Cuba jamais se renderá e, se tivermos que morrer, morreremos’, diz escritor cubano Abel Prieto
Fonte: www1.folha.uol.com.br | Data: 21/06/2026 05:10:23
Aos 76 anos, o escritor cubano Abel Prieto já foi rotulado como marxista-lennonista por sua admiração por John Lennon e é, há muitas décadas, a cara da ilha nos meios culturais ao redor do mundo.
Hoje presidente da organização cubana Casa de las Américas, Prieto, que foi ministro da Cultura de Cuba de 1997 a 2012 e, num segundo período, de 2016 a 2018, diz que o país está submetido a um duro embargo econômico há 60 anos —mas que agora isso se transformou em algo “terrível”.
No mês passado, ele veio ao Brasil para participar da conferência “A Saída é Pela Esquerda – Goodnight, Far Right”, organizada pela Fundação Rosa Luxemburgo. E recebeu a coluna para uma entrevista em que disse que Cuba jamais cederá. “Se tivermos que morrer, morreremos”, afirma.
Eu acredito que os brasileiros têm uma pergunta bem simples para fazer a um cubano, que é: como está a vida sob com o atual bloqueio econômico?
O bloqueio, que já dura mais de 60 anos, tem sido duro. Mas, nos últimos tempos, neste segundo mandato [do presidente norte-americano Donald] Trump, ele tem sido terrível. Especialmente depois da operação na Venezuela. Com o sequestro de Nicolás Maduro, Trump começou a apertar mais o nosso país. Hoje, inclusive, nós temos um cerco energético que não permite a entrada de combustível em Cuba.
Mas alguns países conseguem enviar petróleo à ilha, não?
Não, não. Há um mês entrou um navio russo [em Cuba, levando combustível]. Depois disso, não conseguimos mais receber envios [de petróleo]. É um cerco impiedoso, que provocou praticamente um colapso. Não há transporte público [em Cuba].
E como as pessoas se locomovem?
De bicicleta, caminhando. Alguns têm carros elétricos. Os que têm um pouquinho de combustível cobram uma fortuna para te levar de um para o outro lado.
É um momento de extrema tensão, uma situação que afetou inclusive a nossa saúde pública.Hoje, dezenas de milhares de cubanos esperam por cirurgias por causa da [falta de] eletricidade.
As cidades ficam sem luz?
Por muitas horas. Em Havana, são 22 horas sem eletricidade. Duas horas apenas com luz. No interior é às vezes muito pior.
E o pouco de energia que vocês têm vem de onde?
Com a chegada do petroleiro russo, tudo melhorou rapidamente. Mas [o estoque trazido pelo navio] já terminou, e estamos agora refinando petróleo cubano.
É uma inventividade dos nossos engenheiros, dos que trabalham no Ministério de Energia e Minas, que conseguiram refinar o petróleo cubano, que é muito pesado, tem muito enxofre, mas que se usa para gerar energia elétrica.
Mas isso supre as necessidades do país?
Não. É uma jogada [dos EUA] sinistra, que nos levou também ao colapso do turismo, uma fonte de divisas muito importante para Cuba que está praticamente arruinada.
Quantos voos e cruzeiros ainda chegam em Cuba?
Os cruzeiros [que levavam milhares de turistas à ilha] são da época do [Barack] Obama [que presidiu os EUA de 2009 a 2017], daquele momento em que as relações diplomáticas entre os dois países foram retomadas, embaixadas foram abertas.
Obama permitiu que as companhias de cruzeiros com turistas norte-americanos visitassem Havana e outros portos cubanos.
Turistas europeus também viajavam ao país.
Sim, os europeus iam muito a Cuba. Mas eles têm o privilégio do visto Esta [uma autorização eletrônica de viagem para os EUA], que conseguem obter com relativa facilidade, de maneira rápida, para entrar no território norte-americano.E, agora, o cidadão da União Europeia que pisar em solo cubano perde a possibilidade de adquirir esse visto.
São medidas de muita pressão. Hotéis de Havana e Varadero, que são os dois únicos polos turísticos que se mantêm, estão se compactando e fundindo. O impacto na cultura é muito grande. Músicos que tocavam em hotéis e outros equipamentos turísticos, por exemplo, estão desempregados.
Os EUA estão agora pressionando outros países para que cortem todos os nossos programas de cooperação médica [como o Mais Médicos], que nos permitiam ganhar algum dinheiro beneficiando outros povos. Guatemala, Jamaica, Honduras, todos foram cortando a presença de médicos cubanos [em seus territórios].
A companhia canadense Sherritt, que há décadas explorava jazidas de níquel, foi embora por medo das represálias dos EUA, por medo do monstro. Estavam em Cuba há décadas e, de repente, diante da pressão desse imperador pedófilo e sinistro, foram embora.
Cubanos que vivem fora e querem mandar remessas para suas famílias têm que fazer isso por meio de um viajante, em dinheiro vivo, porque nenhuma companhia bancária aceita fazer a transferência.
Foram cortando tudo. O plano deles é provocar um levante popular pelo desespero, pelos apagões, pela falta de comida e remédio.
E isso, de fato, não pode acontecer? Os cubanos, afinal, não almejam uma outra situação?
As redes sociais e todo um plano de intoxicação midiática apresenta o governo como responsável por tudo. Mas os cubanos sabem perfeitamente quem é o verdadeiro responsável.
No Primeiro de Maio, as pessoas fizeram fila, com suas carteiras de identidade, para se comprometer a defender a soberania do país, num processo convocado por sindicatos, pela sociedade civil, chamado “Minha Assinatura pela Pátria”.
Mas não pode chegar o momento em que mesmo as pessoas que apoiam o governo pensem que é melhor se render do que morrer de fome?
Em 2021, os ianques conseguiram [estimular] uma sublevação em várias cidades de Cuba, por meio de hashtags nas redes sociais pedindo liberdade.
Conseguiram um levante, uma insurreição que resultou em vandalismo, com marginais quebrando vitrines e levando ventiladores, televisões nas lojas.
Houve uma imagem que deu a volta ao mundo em toda a imprensa hegemônica, que é muito anti-cubana, que era a imagem de uma insurreição popular, do fim da ditadura. Mas era uma foto do Egito, uma imagem falsa.
A promotoria cubana acusou os vândalos, os instigadores. Muitos jovens entraram na empolgação e na gritaria, e jogaram pedras também. Os mais violentos foram presos. Estavam [os EUA] desesperados para que algo assim se repita, mas não conseguiram.
O povo cubano já deu repetidas demonstrações de firmeza e de lealdade à revolução, de senso do momento histórico, de saber o que fazer e que mensagem precisamos mandar aos nossos inimigos.
O nosso presidente, Díaz-Canel, disse muitas vezes, publicamente: estamos dispostos a dialogar. Não somos um país de guerra. Somos um país de paz. Mas, se nos agredirem, vamos resistir e haverá combate.
Mas como resistir a um ataque armado da maior potência do mundo?
Nos anos 1980, Ronald Reagan invadiu Granada, enviando a uma ilhazinha de 100 mil habitantes uma força bélica desproporcional. Havia cubanos lá, e os russos responderam que não poderiam ajudar em nada.
Fidel criou então o que chamou de doutrina de guerra de todo o povo, uma doutrina de resistência militar em que uma comunidade pequena, um bairro, podem ser zonas de defesa.
O conceito é tornar impossível a ocupação militar de Cuba.
Mas a população cubana não está armada.
Sim, há armas para dar ao povo. São armas tradicionais, que jamais poderiam vencer a grande tecnologia. Mas a ideia é que não consigam nos ocupar.
Raúl Castro dizia: Cuba vai virar um vespeiro, e o ocupante não poderá se manter no país.
O senhor diz que o povo apoia a revolução. Mas há liberdade em Cuba para os descontentes se manifestarem?
Sim, já houve panelaços.
Tem que haver gente cansada, há muitos que foram embora do país por causa das grandes dificuldades. Principalmente jovens.
O próprio [presidente de Cuba] Díaz-Canel disse a eles que tenham sorte nos países onde vão se instalar e voltem depois para nos ajudar a sair da crise.
Nós não politizamos a decisão de emigrar, de forma alguma, e podemos entender que uma pessoa se desespere pois não vê possibilidade de um projeto de vida equilibrado no país.
Vocês temem uma invasão por terra?
Não sou especialista, mas não acredito nisso. Acho mais possível fazerem ataques cirúrgicos com drones, em que não se arriscam nada, para danificar nossas termoelétricas e lugares que têm valor econômico e simbólico, como a Praça da Revolução.
Agora, em invasão, eu não acredito. Eles sabem ler os sinais.
De qualquer forma, os EUA têm força para manter esse bloqueio econômico a ponto de levar a população ao desespero.
Está acontecendo.
Até que ponto, numa negociação, Cuba está disposta a ceder?
Se não forem questões de princípio, podemos avaliar. Os EUA, por exemplo, poderiam se beneficiar da indústria de biotecnologia de Cuba.
Há muito o que negociar, mas em questões de princípios, não vamos ceder. Não vamos ceder à mudança do sistema socialista. Seria negar tudo, negar Fidel, negar Martí. Díaz-Canel já disse: se tivermos que morrer, morreremos. Morrer pela pátria é viver, assim diz o hino cubano.
Em Cuba, pode haver gente cansada, pode haver gente acovardada, gente que se impregnou do espírito anticomunista. Mas são uma minoria, que não tem peso.
Não há uma contrarrevolução e Cuba que tenha verdadeira influência. Nunca conseguiram isso.
Temem que aconteça em Cuba algo parecido com o que aconteceu na Venezuela, em que os EUA sequestraram Maduro, ou no Irã, em que assassinaram seu principal dirigente?
Sempre é possível. Mas a direção do país é coletiva. O próprio Díaz-Canel diz isso: sou parte de uma direção coletiva.
Mas não acredito em um sequestro [como o de Maduro]. São outras condições. Acho que sabem disso. Ou deveriam saber.
O que a derrota de Lula, no Brasil, significaria para Cuba?
A vitória de Lula é importante para a nossa América e para o mundo.
Este continente está se enchendo de fascistas. Gustavo Noboa no Equador, Nayib Bukele em El Salvador, [Javier] Milei na Argentina, e agora [José Antonio] Kast no Chile, um filho de nazistas. Não [é] um cara que leu Hitler, mas sim que tem o sangue de um nazista.
Na reunião Escudo das Américas, que Trump fez em Miami, o presidente do Equador expulsou o pessoal diplomático de Cuba da embaixada de Quito. Uma coisa grosseira que me dá vergonha alheia, alguém que faz isso para dar uma piscadela ao imperador.
É triste tudo isso, e o triste é as pessoas votarem nesse indivíduo em meio a esse clima de tanta demagogia e manipulação.
A democracia, hoje, está submetida a condições tóxicas. O exercício democrático está se tornando uma caricatura, e quem está levando a melhor é o fascismo.
com DIEGO ALEJANDRO, JULLIA GOUVEIA e KARINA MATIAS
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