Banco de Edir Macedo investiu R$ 271 milhões em papéis podres semelhantes aos usados pelo Banco Master
Fonte: brasil247.com | Data: 18/09/2026 05:09:05
247 – O Banco Digimais, controlado pelo grupo Record de Edir Macedo, investiu R$ 271,4 milhões em títulos do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc) considerados praticamente sem valor, em uma operação que apresenta semelhanças com mecanismos investigados no escândalo do Banco Master. As informações são da Folha de S.Paulo.
O investimento foi realizado por meio do fundo Betel, administrado pela Reag, gestora posteriormente liquidada pelo Banco Central. Todo o patrimônio do fundo estava aplicado nas chamadas cártulas do Besc.
A dimensão da operação chama atenção: os R$ 271,4 milhões investidos pelo Digimais no Betel correspondiam a cerca de 82% do patrimônio líquido do próprio banco, que era de R$ 331 milhões.
Papéis do antigo Besc
O Besc foi incorporado pelo Banco do Brasil em 2008. Antigas cártulas emitidas pela instituição passaram posteriormente a aparecer em operações financeiras nas quais eram contabilizadas por valores muito superiores ao seu valor econômico efetivo.
Esses papéis físicos possuem hoje essencialmente valor histórico, mas foram utilizados em estruturas financeiras nas quais receberam avaliações milionárias.
Segundo a Folha, mecanismos semelhantes envolvendo títulos do Besc apareceram nas investigações sobre o Banco Master.
A Polícia Federal sustenta que o Digimais teria reproduzido práticas identificadas no Master, especialmente por meio da superavaliação de ativos nos balanços da instituição.
Fundo tinha R$ 271,4 milhões
O Betel foi criado em abril de 2025 com o nome PNG International Bank e teve sua denominação alterada dois meses depois.
As cotas foram integralmente adquiridas pelo Digimais.
O resultado foi uma estrutura na qual R$ 271,4 milhões do banco ficaram aplicados em um fundo cujo patrimônio estava concentrado nos títulos do antigo Besc.
A operação é relevante porque a contabilização de ativos por valores elevados pode produzir efeitos sobre a aparência patrimonial de uma instituição financeira.
É justamente esse tipo de mecanismo que está no centro das investigações da Polícia Federal sobre eventuais manipulações contábeis no sistema financeiro.
PF investiga Digimais
O Digimais é alvo da Operação Miragem, da Polícia Federal, que apura suspeitas de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional.
Entre as hipóteses investigadas estão gestão fraudulenta, inserção de informações falsas em demonstrativos financeiros e operações de crédito realizadas em desacordo com as normas.
A PF afirma que o banco teria utilizado um “modelo operativo” semelhante ao atribuído ao Banco Master, incluindo a superavaliação de ativos.
As acusações permanecem sob investigação e ainda precisam ser submetidas ao devido processo legal.
Reag também aparece no caso Master
Outro ponto de conexão é a Reag, responsável pela administração do Betel.
A gestora, que administrou diversos fundos relacionados a operações investigadas no caso Master, foi liquidada pelo Banco Central em janeiro deste ano por graves violações às normas que regem o Sistema Financeiro Nacional.
Outros fundos ligados à Reag, como SDG II e BB Claim, também aparecem em investigações envolvendo títulos do Besc.
As autoridades investigam se essas estruturas foram utilizadas para atribuir valor artificial a ativos e sustentar operações financeiras que não correspondiam à realidade econômica dos papéis.
Banco e CVM apresentam informações divergentes
Segundo a Folha, o Digimais afirmou que o Betel deixou de fazer parte de seu portfólio em outubro de 2025.
Dados registrados na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), porém, indicariam situação diferente daquela apresentada pela instituição.
A divergência acrescenta mais uma questão às investigações: em que momento o Digimais efetivamente deixou de ser cotista do fundo e como a operação foi contabilizada nos demonstrativos do banco.
Prejuízo chegou a R$ 581 milhões
A situação financeira do Digimais deteriorou-se fortemente.
O banco registrou prejuízo de R$ 581,4 milhões no primeiro semestre de 2026, depois de ter apresentado lucro de R$ 42,1 milhões no mesmo período do ano anterior.
O índice de Basileia da instituição caiu para -4,62%, muito abaixo do mínimo regulatório de 10,5%. A instituição também acumulava R$ 8,692 bilhões em depósitos. O Digimais vinha negociando uma possível venda ao BTG Pactual.
As investigações da Polícia Federal, no entanto, aumentaram as incertezas em torno da instituição.
Semelhanças com o caso Master
A descoberta do investimento de R$ 271,4 milhões em papéis do Besc acrescenta um novo elemento às conexões entre diferentes operações que vêm sendo investigadas no sistema financeiro.
No caso do Banco Master, fundos administrados pela Reag e ativos de difícil avaliação também aparecem no centro das apurações.
Agora, os investigadores procuram determinar se o Digimais utilizou estruturas semelhantes para superavaliar ativos e apresentar uma situação patrimonial mais sólida do que aquela existente na prática.
O dado mais expressivo permanece sendo a dimensão da aposta: R$ 271,4 milhões, equivalentes a 82% do patrimônio líquido do Digimais, foram colocados em um fundo integralmente concentrado em papéis do extinto Besc.
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