Fachin determina que Mendonça e Moraes se manifestem sobre caso Master
Fonte: sul21.com.br | Data: 04/09/2026 11:54:09

Ministro Edson Fachin | Foto: TSE
Nos últimos dias, novas revelações da investigação sobre a fraude envolvendo o Banco Master colocaram no centro do noticiário as possíveis relações do ex-dono da instituição, Daniel Vorcaro, com agentes públicos, especialmente os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e André Mendonça.
Como informa o G1, o presidente do STF, Edson Fachin, determinou nesta quinta-feira (3) que Mendonça e Moraes se manifestem, em até cinco dias úteis, sobre os acontecimentos que causaram uma crise no STF.
As relações com Alexandre de Moraes se mostram as mais profundas, de acordo com o relatório das investigações cujo sigilo foi retirado por André Mendonça nesta terça-feira (1º). Mensagens trocadas entre Vorcaro e Moraes indicam que o banqueiro teria consultado o magistrado sobre a possibilidade de deixar o país dois dias antes de ser preso pela Polícia Federal.
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Segundo informações divulgadas inicialmente pelo O Estado de S. Paulo e, depois, também pela TV Globo, em 15 de novembro de 2025, Vorcaro perguntou a Moraes: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Na mesma mensagem, questionou se o caso estaria sob responsabilidade de um juiz chamado Ricardo; se o então presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, tinha conhecimento da situação e se seria possível “fazer algo”.
Quarenta e oito horas depois, na noite de 17 de novembro, Vorcaro foi preso pela PF no Aeroporto Internacional de São Paulo, quando tentava embarcar em um avião particular com destino a Dubai. A operação investigava suspeitas envolvendo a venda de títulos de crédito falsos.
No dia 16, um dia antes da prisão, Vorcaro teria voltado a procurar Moraes. “Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”, perguntou ao ministro. Em outra mensagem, teria sugerido um encontro com Moraes: “às 14h então, na sua casa ou na minha?”.
Ainda está sob investigação a existência de um contrato de R$ 131 milhões entre o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, e Vorcaro. Alexandre de Moraes teria revisado o contrato.
Segundo manifestação do escritório de Viviane, o setor de compliance procurou o ministro, na condição de marido da sócia-diretora, para verificar a existência de eventuais impedimentos legais para a contratação.
Segundo a CNN Brasil, o ministro André Mendonça avalia levar à Fachin um pedido formal de abertura de investigação sobre a atuação de Moraes. Em resposta, Alexandre de Moraes retirou o sigilo de decisão que aponta supostas irregularidades na atuação do ministro Mendonça na relatoria do caso Master.

Com André Mendonça, a relação é diferente. O ministro teria se encontrado com Vorcaro no começo de 2025. As informações foram divulgadas pelo ICL Notícias, em reportagem publicada na coluna de Paulo Motoryn.
A articulação começou em 7 de fevereiro de 2025, quando o advogado Ciro Rocha Soares tentou falar com Vorcaro e informou que estava com André Mendonça. No dia seguinte, Ciro enviou um áudio em que afirmou estar “trabalhando” por Vorcaro.
Em 16 de fevereiro, Ciro voltou a procurar o banqueiro e disse que Mendonça queria recebê-lo. “Opa, Dani!!! Preciso muito falar com você. O A.M. quer recebê-lo. E preciso agendar o quanto antes”, escreveu o advogado.
Em um áudio enviado naquele período, Ciro afirmou ter conversado com Mendonça sobre um assunto relacionado aos problemas enfrentados pelo Banco Master no Banco Central. Disse ainda que havia deixado o ministro “balançado” e que Mendonça queria receber Vorcaro.
No dia 17 de fevereiro, Ciro combinou de conversar com Vorcaro e uma reunião teria sido marcada para 19 de fevereiro. As mensagens comprovam o agendamento desse primeiro compromisso, mas não permitem afirmar que Vorcaro e Mendonça tenham efetivamente se encontrado naquela ocasião. Não há registros suficientes de deslocamento, chegada ou saída que confirmem a reunião.
Quase um mês depois, em 13 de março, outra reunião foi marcada para as 17h do dia seguinte, em São Paulo. O endereço era a Alameda Santos, 647, 16º andar, onde Mendonça estaria no local para receber o banqueiro.
O endereço indicado corresponde ao Instituto Iter, fundado por André Mendonça em 2023. Nesta quinta-feira (3), Mendonça anunciou que vai deixar a sociedade no Iter, instituição de ensino privada que oferece cursos de capacitação e pós-graduação executiva.
A reunião de 14 de março de 2025 é comprovada pelo conjunto de mensagens analisado, segundo o ICL Notícias. Em outro momento, o ministro e o ex-dono do Master também se encontraram, mas para depoimento de Vorcaro.
Na quarta-feira (2), André Mendonça confirmou, em nota, que colheu depoimento de Daniel Vorcaro no próprio gabinete. O texto não informa quando ocorreu a reunião, mas destaca que se deu após o dono do Banco Master relatar intimidações sofridas e pedir para ser ouvido com urgência.
O depoimento foi acompanhado por um representante do Ministério Público (MP), mas não havia ninguém da Polícia Federal (PF) presente. Lembrando que Mendonça é relator do caso Master no Supremo.
Vorcaro e políticos
O envolvimento de Daniel Vorcaro vai além dos ministros do STF. Desde sua prisão e a revelação do esquema criminoso, políticos também passaram a ser associados ao ex-dono do Banco Master.
Segundo informação do UOLconfirmada pela Folha de S. Paulo, Vorcaro teria afirmado na sua última proposta de delação premiada enviada à Polícia Federal e ao Ministério Público — que foi rejeitada — que as doações de R$ 5 milhões em 2022 às campanhas de Jair Bolsonaro (PL) e Tarcísio de Freitas (REP) foram pagamentos de propina. A articulação teria sido feita com Gilberto Kassab, presidente do Partido Social Democrata (PSD).
O esquema teria começado em janeiro de 2022, conforme apuração do UOL, com um ex-sócio de Vorcaro, Augusto Lima, intermediando as negociações. O objetivo desse acordo era a manutenção do Credcesta pelo governo estadual paulista. O cartão de crédito consignado é de uma das empresas ligadas ao Banco Master.
A intenção, segundo a reportagem, era garantir a continuidade do esquema com a vitória de Tarcísio nas eleições daquele ano. Kassab teria acertado como pagamento 5% da receita líquida da operação do Credcesta.
Segundo Vorcaro, em delação que ele negou ter feito e à qual o UOL teve acesso, os pagamentos foram realizados de duas formas: R$ 5 milhões em doações de campanha para Tarcísio e Bolsonaro e outros R$ 10 milhões, em espécie, por meio de caixa dois, destinados ao PSD.
Em nota à Folha de S. Paulo, Tarcísio de Freitas afirmou que “nunca teve qualquer contato ou relação” com o banqueiro. Kassab também negou ter falado com Vorcaro e classificou o relato do banqueiro como “fantasioso”.

Novos vazamentos do celular de Vorcaro também revelaram trocas de mensagens entre o banqueiro e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). Conforme apuração do ICL Notícias, Nikolas — que chama o banqueiro atualmente preso de “Dani” — pede que Vorcaro ajude seu ex-assessor de gabinete, Thiago Rodrigues de Faria, para liberar “um ativo de minério”.
Ao final do áudio, enviado em 30 de março deste ano, Nikolas Ferreira diz que “quer ter mais proximidade” com o então dono do Banco Master. Em resposta, Vorcaro atende ao pedido do deputado: “Amém, irmão. Estamos na guerra juntos”.
Já em conversa com o empresário Flávio Carneiro, em abril de 2024, Daniel Vorcaro revela que bancou todos os voos de Nikolas Ferreira, como aponta investigação também do ICL Notícias. “Esse Nikolas eu banquei todos os voos dele”, afirmou o banqueiro, que ainda ameaça expor Nikolas.
O deputado federal também foi cobrado por Vorcaro após Nikolas publicar nas redes sociais críticas a um evento realizado em Londres, que reuniu integrantes do governo Lula e ministros do STF, STJ e TSE. Vorcaro havia apoiado financeiramente o encontro e se incomodou com a repercussão negativa provocada pelo posicionamento do deputado.
Então, ele pede ao pastor André Valadão, de Minas Gerais, que interceda junto ao parlamentar. Segundo o relato, Nikolas teria dito ao pastor de sua “gratidão” por Vorcaro e se desculpou pelas críticas.
“Troquei ideia lá com o pastor Valadão naquela época, lá naquela postagem. Eu falei: ‘Pastor, eu não fazia ideia que era este o banco do Dani etc. e tudo. Senão, obviamente, eu não teria postado, já teria conversado anteriormente’. Mas, enfim, acabou que a palavra dita não tem como voltar né?”, disse Nikolas no mesmo áudio enviado ao banqueiro pedindo ajuda ao ex-assessor.
“Mas espero que tenha sido esclarecido, enfim, depois vamos marcar da gente se encontrar também, tá bem? Um abraço, Dani”, conclui Nikolas Ferreira.

Em maio ainda, o Intercept Brasil revelou que o senador e candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) mantinha relação próxima com Daniel Vorcaro. Em mensagens trocadas pelo WhatsApp obtidas pelo portal, Flávio negocia cerca de R$ 134 milhões com o banqueiro para o financiamento da produção de “Dark Horse”, filme biográfico sobre o pai e ex-presidente da República, Jair Bolsonaro.
Cerca de R$ 61 milhões teriam sido pagos entre fevereiro e maio do ano passado para financiar o projeto. Em novembro, o futuro presidenciável teria enviado a Vorcaro uma mensagem com a seguinte frase: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”.
O senador confirmou encontro com Vorcaro durante o período em que o banqueiro estava sob prisão domiciliar em São Paulo, em novembro . Ele também admitiu ter recebido parte do pagamento acordado.
“Eu fui sim ao encontro dele para botar um ponto final nessa história, para dizer que se ele tivesse me avisado que se a situação era grave como essa, eu teria ido atrás de outro investidor há bastante tempo”, admitiu Flávio na coletiva. Além disso, o candidato afirmou que, à época, o banqueiro era visto como um empresário “acima de qualquer suspeita” e que buscava negociar com ele somente como forma de financiar a produção do filme.
‘Maior roubo da história’, afirma Lula
As novas revelações das investigações sobre o esquema operado por Daniel Vorcaro no Banco Master levaram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a se manifestar sobre a crise. Em pronunciamento na noite desta quinta-feira, Lula defendeu que as investigações avancem até a conclusão do caso, “doa a quem doer”.
“O escândalo do Banco Master é o maior roubo da história do Brasil”, afirmou Lula. “O banqueiro líder do esquema tem relações com muita gente poderosa.”
“Há suspeita de políticos e agentes públicos envolvidos. A nossa democracia não pode ficar refém de vazamentos seletivos”, ressaltou o presidente.
“Diante da gravidade do momento, o povo brasileiro espera que o presidente da Suprema Corte e a Procuradoria-Geral da República liderem um processo que garanta a integridade e a transparência nas investigações”, destacou Lula.