Data: 12/05/2026 18:19:57
Os dados de abril do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgados nesta terça-feira (12) pelo IBGE, apontam para uma inflação em 0,67%, o que significa desaceleração em comparação com março (0,88%). Apesar do resultado relativamente positivo, o contexto geral de inversão na trajetória da inflação, de queda para alta, é um sinal de alerta na visão de André Braz, coordenador dos índices de preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).
“A expectativa era a inflação se aproximar dos 3% em 2026. Mas o conflito no Irã e a disparada do preço do petróleo fez tudo mudar, houve uma disseminação das pressões inflacionárias que acabaram mudando a trajetória do índice. Alimentação com alta mais persistente não estava no radar. A gente esperava uma desaceleração mais forte. É onde o IPCA tem encontrado maior influência para a aceleração”, explica.
Considerando os últimos 12 meses, o índice ficou em 4,39%, já bem próximo do topo da meta de inflação perseguida pelo Banco Central (BC), de 4,5%. Com alta de 1,34%, o grupo alimentos e bebidas respondeu por 0,29 ponto percentual na inflação de abril, enquanto no grupo saúde e cuidados pessoais, a alta foi de 1,16%, com impacto de 0,16 ponto. O subitem com maior impacto individual foi a gasolina, que desacelerou na comparação com março (4,59%), para 1,86%, em abril, e representou 0,1 ponto do indicador, de acordo com o IBGE.
“Os alimentos sofrem contágio do aumento do preço do petróleo via frete, porque todas as mercadorias agrícolas são transportadas por caminhões e outros modais, que queimam diesel. Embalagens plásticas são derivadas do petróleo e adubos e fertilizantes também. Ou seja, os custos de produzir e escoar os alimentos têm aumentado. Alimentação passou a ser um vetor forte de espalhamento da inflação em 2026”, avalia Braz.
O coordenador de índices de preço do FGV Ibre ainda ressalta que, mesmo que o preço do petróleo ceda, o aumento de preços vai demorar a ser revertido. Além disso, ele destaca que o início do El Niño, fenômeno climático que afeta a dinâmica de chuvas no Brasil, também tem espaço para comprometer o preço dos alimentos esse ano.
“A alimentação vai ganhar um protagonismo que a gente não conseguiu prever no início de 2026. Em paralelo, temos pressões do setor elétrico. As previsões para o aumento de energia estão mais pessimistas e o problema climático também atrapalha a geração”, diz.
André Braz ainda concorda com a possibilidade de que a inflação supere o teto da meta já neste mês de maio. “Provavelmente já estaremos no teto ou acima do teto da meta. Até o fim do semestre, com certeza a inflação estará acima de 4,5%”.
A previsão é reforçada pelo economista do Santander, Adriano Valladão, que destaca que as medidas de núcleo surpreenderam para cima, revelando um cenário inflacionário pior do que o esperado.
Nas projeções do banco, o IPCA em 12 meses deve ultrapassar o teto da meta (4,5%) já na próxima divulgação. “O nosso número era mais alto, então, para a gente foi melhor do que o esperado. A maior parte foi por conta da gasolina, que acelerou muito em março, mas a alta residual foi menor em abril”.
“O que me surpreendeu foi a parte qualitativa. Tanto por bens industriais, quanto por serviços. O que mais me chamou a atenção foi a surpresa nos serviços subjacentes e intensivos de mão de obra, ambos acima do que a gente esperava”, afirma Valladão.
A surpresa nos núcleos relacionados ao setor de serviços também foi destacada pelo economista-sênior da Genial Investimentos, Gabriel Pestana. “Serviços vieram próximos, mas, na composição, basicamente todos os subitens trouxeram surpresas altistas, todos para cima”.
“Serviços subjacentes, conserto de automóvel, serviços bancários e intensivos. O índice oficial está refletindo essa alta. É a terceira ou quarta leitura que esse índice surpreende, o que não costuma ocorrer em cenários de estabilidade”, alerta.
O resultado é sinal de um mercado de trabalho aquecido e do repasse do choque do petróleo nos preços. Nesse sentido, os especialistas concordam que uma deterioração mais forte do que o esperado nas métricas qualitativas aponta para um cenário desafiador para o cumprimento da meta de inflação pelo Banco Central.
O economista-chefe do Banco Daycoval, Rafael Cardoso, avalia que a “qualidade da inflação” tem piorado nos últimos meses para além dos choques mais notórios de gasolina e alimentação. “A gente poderia dizer que a inflação está sendo caracterizada por esse choque nos últimos meses. Mas, outras métricas também têm acelerado de forma relevante há algum tempo.”
“Com tudo isso na conta, o resultado é justamente essa inflação se aproximando da banda superior e oscilando dentro desse patamar até o final do ano”, projeta Cardoso. “É uma inflação que diz respeito à atividade econômica, mercado de trabalho e salários. Quando a parte mais qualitativa piora, a inflação tende a ser mais pegajosa e inercial”, explica o porta-voz do Daycoval.
Política monetária
Segundo o Braz, os efeitos da alta do petróleo e do El Niño não são mais fortes porque, no meio da tempestade, também ocorreu uma valorização significativa do real frente ao dólar, o que ajuda a segurar um pouco a pressão inflacionária. Ainda assim, o cenário é de “muito pessimismo”, com aumento das projeções de inflação no Boletim Focus, do BC, indicando ampla “desancoragem das expectativas”.
“Os agentes econômicos estão cada vez menos crentes no sucesso da política monetária em levar a inflação para a meta. Mas os cortes na Selic também não mudam drasticamente a situação. A gente ainda sustenta um patamar de juros muito elevado e suficiente para conter uma inflação que vem da demanda”, afirma André Braz.
Segundo ele, a política monetária é um “remédio”, e o “efeito colateral” de juros altos é um baixo crescimento da atividade econômica. Mas ele destaca que esse remédio não cura qualquer tipo de inflação, apenas choques pela demanda. “Houve uma redução da oferta de petróleo, pela incerteza e insegurança que o conflito traz. Para esse tipo de inflação, juro alto não adianta”.
“Se o El Nino atrapalhar o plantio e a colheita, você conta com uma oferta menor de alimentos. O preço sobe e como o juro vai conter essa alta de alimentos? Essa é uma limitação do próprio instrumento Selic. Talvez por isso, e pelo patamar alto da Selic, o BC se sentiu confortável para cortar juros nas duas últimas reuniões”, explica. Por isso, o especialista aponta que o BC deve ter cautela e certa dificuldade para prosseguir com o ciclo de afrouxamento.
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