Sucessão rural: dados e planejamento ajudam famílias a preparar o futuro das propriedades
Fonte: alegretetudo.com.br | Data: 05/10/2026 07:27:02

Avanço da idade dos proprietários rurais e saída de jovens do campo desafiam a continuidade dos negócios familiares
O envelhecimento da população, antes associado principalmente a países como Japão e outras nações europeias, já é uma realidade brasileira. A inversão da pirâmide etária no país deve ocorrer até 2030, segundo projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No campo, o cenário se soma a outros desafios, como a escassez de mão de obra e a saída de jovens em busca de oportunidades profissionais fora do setor rural.
No Rio Grande do Sul, o processo ganha contornos ainda mais relevantes. Cerca de 70% das propriedades rurais gaúchas são herdadas, segundo dados apresentados pela pesquisadora Soraya Tanure, médica veterinária, pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e especialista em análise de dados e estatística. São patrimônios construídos ao longo de décadas por produtores que enfrentaram mudanças econômicas, climáticas e tecnológicas.
A modernização do campo e o avanço das ferramentas digitais trouxeram mais tecnologia, produtividade e conforto para algumas atividades rurais. Mas, apesar dos avanços, a sucessão familiar continua sendo um dos desafios para a continuidade dos negócios no campo.
Nesse contexto, a utilização de dados e simulações de cenários pode ajudar as famílias a tomar decisões com maior previsibilidade. Em vez de concentrar o debate apenas na permanência dos jovens na propriedade ou na definição de um sucessor, a proposta é transformar a sucessão em um processo planejado, capaz de antecipar riscos e avaliar diferentes possibilidades para o futuro da empresa rural.
“Tirar o apego emocional do debate, a partir da apresentação de dados, costuma ser mais efetivo para garantir a sucessão de forma saudável”, afirma Soraya Tanure.
Planejamento começa antes da transferência de comando
A sucessão sem planejamento pode se transformar em um processo desgastante para a família e para o próprio negócio. Por isso, uma visão de longo prazo é fundamental para reduzir conflitos e preservar o patrimônio construído ao longo das gerações.
Segundo Soraya, a ausência de planejamento pode provocar conflitos familiares, insegurança jurídica e fragmentação patrimonial, com consequências que podem comprometer a própria viabilidade econômica da propriedade.
O primeiro passo, segundo a pesquisadora, é alinhar as expectativas entre os integrantes da família. A transferência de comando não ocorre de maneira imediata e exige preparação tanto dos fundadores quanto dos sucessores.
“É preciso reconhecer que a transferência de comando não ocorre de forma instantânea e exige preparação gradual de fundadores e sucessores”, destaca.
A preparação envolve ainda a definição de responsabilidades, a capacitação dos sucessores e a participação progressiva das novas gerações na rotina da propriedade. O objetivo é que os futuros gestores conheçam não apenas as atividades produtivas, mas também os desafios administrativos, financeiros e humanos envolvidos na condução do negócio.
Propriedade rural também é empresa
Para a pesquisadora, questões técnicas relacionadas à produção já são amplamente estudadas pelo setor. O mesmo não ocorre, na mesma proporção, com os aspectos relacionados à gestão da sucessão familiar.
“Da porteira para dentro ainda nos falta ampliar os estudos sobre sucessão e considerar a propriedade como empresa, desmistificando tabus que envolvem o tema”, avalia Soraya.
A mudança de perspectiva passa por tratar a sucessão como parte da profissionalização da atividade rural. Isso significa incorporar ao planejamento questões jurídicas, contábeis, tributárias, administrativas e estratégicas, além das tradicionais preocupações relacionadas à produção.
Nesse modelo, os dados podem ser utilizados para construir diferentes cenários para o negócio: permanência de um ou mais herdeiros na gestão, divisão de responsabilidades, mudanças na atividade produtiva, entrada de novos investimentos ou até mesmo alternativas para aqueles familiares que não pretendem permanecer no campo.
A ideia é substituir decisões tomadas apenas no momento de uma crise por um processo gradual de avaliação e preparação.
“Não é apenas a zootecnia que gera lucro, a administração aplicada às questões sucessórias também deve ser considerada a chave do negócio nos próximos anos”, finaliza a pesquisadora.
Checklist para preparar a sucessão rural
1. Tome decisões com base em dados
Utilize informações e projeções para reduzir o peso das decisões exclusivamente emocionais.
2. Pense a sucessão no longo prazo
A transferência de comando deve ser construída gradualmente, e não apenas quando o atual gestor deixa a atividade.
3. Prepare as novas gerações
Além do conhecimento técnico, os futuros gestores precisam desenvolver competências administrativas e de liderança.
4. Acompanhe as tendências de mercado
Questões como sustentabilidade, governança e critérios ESG devem fazer parte do planejamento do negócio.
5. Busque orientação especializada
Profissionais das áreas jurídica, contábil e tributária podem auxiliar na organização do patrimônio e na estruturação da sucessão.
6. Mantenha o diálogo entre gerações
A construção de um projeto comum para o futuro da propriedade depende de comunicação e alinhamento entre os integrantes da família.
Fonte: Thaís D’Avila Foto: Carolina Heller
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