Tsunami do Master, espectro da Lava Jato e a foto da polícia
Fonte: www1.folha.uol.com.br | Data: 20/06/2026 22:45:52
O espectro da Lava Jato ronda a investigação sobre o Banco Master? Talvez, mas ele também oferece lembranças proveitosas.
A esta altura da investigação a respeito do banco de Daniel Vorcaro e de suas ramificações, a associação tem aparecido em várias frentes e ressurgiu com força na recente fala do ministro Gilmar Mendes, no Supremo Tribunal Federal.
No voto em que defendia mandar o pai de Daniel Vorcaro para prisão domiciliar, o ministro evocou a malfadada operação. “É com certa incredulidade e alguma tristeza que registro que as providências adotadas no caso têm semelhanças com iniquidades da Lava Jato”, disse Gilmar, que vê a operação Compliance Zero “maculada pelo mesmo vezo do messianismo persecutório e do uso indevidamente instrumental do processo penal”.
O ministro foi rebatido pelo colega André Mendonça, relator do caso Master no STF. “Não estamos a julgar a Lava Jato. Estamos a julgar a maior fraude financeira da história do nosso país e uma das maiores do mundo.”
O editorial da Folha entrou na dança e lembrou o tipo de fantasma que costuma aparecer nesses casos: “Os ensinamentos da Lava Jato (…) recomendam cautela não só com o risco de abuso das autoridades incumbidas de investigar e processar. É preciso cuidado com as tramas de gabinete destinadas a enterrar operações que se aproximam de figurões de Brasília”.
As semelhanças e diferenças podem ser debatidas, mas na cobertura também há ecos do passado. Nada grave a princípio, mas se é para fazer melhor não custa repensar a reprodução da foto divulgada pela Polícia Federal com os achados em “endereços” do senador Jaques Wagner (PT-BA). A imagem mostrava montinhos de notas de dólar cuidadosamente enfileirados, alguns euros dobrados, 13 relógios dispostos lado a lado e dois distintivos da polícia encimando o material.
“PF encontra US$ 55 mil e 33 mil euros em endereços ligados a Jaques Wagner” era um dos títulos. A polícia contou “cerca de R$ 471 mil, em valores atuais”.
A apuração, porém, incluiria “pagamentos ligados ao Banco Master, por meio da empresa da esposa do enteado, além de um apartamento em Salvador avaliado em R$ 2,5 milhões”.
Talvez seja pedir demais, mas e os relógios? Além disso, qual é o sentido do recurso visual batido? “A Polícia Federal encontrou US$ 49 mil em dinheiro vivo no quarto de hotel em que Wagner mora, no Distrito Federal, além de 33,5 mil euros e US$ 6.175 em endereços ligados ao parlamentar na Bahia.” Nos detalhes, nada sobre relógios, só uma menção a uma apreensão de 2018, numa operação (Cartão Vermelho) posteriormente anulada pela Justiça.
A reprodução da foto da polícia sem informações suficientes sobre ela indica que ao menos um espectro pode ter mesmo rondado a cobertura: o da confiança excessiva nas autoridades.
Não significa necessariamente que houvesse problemas na imagem, mas as lacunas não deveriam ser ignoradas. A imagem servia à comunicação da operação, mas informava muito pouco.
A assessoria do senador alegou que “o montante [apreendido] é fruto de diárias legais, declaradas e não utilizadas em missões internacionais oficiais”. No dia seguinte, a Folha mostrou que uma brecha “permite a senadores embolsar diárias não gastas em missões oficiais”. O dinheiro, diz o jornal, vai ser periciado “para análise da origem das cédulas”. A certeza da foto, portanto, contrasta com o que se sabia da imagem e do que estava retratado ali.
Não custa lembrar que a Lava Jato foi desmontada por ter se apoiado em irregularidades que o excesso de certezas autorizou. Parte importante dos questionamentos à cobertura apontava também para essas questões.
Sem foto, porém, as suspeitas do que seria a atuação de Jaques Wagner em favor do Master no Senado parecem ter ficado em segundo plano. Elas se somam às investigações acerca do senador Ciro Nogueira (PP-PI) e de sua “emenda Master“ e adicionam elementos a uma trama que se complica cada dia mais.
Apenas na última semana, os jornais entregaram aos leitores um tsunami de “diz PF”. “Vorcaro pagou ao menos R$ 6 milhões em mesada a Ciro Nogueira, diz PF“, “Vorcaro bancou hotel em Lisboa para Motta e Ciro Nogueira, diz PF“, “Em diálogo com Vorcaro, Motta pediu empréstimo para cunhada“, “Vorcaro pagou propina de R$ 400 mil ao mês a agente da PF por informações sigilosas“. (A respeito deste último, leitor fez uma observação: “Ao ler o conteúdo, o agente era aposentado da PF”.)
As direções são muitas, e a gravidade só aumenta. Não custa recapitular de tempos em tempos o que há até aqui, quais acusações se sustentam e o que pode ter ficado pelo caminho.
Mesmo elementos mais concretos ou menos dúbios continuam a ser passíveis de questionamento. Por essas e outras, a foto com a apreensão montada em cima da cama parece uma peça de investigação “vintage”.
No meio de tanto, faria sentido se contentar com tão pouco?
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