Super El Niño: como o fenômeno pode afetar a saúde das crianças
Fonte: revistacrescer.globo.com | Data: 02/10/2026 08:48:21
Você já deve ter ouvido falar do Super El Niño, um fenômeno climático que consiste no aquecimento extremo e anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Ele interfere no clima de diferentes regiões do mundo e também pode ter impacto na saúde, principalmente nas crianças, que são as mais vulneráveis para as mudanças climáticas.
O assunto foi discutido durante o 8º Congresso Internacional Sabará-Pensi de Saúde Infantil, realizado em São Paulo, na quinta-feira (1º). Em uma das palestras do evento, Julio Barbosa Chiquetto, professor investigador no Colégio Latino Americano de Estudos Mundiais, falou sobre os impactos do chamado “Super El Niño” e explicou por que as mudanças no clima podem representar riscos especialmente importantes para a população infantil.
O que é o Super El Niño?
O El Niño é um fenômeno natural relacionado a uma alteração nas temperaturas do Oceano Pacífico. Em condições normais, os ventos alísios deslocam as águas quentes em direção à região da Ásia e da Oceania. Durante o El Niño, esses ventos enfraquecem e ocorre uma concentração de águas mais quentes no Pacífico tropical.
Essa mudança altera o regime de chuvas e temperaturas em diferentes partes do planeta. Como o Oceano Pacífico ocupa uma área enorme, alterações em suas correntes oceânicas e atmosféricas podem produzir efeitos muito além da região onde o fenômeno acontece.
“O Oceano Pacífico é praticamente metade do nosso planeta em extensão. Então, qualquer mudança que a gente tenha nas correntes oceânicas e atmosféricas nessa região, vai afetar e tem impactos no mundo inteiro”, afirmou Júlio Barboza Chiquetto.
O evento atual chama atenção pela intensidade. Segundo Chiquetto, uma anomalia de temperatura da superfície do mar acima de 2 °C já é considerada de intensidade muito forte. No segundo semestre de 2026, a anomalia mencionada pelo pesquisador chegou a 3,1 °C.
“Por isso ele tem esse nome, porque ultrapassa em muito a intensidade que já é considerada muito forte”, ressaltou.
O que pode acontecer em diferentes regiões do Brasil?
O fenômeno já atingiu o Brasil e deve ter seu ápice entre o fim de 2026 e o início de 2027. Os efeitos não são iguais em todo o país. Saiba as previsões do especialista para cada região do Brasil:
- Nordeste: previsão de temperaturas acima da média e períodos de seca. Como parte da região já tem clima árido ou semiárido, a redução das chuvas pode afetar os reservatórios, o abastecimento de água e a geração de energia.
- Centro-Oeste: o cenário inclui calor, seca e maior risco de queimadas, com possíveis impactos também sobre o Pantanal.
- Sudeste: a previsão combina períodos secos com episódios de chuvas intensas, o que pode aumentar o risco de deslizamentos e pressionar os reservatórios.
- Sul: a principal preocupação é o excesso de chuva e a ocorrência de eventos extremos, como tempestades, granizo, vendavais, tornados, inundações e deslizamentos.
- Norte: pode enfrentar períodos de seca prolongada, rios mais baixos, temperaturas elevadas e condições favoráveis para queimadas. A redução do nível dos rios pode afetar diretamente as comunidades que dependem deles para transporte e abastecimento, dificultando o acesso a alimentos, medicamentos e outros itens essenciais.
Por que as crianças precisam de atenção especial?
As crianças são consideradas uma população especialmente vulnerável aos efeitos das mudanças climáticas. Isso acontece por uma combinação de fatores físicos e sociais. “A fisiologia infantil também é mais sensível às altas temperaturas, a doenças. O sistema imunológico deles não está desenvolvido totalmente”, explicou.
Além disso, elas dependem dos adultos para cuidados, proteção e acesso a recursos como água, alimentação e atendimento médico.
A vulnerabilidade, porém, não é igual para todas as crianças. Fatores como renda, condições de moradia, acesso à saúde, alimentação e saneamento também influenciam a maneira como cada família consegue enfrentar eventos extremos.
Crianças já estão mais expostas ao calor
Durante a palestra, Chiquetto citou um estudo global que avaliou a exposição de crianças ao estresse térmico. Segundo os dados apresentados, 44% das crianças de 0 a 9 anos estão expostas a pelo menos 28 dias por ano de estresse térmico.
O pesquisador explicou que, nesse estudo, o estresse térmico considera situações em que a temperatura e a umidade combinadas representam uma condição de risco. Em países como o Brasil, onde as temperaturas são mais elevadas, essa exposição pode ser ainda mais relevante. “As crianças também estão muito dispostas ao calor, porque elas fazem muita atividade ao ar livre, na escola, brincam”, acrescentou.
O aumento das temperaturas não significa apenas dias mais quentes ou desconfortáveis. Ondas de calor e períodos prolongados de temperaturas elevadas podem trazer consequências para a saúde. Chiquetto destacou possíveis impactos sobre o sistema cardiovascular e também chamou atenção para o aumento do risco de doenças transmissíveis em determinadas condições ambientais.
“Em relação a saúde infantil, a gente também tem que prestar atenção nas mudanças do meio ambiente. Quando a gente aumenta a temperatura e muitas condições de chuva, nós temos um maior risco para doenças transmissíveis”, afirmou.
Com isso, pode ocorrer, por exemplo, a expansão das áreas onde determinados mosquitos conseguem sobreviver, como o Aedes aegypti, que transmite a dengue. Segundo o pesquisador, mudanças ambientais já estão alterando a distribuição de vetores de doenças.
O impacto pode ser maior para crianças em situação de vulnerabilidade
Uma mesma onda de calor, enchente ou tempestade não afeta todas as pessoas da mesma maneira. A capacidade de se proteger e se recuperar de um evento extremo depende também das condições sociais e econômicas. “Um mesmo evento não vai afetar todas as camadas populacionais da mesma forma”, disse Chiquetto.
Uma família com melhores condições financeiras pode, por exemplo, ter mais facilidade para mudar temporariamente de casa em uma situação de risco ou utilizar recursos para aliviar o calor. Já famílias de baixa renda podem viver em áreas mais expostas a enchentes, deslizamentos e outros desastres e ter menos acesso a recursos de proteção.
Para as crianças, isso se soma a fatores como alimentação, acesso à saúde, saneamento e condições de moradia. “E nós, enquanto sociedade, temos o dever de investir em capacidade adaptativa para moderar, para melhorar essa vulnerabilidade das pessoas”, destacou.
Outro ponto destacado pelo pesquisador foi que as crianças não estão apenas entre as pessoas mais vulneráveis aos efeitos atuais das mudanças climáticas. Elas também estão crescendo em um mundo que já foi transformado pelo aquecimento global. “Existe também essa questão intergeracional que a gente simplesmente não sabe o que esperar e não sabemos como a vida dessas crianças vão ser afetadas por isso”, disse.
O que pode ser feito para proteger as crianças?
Para o pesquisador, a adaptação às mudanças climáticas precisa acontecer em diferentes frentes. Não se trata apenas de medidas individuais, mas também de mudanças nas cidades, nas construções, nos serviços de saúde e nas políticas públicas.
Entre as estratégias estão:
- Mais arborização e áreas verdes, que ajudam a reduzir a temperatura e oferecem sombra;
- Melhor planejamento urbano, considerando as áreas mais vulneráveis a enchentes, deslizamentos e calor extremo;
- Edificações com melhor ventilação e conforto térmico;
- Preparação dos serviços de saúde para períodos de calor e outros eventos extremos;
- Mapeamento das populações mais vulneráveis, incluindo crianças;
- Medidas emergenciais, como espaços públicos de proteção durante ondas de calor.