Ana Flávia Cavalcanti fala sobre “Criadas” e parceria com a mãe nos palcos: “Nos incentivamos muito”
Fonte: glamour.globo.com | Data: 08/06/2026 08:31:52
Há momentos na carreira de um artista em que diferentes caminhos parecem se encontrar ao mesmo tempo. Para Ana Flávia Cavalcanti, junho chega exatamente com essa sensação. Em meio ao cinema, o teatro e a televisão, a atriz vive uma fase de colheita, impulsionada por projetos que dialogam com temas sociais e afetivos presentes em sua trajetória dentro e fora dos palcos. ” Tem sido apaziguador com minha criança e próspero com minha vida adulta”, dispara.
Na quinta-feira (11), Ana estreia nos cinemas Criadas, longa dirigido por Carol Rodrigues que lhe rendeu o Troféu Redentor de Melhor Atriz no Festival do Rio de 2025. Ao lado de Mawusi Tulani, a atriz protagoniza uma história que mergulha em discussões sobre colorismo, identidade, pertencimento e as marcas deixadas pela miscigenação nas relações familiares. “Esse filme tem vocação para bons debates dentro da comunidade negra e fora dela”, afirma.
Ao mesmo tempo, Ana celebra os dez anos da performance A Babá Quer Passear, apresentada no Sesc Consolação, em São Paulo, e divide o palco com a mãe na peça Conforto, que descobriu a arte aos 68 anos (Val Cavalcanti começou a trabalhar aos oito anos como empregada doméstica e fez faxina até os 64 anos). Com mais de duas décadas de carreira, a artista ainda estará na série Emergência 53, do Globoplay, reafirmando uma fase marcada pela diversidade de projetos e pela conexão entre arte e vida. Não por acaso, ao olhar para o futuro, já se pega refletindo sobre os próximos capítulos da própria história. “O que será que eu vou estar fazendo aos 70? Tomara que teatro também, né?”
Confira a entrevista abaixo!
Criadas chega aos cinemas depois de te render o Troféu Redentor de Melhor Atriz no Festival do Rio. Como foi receber esse reconhecimento por um trabalho tão atravessado por questões sociais e raciais?
Eu fiquei muito feliz com esse prêmio. Amo tanto o Festival do Rio quanto o Cine Odeon, poder mostrar meus trabalhos ali é uma honra. Tive estreias inesquecíveis no Festival do Rio, Baby, de Marcelo Caetano; Continente, de Davi Preto; O deserto de Akin, de Bernard Lessa; O Rio Vive Entre Nós, de Day Rodrigues; Bocaina, que eu assino a direção com Fellipe Barbosa; e ano passado Criadas, de Carol Rodrigues, com este prêmio que coroou nossa exibição. Ainda mostrei meu primeiro filme como diretora o RÃ, no Cine Odeon. O Rio me dá sorte. Um prêmio é uma simbologia. Ter um Redentor em casa todo douradinho, citando uma relevância no meu trabalho como atriz, me faz ter mais forças para seguir e viver outros desafios.
O filme fala sobre colorismo e discute raça, classe e pertencimento. Como foi habitar uma personagem que carrega tantas camadas?
Pois é, Mariana é uma mulher parda que cresceu em um contexto muito embranquecido e que vai buscar sua identidade negra aos poucos, já na fase adulta. Pelo fato de ela ter a pele clara sua passibilidade entre pessoas brancas é maior que a de sua prima, Sandra, que é preta. Não existe democracia racial no Brasil e o pacto da branquitude é um projeto muito bem sucedido. Uma pessoa negra em nosso país vive em uma corda bamba em praticamente todos os sentidos e setores da nossa sociedade. Eu sou uma mulher parda, não sou a Mariana, mas vivo a experiência de uma mulher miscigenada e é só a partir desse lugar que posso me colocar e tentar compreender meus sentimentos e minhas vivências.
O que espera provocar no público com Criadas?
Esse filme tem vocação para bons debates dentro da comunidade negra e fora dela. Eu fiz o filme e assisti algumas vezes e percebo um fenômeno interessante, o debate central do filme fica entre essa família de mulheres negras, pretas e pardas a partir da miscigenação de uma parte dela e os efeitos que isso causa em todos. Aí, talvez, Carol tenha criado uma artimanha interessante para o público de pessoas não negras que é o de ser ouvinte, literalmente espectadores. Porque de certa forma aquilo que está sendo dito no filme não é necessariamente para eles e isso causa uma empatia para a abertura da escuta desse público, é quase educativo. Sabe quando a gente aprende vendo? Criadas tem potencial de provocar esse tipo de mudança.
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No segundo semestre você chega ao Globoplay com Emergência 53. O que pode adiantar sobre o projeto?
Emergência 53 é uma série muito potente dirigida por Andrucha Waddington, Rebeca Diniz e Fernando Torres. Eu estive em três temporadas de Sob Pressão com esse mesmo time de artistas e gosto muito da maneira como a gente trabalha juntos. Emergência 53 carrega no nome a força da série. O público vai acompanhar a rotina de profissionais da saúde que trabalham no SAMU e suas relações interpessoais. Promete!
Você abriu sua casa na Península do Maraú para apresentações e encontros culturais. Como nasceu a ideia da Casa Palco?
Eu fiz essa casa no sul da Bahia e inicialmente a casa não tinha um nome próprio, mas chegando aqui eu vi o tamanho do deck da frente, todo em madeira cumaru, lisinho, a céu aberto e logo pensei: ‘nossa, parece um palco’. E aí nasceu a Casa Palco e meu intuito é de expandir a experiência, sobretudo da população local, trazendo teatro, cinema, dança, rodas de conversas, residências e oficinas culturais pra cá. No último dia 16 de maio apresentei uma parte do meu espetáculo que se chama Conforto e inaugurei o palco da Casa Palco. Esteve comigo Xuxa Levy e o Paralelo 14, bloco rítmico que nasceu na Praia de Algodões. Foi muito emocionante! A casa estava lotada com mais de 100 pessoas sentadas no jardim. Foi a primeira vez que existiu uma programação de teatro aqui em Algodões.
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O que representa levar arte para comunidades e transformar um espaço pessoal em ponto de encontro coletivo?
Essa pergunta me fez lembrar dos pontos de cultura, principal marca da gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura, na primeira gestão do presidente Lula. Um ponto de cultura é um ponto de luz, de vida, de conexão, de novas amizades e trocas, de cuidado com a saúde mental, física, a gente se move em rede, né? Eu acredito muito nisso. Aqui é uma comunidade quilombola, beiradeira, com pessoas nativas que nunca saíram daqui e que, portanto, não acessam certas atividades que acontecem mundo afora. Poder trazer um pouco de minha visão artística pra cá é muito enriquecedor e acredito que nas duas direções. Eu me inspiro muito aqui e senti, depois de sábado, que inspirei também, principalmente as crianças e jovens. Eles ficaram muito dentro da história, e no final queriam me contar que sonham ser atores e atrizes quando crescerem. Isso é a essência do teatro, da cultura, das artes em todas as vertentes, oferecer possibilidades de caminhos.
Em um dos projetos, Conforto, você está ao lado da sua mãe. Como é essa parceria? Você a incentivou a seguir na arte?
Eu e minha mãe nós nos incentivamos muito ao longo de nossas vidas juntas. Minha mãe começou a trabalhar aos oito anos de idade como empregada doméstica e fez faxina até os 64 anos. Aos 68 subiu em um palco pela primeira vez. De certa forma eu sinto que incentivei minha mamy, sim. Ao longo dos anos, fui oferecendo a ela estar próxima da arte que eu crio. Em Rã, meu primeiro filme, a locação foi a casa dela. Filmamos lá e dali ela já pode acompanhar toda a rotina de um set, os equipamentos, as cenas sendo gravadas, a preparação do elenco. E ela faz uma participação também.
Eu fico muito embasbacada quando ela está em cena, com o microfone headset, igual das cantoras pops, falando, se soltando. Ela já quebra a quarta parede, que é quando a atriz fala o texto e interage com alguém da plateia sem perder o fio da meada. Ela tá um luxo, só!
Você vive uma fase de muitos lançamentos, entre teatro, cinema, TV e projetos autorais. Como tem sido olhar para uma trajetória de mais de 20 anos e enxergar tudo o que construiu até aqui?
Tem sido muito bom. Tem sido apaziguador com minha criança e próspero com minha vida adulta. Tem me feito abrir o peito e fechar também, às vezes. E tem me feito olhar para os próximos 20 e me perguntar o que a vida me reserva? Para onde ir e como? Em que velocidade e com que qualidade de presença. Estar fazendo teatro com minha mãe tem me feito fazer esse tipo de pergunta e sinto que a presença dela na peça faz isso com o público também. Porque ali de onde eu fico penso, ‘nossa, ela tá fazendo teatro aos 70’. O que será que eu vou estar fazendo aos 70? Tomara que teatro também, né?
Ao longo da carreira, você sentiu mudanças concretas na forma como mulheres negras passaram a ocupar espaço no cinema e na TV?
Com certeza absoluta e com muita luta nossa. Eu estou bem apaixonada por Lélia Gonzalez (ativista e intelectual). Nesse momento estou vendo tudo, ouvindo, lendo, e meu Deus do céu, o que essa mulher fez, falou, uniu, pautou, incentivou, se machucou também. Tudo com o mesmo intuito, com a mesma direção de desejo. Ela foi incansável abrindo frente para nós. Cito Lélia aqui, mas a verdade é que a conta começa nos cinco milhões de africanos sequestrados e escravizados. Isso é só o início. A escravidão no Brasil é a pior tragédia da nossa história e uma das piores da história da humanidade. E não foi uma tragédia ficcionalizada, foi real. E esse horror teve um custo e ainda tem um custo muito caro para a população negra em todos os sentidos e em todas as áreas. Por isso eu comemoro as boas mudanças, mas não dá pra dizer que estamos vivendo uma justiça social, democrática, financeira, autoral, cultural, amorosa, sabe? O buraco é mais embaixo pra nós. É preciso estar sempre atenta.
Você trabalhou como babá e faxineira antes de seguir na carreira artística. O que essa vivência representa hoje?
Essa é a herança profissional que mulheres que tiveram uma saída como a minha recebiam. A mãe, a avó, a bisavó, a tataravó, todas faxineiras, empregadas de casas de família até a escravidão em si. Nossa história começou a mudar com o governo do Presidente Lula, com cotas raciais e sociais, com bolsa família indo para a mulher da casa com a obrigação de vacinar e ter seus filhos matriculados e frequentes nas escolas. Meus 20 anos de carreira, desde a formação até hoje, acompanham a idade desse governo, minha mãe estudou até a quarta série e eu sou fluente em francês. São mudanças radicais. As mais novas da minha família vão receber outra opção de herança profissional, não digo que todas serão artistas, mas antes não existia nenhuma.
A performance A Babá Quer Passear parte dessa vivência. Qual a importância de trazer a profissão para o centro do debate?
Em julho, daqui dois meses, exatamente no dia 25 de julho, Dia da Mulher Negra Latino-Caribenha, comemoro 10 anos da performance A Babá Quer Passear e vamos ter festa. Esse trabalho é a maior expressão da minha vida. Porque ele é crítico, é contundente na denúncia, mas é divertido, leve e cor de rosa. Pra quem não conhece a performance, eu fiz um carrinho de bebê gigante, cor de rosa chiclete, e eu me visto de babá e fico dentro do carrinho com uma bexiga pendurada onde se lê: A Babá Quer Passear. Fico ali dentro por horas esperando alguém me levar para passear, e com isso eu quero dizer que quem cuida também merece ser cuidada, que passear e se divertir é bom pra todo mundo.
O descanso é muito importante e babás, faxineiras, motoristas, entregadores, garçonetes, técnicas de enfermagem, atendentes de farmácia, jardineiros, cozinheiras, todo o tipo de profissional que presta um serviço merece trabalhar cinco dias por semana e descansar dois.
Em julho vou ocupar o Sesc Consolação com uma residência em performances para os jovens em homenagem aos dez anos da Babá Quer Passear e vou apresentar para o público minha nova performance totalmente inédita.
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