Nova fronteira de investimentos: baterias podem atrair R$ 57 bi em dez anos para o Brasil
Fonte: estadao.com.br | Data: 11/06/2026 06:04:15
O armazenamento de energia tem potencial para se tornar uma nova fronteira de crescimento no setor elétrico brasileiro. A expectativa é que esse tipo de projeto atraia investimentos de mais de R$ 57 bilhões nos próximos dez anos, segundo levantamento da consultoria Deloitte.
As baterias entraram no radar dos investidores, sobretudo por causa da expansão das fontes renováveis intermitentes (que geram energia conforme as condições do tempo). Elas resolvem um dos principais problemas do setor elétrico atual: o excesso de geração solar e eólica em determinados horários e a falta de energia em outros. As baterias armazenam essa energia excedente e a liberam quando a demanda aumenta, criando valor para todo o sistema.
De olho nesse potencial, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou na semana passada a regulamentação dos sistemas de armazenamento. A agência determinou, por exemplo, que a cobrança da tarifa de uso da rede ocorrerá apenas na fase de descarregamento das baterias (injeção de energia na rede).
Leia também
-
Por que o Brasil tem excesso de produção de energia, mas a conta de luz não para de subir? Entenda
-
Crise às avessas: Aumento de energia solar provoca desequilíbrio, crise financeira e risco de apagão
-
Leilão inédito de baterias mobiliza investidores e abre novo mercado no setor elétrico
A medida evita a dupla tarifação com uma eventual cobrança também no carregamento (consumo), nos casos de empreendedores que optarem por ser integralmente despachados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Já os empreendedores autônomos, que não forem despachados pelo Operador, pagarão tanto pela geração quanto pelo consumo.
Outra iniciativa importante veio do Ministério de Minas e Energia, que informou ter assinado uma portaria com as diretrizes para o primeiro leilão de baterias do País, previsto para dezembro deste ano.
O diretor de Power & Utilities da Deloitte, Jovanio Santos, estima que, nesta primeira disputa, a demanda deve ficar em torno de 1,7 gigawatt (GW), embora admita que, pelos dados projetados pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), haveria espaço para até 2,5 GW. “Não será criada capacidade para poder inserir outra tecnologia no sistema”, disse.
Para ele, as baterias de larga escala são uma tecnologia importante para o Brasil desenvolver, tendo em vista o crescente volume de energia eólica e solar que precisa ser cortado do sistema (curtailment) atualmente. “Terminamos o ano passado com uma média de 21% de energia cortada, muito por conta da questão energética, ou seja, mais geração de energia do que carga para ser absorvida, e até 14 de maio, estamos com uma média de quase 18, muito em função de questão energética”, justificou.

Imóvel com geração de energia solar em São Paulo; energia produzida por fontes renováveis criou necessidade de uso de baterias
Foto: Tiago Queiroz/Estadão
O relatório da Deloitte diz que a trajetória de expansão das renováveis seguirá forte no médio prazo no Brasil, puxada pela carteira de projetos de solar fotovoltaica e eólica e pela geração distribuída (painéis instalados nas residências e estabelecimentos comerciais). A estimativa é que a capacidade instalada da micro e minigeração distribuída (MMGD) alcance 69 GW em 2030, mais de um quinto da capacidade instalada total, o que amplia os desafios operacionais do Sistema Interligado Nacional (SIN).
Isso porque a taxa de variação da demanda ao longo do dia deve superar os 52 GW até o fim da década, segundo dados do ONS, o que exigirá alta flexibilidade.
O Plano Decenal de Energia prevê a necessidade de 55 GW adicionais de potência até 2034, e as baterias podem responder por cerca de 9 GW desse total. Como o mercado brasileiro praticamente ainda não existe, muitos investidores enxergam a oportunidade de entrar cedo em um segmento que pode movimentar dezenas de bilhões de reais na próxima década.
Além disso, há um componente geopolítico e tecnológico. O custo das baterias de íons de lítio caiu drasticamente nos últimos anos, impulsionado principalmente pela produção chinesa. Isso tornou os projetos mais viáveis economicamente e abriu espaço para fabricantes, geradores, transmissoras, fundos de infraestrutura e empresas de tecnologia disputarem um mercado que já cresce rapidamente em países como Chile, Reino Unido, Itália, Estados Unidos e Austrália.
Os investidores veem as baterias como o equivalente atual ao que as linhas de transmissão foram há duas décadas: uma infraestrutura essencial para o funcionamento do sistema elétrico, com forte demanda futura e potencial de retornos estáveis por muitos anos.
Diante disso, Santos afirma que, além das baterias, é necessário avançar nas discussões da regulação das usinas reversíveis. “Elas servem para flexibilidade sazonal, de longo prazo, interanual, enquanto a bateria é mais para uma flexibilidade intradiária ou no mês, de mais curto prazo”, disse.
Entenda como será o leilão de baterias
O leilão de bateria é um leilão de reserva de capacidade, ou seja, feito para garantir que haja energia suficiente em momentos excepcionais, como quando há picos de demanda. Além do certame de baterias, leilões de térmicas e de hidrelétricas também podem ser de reserva de capacidade.
Esse tipo de leilão funciona como um seguro compulsório em que o governo contrata companhias para reduzir o risco de apagões. Com o aumento da energia gerada por usinas eólicas e solares, o leilão de reserva de capacidade se tornou mais necessário, dado que essas fontes são intermitentes.
As baterias serão, por exemplo, usadas para armazenar energia gerada por usinas solares durante o dia. Elas poderão colocar essa energia no sistema no horário de pico de demanda, entre 18h e 21h, após o pôr do sol. Usinas termelétricas e hidrelétricas também podem ser ligadas para gerar energia nesses horários de pico.
Segundo o superintendente de pesquisa da FGV Energia, Felipe Gonçalves, as baterias são uma boa saída para esses momentos de variação de demanda porque podem aumentar a oferta de energia em segundos, de forma mais rápida do que as hidrelétricas e as térmicas. Outra vantagem das baterias é que elas são mais fáceis de instalar, podendo ser colocadas em locais-chave para atender gargalos da rede. “Em vários pontos do País, é mais fácil colocar a bateria do que uma usina térmica. O custo de infraestrutura também é menor.”