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O caso Master e a culpa atmosférica

Fonte: gauchazh.clicrbs.com.br | Data: 13/05/2026 09:45:05

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WERTHER SANTANA / ESTADÃO CONTEÚDO
O efeito arrasta também estruturas, pessoas e relações que podem não ter qualquer vínculo com eventuais irregularidades.

Há algo perigoso acontecendo no Brasil dos grandes escândalos: a transformação da proximidade em culpa.

O caso envolvendo o Banco Master e Daniel Vorcaro começa a entrar nessa fase. Quanto mais surgem relatos, conexões e bastidores, mais se espalha uma espécie de névoa moral sobre tudo e todos que passaram perto do banco.

É preciso ter cuidado, o que não significa relativizar fatos graves, nem absolver ninguém antecipadamente. Se houve crimes, desvios, favorecimentos ou corrupção, eles precisam ser investigados com rigor. O país já cansou de esquemas que sobrevivem graças à influência, ao prestígio ou às conexões de quem está envolvido.

Mas uma coisa é investigar responsabilidades. Outra, muito diferente, é transformar associação em sentença. Um banco não opera isolado numa sala escura. Bancos se relacionam com empresas, fundos, investidores, governos, fornecedores, instituições e clientes. Participam de operações legítimas diariamente. Movem recursos. Estruturam negócios. Fazem parte da engrenagem formal da economia.

Quando um escândalo explode, porém, instala-se um fenômeno conhecido e perigoso: a contaminação retroativa. Toda fotografia vira suspeita. Toda reunião ganha aparência conspiratória. Toda relação passa a ser reinterpretada à luz do pior cenário possível.

É o efeito tsunami. A onda não leva apenas o que estava errado. Arrasta também estruturas, pessoas e relações que podem não ter qualquer vínculo com eventuais irregularidades. O problema disso não é apenas humano ou reputacional. É institucional.

Justiça exige distinção. Exige separar quem participou de quem apenas passou perto. Quem sabia de quem desconhecia. Quem se beneficiou diretamente de quem apenas manteve relações normais dentro da dinâmica econômica de um país. Sem essa diferença, entra-se num terreno em que a culpa deixa de ser individual e passa a ser atmosférica. E culpas atmosféricas são incompatíveis com o Estado de Direito.

Combater a corrupção é indispensável. Mas transformar convivência institucional em prova automática talvez seja apenas outra forma de injustiça. Escândalos precisam revelar culpados e não fabricá-los por osmose.