Grupo Voto, que recebeu Flávio Bolsonaro, organizou degustação de whisky de R$ 3,3 milhões em evento do Master, de Daniel Vorcaro
Fonte: revistaforum.com.br | Data: 09/06/2026 12:58:31
ANDAR DE CIMA
Empresa de Karim Miskulin tem histórico de eventos com Jair e Eduardo Bolsonaro e promoveu encontro em SP no qual senador atacou Lula; grupo também fez fórum em Londres que aparece em apurações sobre uísque, autoridades e Banco Master
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- Grupo Voto organizou degustação de whisky de R$ 3,3 mi no evento do Banco Master, liderado por Daniel Vorcaro, em abril de 2024.
- A empresa promoveu almoço com o senador Flávio Bolsonaro (PL‑RJ) no Palácio Tangará, São Paulo, sob o selo “Brasil de Ideias Mulher, Especial Eleições”.
- O Fórum Jurídico Brasil de Ideias, coordenado por Karim Miskulin, realizou encontro em Londres totalmente financiado pelo Banco Master, hoje alvo de investigação da PF.
- Investigações apontam negociação de R$ 134 mi entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro e movimentações suspeitas de R$ 61 mi rastreadas pelo COAF.
O Grupo Voto, empresa de relações governamentais que promoveu um almoço com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no Palácio Tangará, em São Paulo, consolida-se como uma das engrenagens mais ativas na intersecção entre a política bolsonarista, o mercado financeiro e a cúpula do Judiciário. A plataforma, comandada pela cientista política Karim Miskulin, foi a responsável por organizar, em abril de 2024, o Fórum Jurídico Brasil de Ideias em Londres — evento integralmente financiado pelo Banco Master, do banqueiro Daniel Vorcaro, hoje epicentro de uma crise institucional e alvo de investigações da Polícia Federal.
No encontro recente com o parlamentar fluminense, formatado sob o selo “Brasil de Ideias Mulher, Especial Eleições”, Flávio Bolsonaro utilizou o palanque blindado para fustigar a gestão federal, acenar com privatizações ao empresariado e evocar a retórica de combate a organizações criminosas como o PCC e o Comando Vermelho. Em vídeos publicados nos stories do Instagram do próprio Grupo Voto, o senador chegou a se apresentar à plateia feminina como um “empreendedor” que não desiste do Brasil.
O verniz empresarial ostentado por Flávio no evento, contudo, contrasta frontalmente com seu histórico no mundo dos negócios. A biografia “empreendedora” do senador é marcada pelas investigações sobre sua franquia de chocolates, utilizada, segundo o Ministério Público, para lavar dinheiro no esquema das “rachadinhas”, e pelas suspeitas recentes envolvendo seu escritório de advocacia em Brasília, administrado pela irmã do contador ligado ao ex-presidente do INSS e alvo de apurações.
O silêncio do senador sobre o colapso do Banco Master durante o evento não é obra do acaso, dado que ele discursava sob a curadoria da mesma estrutura que viabilizou as incursões de Vorcaro. Como a Fórum já publicou, Flávio negociou R$ 134 milhões com Daniel Vorcaro em tratativas que envolviam aportes para a reabilitação internacional da imagem do bolsonarismo. A Fórum também mostrou que o Coaf rastreou movimentações suspeitas de R$ 61 milhões ligadas a esse ecossistema. Consolidando o nexo de interesses, a Fórum noticiou que o senador visitou Vorcaro logo após a deflagração da crise sobre o banqueiro.
O alinhamento comercial com o clã e a descoberta da Sportlight
O palco oferecido a Flávio Bolsonaro obedece a um roteiro institucional previamente validado pelo Grupo Voto. A simbiose entre a empresa e o bolsonarismo remonta à ascensão da extrema-direita ao poder e envolveu a cooptação direta de familiares do ex-presidente para o seu quadro editorial.
Em setembro de 2020, o grupo anunciou a contratação do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) como colunista fixo da Revista Voto. A cronologia dessa aliança, dissecada em investigação da Agência Sportlight, revela que a chegada do “03” ao veículo ocorreu exatos quatro dias após o Grupo Voto anunciar uma parceria operacional com a agência In.pacto , empresa na qual Karim Miskulin deteve participação societária. Meses depois, a In.pacto sagrou-se vencedora de uma licitação pública milionária para a prestação de serviços à Apex-Brasil, evidenciando o pragmatismo das relações entre o lobby privado e a máquina estatal.
No mesmo período, o Grupo Voto converteu-se na principal artífice de jantares de aproximação entre o governo e grandes conglomerados privados. Em novembro de 2020, organizou o encontro “Um Brinde à Democracia” na Sociedade Hípica Paulista, reunindo Jair Bolsonaro e seis ministros perante líderes corporativos. Em 2021 e 2022, o formato foi replicado no próprio Palácio Tangará, servindo como laboratório para mitigar a rejeição do governo junto a empresárias , a mesma vitrine agora reciclada para Flávio.
Londres, uísque Macallan e o distanciamento hipócrita
A atuação do Grupo Voto como facilitador de lobby atingiu seu limite ético durante o “1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias” em Londres. Desenhado sob um patrocínio não ostensivo do Banco Master, o evento custeou o deslocamento e as atividades de magistrados do STF e do STJ que relatavam ações bilionárias de interesse do próprio banco. Entre os gastos estratosféricos bancados por Vorcaro no bojo do evento organizado pelo Grupo Voto, a PF identificou o pagamento de cerca de R$ 3,3 milhões referentes a um serviço de degustação do exclusivo uísque Macallan no George Club, frequentado por autoridades brasileiras.
A atuação do Grupo Voto como facilitador de lobby atingiu seu limite ético durante o “1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias” em Londres. Desenhado sob um patrocínio não ostensivo do Banco Master, o evento custeou o deslocamento e as atividades de magistrados do STF e do STJ que relatavam ações bilionárias de interesse do próprio banco. Entre os gastos estratosféricos bancados por Vorcaro no bojo do evento organizado pelo Grupo Voto, a PF identificou o pagamento de cerca de R$ 3,3 milhões referentes a um serviço de degustação do exclusivo uísque Macallan no George Club, frequentado por autoridades brasileiras.
Questionado em ocasiões anteriores sobre o episódio, o Grupo Voto tem sustentado que sua responsabilidade se limitou à curadoria institucional e organização dos painéis oficiais do fórum, negando qualquer envolvimento ou organização das agendas paralelas de entretenimento financiadas pelos patrocinadores.
Com a liquidação extrajudicial do Banco Master pelo Banco Central e a prisão de Vorcaro em meio a fraudes estimadas em R$ 12 bilhões, o Grupo Voto executou uma manobra abrupta de gerenciamento de danos. Em fevereiro de 2026, a plataforma publicou um artigo editorial intitulado “O Master e a percepção de corrupção dos brasileiros”.
No texto, o grupo adota um tom crítico, classificando o episódio como um escândalo institucional e atacando a proximidade de ministros do STF com os operadores do banco. O artigo, no entanto, omite estrategicamente um detalhe fundamental: foi a própria infraestrutura corporativa do Grupo Voto que viabilizou, meses antes, a logística, a curadoria e o acesso privilegiado para que Daniel Vorcaro desfilasse sua influência perante os mesmos julgadores no exterior. Ao receber Flávio Bolsonaro em São Paulo, o grupo demonstra que as engrenagens da “diplomacia empresarial” continuam operando a pleno vapor, reciclando atores e ignorando as investigações que recaem sobre seus convidados e financiadores.
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