Governo anuncia R$ 60 milhões para o maior investimento da história em pesquisas sobre saúde menstrual e endometriose
Fonte: oriobranco.net | Data: 10/06/2026 14:50:52
Publicado em 10/06/2026
Foto: Rodrigo Cabral (ASCOM/MCTI)
Por Alessandra Karoline
Em uma iniciativa inédita para combater a invisibilidade e o subdiagnóstico de condições que afetam milhões de brasileiras, o Governo Federal anunciou o maior investimento da história do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) voltado à saúde da mulher. Serão destinados R$ 60 milhões para pesquisas científicas e desenvolvimento de tecnologias focadas em saúde menstrual, dor pélvica e endometriose.
O anúncio foi realizado em Brasília e oficializa uma parceria estratégica entre o setor público e o terceiro setor. Do montante total, R$ 50 milhões são oriundos do MCTI — e serão distribuídos por meio de uma chamada pública do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) —, enquanto R$ 10 milhões serão aportados pelo Instituto Alana. O objetivo central é fortalecer a produção de conhecimento científico e transferir soluções práticas para o Sistema Único de Saúde (SUS).
Além do fomento financeiro direto aos projetos, a cooperação com o Instituto Alana prevê a criação de uma Rede Nacional Estruturante de Pesquisa em Endometriose, Dor Pélvica e Saúde Menstrual.
Essa rede vai interligar os projetos selecionados pelo CNPq e oferecerá uma infraestrutura compartilhada para:
Comunicação científica e apoio aos pesquisadores;
Iniciativas de ciência cidadã (com participação ativa da comunidade);
Educação, formação e disseminação de informações sobre o tema.
As propostas que concorrerem à chamada pública do CNPq deverão se alinhar a cinco eixos temáticos fundamentais: causa e prevenção, diagnóstico, tratamento, biorrepositório (armazenamento de materiais biológicos para estudos) e impacto social.
O desafio do diagnóstico: 7 anos de espera
A endometriose é uma doença crônica que afeta cerca de uma em cada dez mulheres e meninas em idade reprodutiva no Brasil, somando um universo estimado de 8 milhões de pessoas — incluindo 2 milhões de adolescentes. Apesar de sua alta prevalência, a falta de informação e a naturalização do sofrimento fazem com que o diagnóstico demore, em média, sete anos para ser confirmado.
“Muitas mulheres convivem com dores intensas sem receber diagnóstico ou acolhimento adequados, e a endometriose é um exemplo dessa realidade. Essa iniciativa direciona atenção e investimentos para pesquisas sobre uma condição que afeta milhões de brasileiras”, destacou a primeira-dama, Janja Lula da Silva.
A ministra do MCTI, Luciana Santos, reforçou o papel do Estado diante do problema:
“Estamos diante de um problema de saúde pública que exige resposta. Esse investimento demonstra o compromisso do Governo do Brasil com a ciência como instrumento de cuidado, inclusão e promoção da qualidade de vida.”
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, também celebrou o avanço, assumindo o compromisso de traduzir os achados científicos em políticas públicas robustas dentro do SUS para um tema historicamente pouco debatido.
Os impactos invisíveis: Absenteísmo escolar e profissional
A dor menstrual severa não é apenas um desconforto físico; ela sabota o futuro de jovens e a estabilidade de trabalhadoras. Dados inéditos apresentados pelo Instituto Alana e pelo Instituto Equidade.info revelam a gravidade do cenário nas escolas e empresas brasileiras:
| Indicador Analisado | Impacto Identificado |
| Rotina Escolar | 6 em cada 10 estudantes (ensinos fundamental e médio) sofrem com cólicas fortes/moderadas. |
| Evasão Temporária | 4 em cada 10 alunas faltam às aulas ao menos uma vez por mês devido às dores menstruais. |
| Produtividade Adulta | Mulheres com cólicas severas perdem, em média, até 10,8 horas de trabalho por semana. |
Subnotificação nos prontuários médicos
O abismo entre os sintomas reais e os registros oficiais de saúde também foi mapeado. Um estudo realizado pela Vital Strategies Brasil e pelo Laboratório FrameNet Brasil (UFJF), com financiamento do Alana, analisou o prontuário de 469 mil pacientes em Recife (PE).
Embora apenas 0,5% das mulheres tivessem o registro formal de “dor menstrual ou pélvica” nos sistemas, a análise textual das anotações livres dos médicos revelou que 9% delas (mais de 41 mil casos) haviam relatado o problema nas consultas.
Para a CEO do Instituto Alana, Flavia Doria, a nova parceria quer quebrar esse ciclo: “A proposta é fortalecer a produção de evidências e criar condições para que o conhecimento científico se traduza em prevenção, diminuição de tempo de diagnóstico e cuidado desde a menarca (primeira menstruação).”