Baixar Notícia
WhatsApp
Email

Diretriz inédita no país aponta quem realmente precisa tomar testosterona

Fonte: veja.abril.com.br | Data: 04/09/2026 06:00:48

🔗 Ler matéria original

REPOSIÇÃO - Critérios definidos: entidades indicam para casos de deficiência comprovados
REPOSIÇÃO – Critérios definidos: entidades indicam para casos de deficiência comprovados (./Getty Images)

Ela protagoniza postagens de influenciadores e receituários de profissionais com currículos duvidosos. Tem mil e um predicados: faz músculos crescerem, deixa o corpo sarado, aumenta a disposição e levanta a libido. Com tantas promessas por aí, a testosterona nunca ganhou tantos adeptos, dentro e fora dos consultórios médicos. Mas há um lado que a propaganda não mostra: os riscos de usar o hormônio sem indicações balizadas pela ciência. É nesse cenário de uso e abuso da substância que foi publicado o primeiro consenso brasileiro de reposição de testosterona. Amparado em dezenas de estudos, o documento assinado pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), pela Associação Brasileira de Estudos em Medicina e Saúde Sexual (ABEMSS) e pela Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) define quem, de fato, precisa do tratamento hormonal, os níveis que indicam o déficit e até mesmo o horário adequado para a realização dos exames — o que faz diferença no diagnóstico.

A história da testosterona, a bem da verdade, é marcada por deslumbramentos. Do Império Romano até o século XIX, antes mesmo de se descrever quimicamente a molécula, o hormônio sexual masculino era considerado um elixir para turbinar a energia e a potência sexual. Do consumo de testículos de animais às injeções de esteroides anabolizantes, o que não mudou ao longo dos séculos foi o aspecto sedutor do expediente, hoje repaginado como panaceia que atrai não só ratos de academia, mas também homens e mulheres que querem envelhecer com mais vigor. O problema é o preço que o uso sem critério pode cobrar: danos potencialmente letais a órgãos como coração e fígado.

USO INDEVIDO - Fins estéticos: utilização da droga é vetada pelo CFM
USO INDEVIDO - Fins estéticos: utilização da droga é vetada pelo CFM (./Getty Images)

Recém-apresentada em um congresso médico, a nova diretriz não foca nos riscos da utilização pela população geral, uma vez que já está consolidado que a aplicação estética e para ganho de massa e força muscular não é segura — a ponto de ser proibida pelo Conselho Federal de Medicina. Seu objetivo é esclarecer, inclusive para os profissionais, quem realmente precisa repor o hormônio. “Hoje falamos do abuso da testosterona, mas os homens que têm a deficiência também precisam ser reconhecidos”, diz o endocrinologista Alexandre Hohl, presidente da ABEMSS. Porque realmente essas pessoas podem perder qualidade de vida devido a uma condição passível de tratamento, o hipogonadismo, marcado pela produção inadequada do hormônio masculino e não necessariamente ligado ao avanço da idade.

As três entidades médicas fizeram, portanto, uma varredura da literatura científica sobre o tema a fim de direcionar melhor a suspeita e a investigação do quadro, que afeta cerca de 5% dos homens entre 40 e 80 anos. Isso contempla avaliação de sintomas, como perda de desejo sexual e dificuldades de ereção, e exames de sangue certos realizados no momento certo — no caso, na janela das 7 às 10 horas da manhã, para acompanhar o pico fisiológico da testosterona. O consenso também desmistifica outra questão frequentemente alegada para indicar a medicação: o envelhecimento. Há, de fato, uma redução dos níveis hormonais com a idade, mas ela é residual — a estimativa é que a queda gire em torno de 1,6% ao ano, o que não justificaria prejuízos nem a reposição. “Há uma ideia equivocada de comparar o que acontece no homem com a menopausa na mulher, quando a baixa hormonal é intensa e traz consequências para o seu bem-estar”, diz o urologista Leonardo Seligra Lopes, da SBU. Por falar em mulheres, outro público que se rendeu à testosterona, a única indicação avalizada por pesquisas é a perda consistente de libido após a menopausa.

Infográfico sobre as novas regras para prescrição de testosterona, com seções sobre indicação, medição, valores de referência, exames complementares e contraindicações, incluindo um gráfico de barras vertical com faixas de níveis hormonais

Voltando aos homens, mesmo em casos de diagnóstico de hipogonadismo, a reposição de testosterona pode não ser o tratamento indicado. Um exemplo é quando a condição está ligada ao excesso de peso. “Entre 30 e 50% dos homens que vivem com obesidade podem ter hipogonadismo. Quanto maior o índice de massa corporal, maior o risco”, afirma Hohl. Nessas situações, mudanças no estilo de vida e a perda de peso podem reverter a carência. O tratamento hormonal também tem contraindicações claras, como histórico de câncer de próstata ou infarto recente.

Ao contrário do que se prega no mundo virtual, a testosterona não deve ser encarada como mais um suplemento para alavancar os ânimos e o desempenho físico e sexual. Como outros hormônios, sua reposição só faz sentido quando houver motivos sérios e estabelecidos para isso. Felizmente, agora os brasileiros já têm uma bússola em mãos para guiá-los.

Publicado em VEJA de 4 de setembro de 2026, edição nº 3011