Doc brasileiro sobre pessoas intersexo será lançado no Raindance Film Festival, em Londres – TELA VIVA News
Fonte: telaviva.com.br | Data: 10/06/2026 20:21:58
Selecionado entre cerca de 4 mil inscritos para um dos festivais de cinema independente mais importantes do mundo, o documentário “Let Us Be” (“Me Deixa Ser”) dirigido pela cineasta brasileira Viviane D’Avilla, fará sua pré-estreia mundial no Raindance Film Festival, em Londres, no dia 20 de junho.
Produzido por Mariana Marinho, o longa, uma coprodução Brasil e Estados Unidos, das produtoras Dona Rosa Filmes e Social Construct, mergulha nas histórias íntimas de pessoas intersexo no Brasil, Índia e Estados Unidos para discutir diversidade corporal, identidade, autonomia sobre o próprio corpo e a violência provocada por cirurgias realizadas sem consentimento em crianças nascidas com características sexuais que fogem das definições tradicionais de masculino e feminino.
Com 88 minutos, “Let Us Be” acompanha personagens que transformaram experiências pessoais marcadas por invisibilização, preconceito e intervenções médicas em luta política e ativismo social. Ao reunir histórias de diferentes culturas e territórios, o filme revela como sociedades distintas reproduzem mecanismos semelhantes de repressão à diversidade corporal e de gênero.
“O filme é muito mais do que falar sobre intersexualidade. É falar sobre diversidade de corpos, de pessoas, de existências. No final, percebemos que as realidades são muito parecidas independentemente da cultura. O mundo condena o diferente”, pontua Viviane D’Avilla.
Trajetória
A ideia do longa surgiu a partir da experiência da diretora com o curta-metragem “GOPI”, iniciado em 2015 durante uma viagem à Índia. Inicialmente interessada em investigar questões relacionadas à sexualidade e diversidade no país, Viviane entrou em contato com o ativista intersexo indiano Gopi Shankar e passou a acompanhar sua luta contra cirurgias realizadas em bebês intersexo. O projeto acabou se transformando em um curta premiado, exibido no Festival do Rio, no Canal Futura e em festivais internacionais. A repercussão despertou o interesse do público em compreender mais profundamente o tema e abriu caminho para a realização do longa.
“Foi ali que comecei a entender melhor a complexidade da intersexualidade e o impacto dessas intervenções feitas tão cedo. O longa nasce dessa vontade de ampliar a conversa e olhar para diferentes culturas e territórios para entender como essas pessoas existem e resistem no mundo”, diz a diretora.
“Let Us Be” acompanha, entre outros personagens, a trajetória de Hida Viloria, uma das pioneiras do movimento intersexo internacional. Escritora e ativista, Hida nasceu com variação genital e foi criada sem passar pelas cirurgias cosméticas frequentemente realizadas em crianças intersexo. Ex-dirigente da Organization Intersex International (OII) e fundadora da Intersex Campaign for Equality (IC4E), liderou uma das primeiras articulações globais por direitos humanos da população intersexo junto à ONU.
No Brasil, o filme acompanha Carolina Iara, primeira parlamentar intersexo eleita da América Latina, mulher trans, negra, HIV positiva e ligada às religiões de matriz africana, e Vidda Guzzo, pesquisadora, escritora e uma das principais vozes do ativismo intersexo no Brasil.
Segundo a diretora, a escolha dos personagens partiu de um ponto em comum entre eles: a transformação da dor em ação política. “Eu queria pessoas que, de alguma maneira, transformaram suas vivências em luta. Pessoas que abriram possibilidades para outras gerações existirem de outra forma”, afirma.