Coluna Legal: O (elevado) custo da desinformação e o risco para o setor de data centers
Fonte: broadcast.com.br | Data: 02/10/2026 13:26:48

Por Raphael Gomes*
Poucas coisas são tão importantes para uma sociedade quanto o debate público. Por meio dele diferentes interesses, preocupações e visões de mundo são confrontados e contribuem para decisões melhores.
Mas o debate precisa partir de fatos, e essa premissa jamais deveria ser relativizada.
O crescimento da inteligência artificial e da economia digital colocou os data centers no centro das discussões sobre infraestrutura. E com razão. São empreendimentos eletrointensivos, que demandam investimentos relevantes em geração e transmissão de energia e, dependendo da tecnologia, podem apresentar consumo significativo de água para refrigeração.
Recentemente, movimentos contrários à implantação dos DCs no Brasil passaram a reproduzir preocupações relacionadas ao consumo excessivo de água, aumento das tarifas de energia, ruído, emissões e impactos ambientais. Preocupações legítimas. O que não parece razoável é presumir que impactos observados em determinados projetos ou países necessariamente se reproduzirão no Brasil, independentemente da tecnologia, localização e características de cada empreendimento.
O consumo de água é um bom exemplo. Há DCs que utilizam sistemas evaporativos e demandam volumes relevantes de água. Tecnologias mais recentes, entretanto, permitem sistemas fechados associados à refrigeração a seco, nos quais o consumo de água para refrigeração pode ser virtualmente eliminado.
Desenvolvimento econômico e proteção ambiental não deveriam ser conceitos antagônicos. Infraestrutura precisa ser licenciada, seus impactos identificados e mitigados e as condicionantes ambientais cumpridas. Mas decisões dessa magnitude não podem decorrer da importação automática de problemas ocorridos em outras realidades.
A história do setor elétrico brasileiro oferece um bom exemplo do custo que escolhas dessa natureza podem produzir no longo prazo.
Durante décadas, o Brasil teve na abundância de recursos hídricos uma de suas maiores riquezas e vantagens competitivas. A hidreletricidade é renovável, competitiva e extremamente flexível. Além de gerar energia, usinas com reservatórios disponibilizam potência e prestam serviços essenciais ao sistema, como controle de frequência e tensão.
O potencial hidrelétrico brasileiro é estimado em 172 gigawatts (GW), dos quais pouco mais de 60% foram aproveitados.
Mas, em vez de aprofundarmos estudos e desenvolvermos tecnologias para aproveitar racionalmente esse potencial com o menor impacto possível, parte do debate público perdeu tecnicidade e razoabilidade, contribuindo para uma percepção distorcida dos benefícios e riscos da fonte.
Nas últimas décadas, a resistência à implantação de grandes reservatórios, somada às restrições socioambientais, contribuiu para que a expansão da matriz se afastasse progressivamente das hidrelétricas com capacidade de regularização.
O Brasil possui hoje, felizmente, uma matriz predominantemente renovável, com forte crescimento das fontes eólica e solar, mas enfrenta crescente necessidade de potência e flexibilidade.
A diferença entre energia e potência é fundamental. Energia representa a eletricidade produzida ao longo de determinado período. Potência, em termos simplificados, é a capacidade de disponibilizá-la quando o sistema necessita. Assim, podemos ter abundância de energia e, simultaneamente, necessitar de recursos para atender aos horários de maior demanda. É nesse contexto que o armazenamento e a flexibilidade das hidrelétricas adquirem enorme valor.
A dimensão dessa necessidade ficou evidente no Leilão de Reserva de Capacidade deste ano. Foram contratados aproximadamente 19 GW de potência: cerca de 16,5 GW de termelétricas e apenas 2,5 GW de ampliações hidrelétricas.
Termelétricas não são vilãs. Ao contrário, são fundamentais para a confiabilidade do sistema e cumprem papel essencial ao complementar fontes renováveis variáveis.
A pergunta é outra: precisaríamos hoje contratar tamanha quantidade de potência térmica se, nas últimas décadas, tivéssemos desenvolvido, de forma sustentável e ambientalmente responsável, parcela maior do nosso potencial hidrelétrico?
A transformação da matriz decorre de inúmeros fatores e seria incorreto atribuir a atual necessidade de potência exclusivamente à redução da expansão hidrelétrica. Mas parece igualmente difícil ignorar que a perda progressiva de capacidade de regularização contribuiu para aumentar a necessidade de outros recursos flexíveis.
No próprio leilão, as ampliações hidrelétricas foram contratadas por aproximadamente R$ 1,39 milhão por MW ao ano, enquanto a média ponderada dos produtos térmicos ficou próxima de R$ 2,48 milhões – cerca de 78% superior.
Nas emissões, a diferença também é relevante. Segundo o IPCC, a mediana das emissões ao longo do ciclo de vida da geração hidrelétrica é de aproximadamente 24 gramas de CO2 equivalente por kWh. Para uma termelétrica a gás natural em ciclo combinado, são 490 gramas: mais de vinte vezes o valor mediano da hidreletricidade.
Isso não significa que deveríamos ter construído todas as hidrelétricas possíveis, muito menos que térmicas sejam dispensáveis. Significa que a decisão de não construir determinada infraestrutura também produz consequências econômicas, ambientais e sistêmicas – e elas precisam integrar o debate.
A sociedade tem o direito – e o dever – de exigir estudos ambientais robustos, transparência, mitigação de impactos e cumprimento das condicionantes impostas pelo Poder Público. Mas existe uma diferença profunda entre discutir riscos e presumir riscos.
O Brasil reúne atributos relevantes para participar da expansão global da infraestrutura digital, especialmente uma matriz elétrica predominantemente renovável e um sistema elétrico de dimensão continental. A entrada dessas grandes cargas exigirá investimentos, planejamento da geração e transmissão e avaliação rigorosa dos impactos de cada empreendimento.
O caminho responsável, portanto, não é minimizar os impactos dos data centers. Tampouco maximizá-los artificialmente.
A desinformação – patrocinada ou não – também tem custo para a sociedade. E talvez a principal lição deixada pelas hidrelétricas seja justamente esta: impedir uma infraestrutura não elimina a necessidade que ela atenderia. Muitas vezes, apenas transfere essa necessidade para outra solução, com custos e impactos diferentes.
Com os data centers, ainda temos a oportunidade de não repetir o erro. Desenvolvimento e proteção ambiental não precisam estar em lados opostos do debate. Mas, para conciliá-los, é indispensável que decisões dessa magnitude sejam tomadas com base em fatos, e não em receios importados de outras realidades.
*Raphael Gomes é sócio e head da área de Energia e Recursos Naturais do Lefosse e escreve periodicamente para a Coluna Legal, da Broadcast.
Os artigos publicados pela Broadcast expressam as opiniões e visões de seus autores.