Kim Gordon e Suzanne Lindon falam sobre cinema, amizade e a colaboração com Claire Denis para o Miu Miu Women’s Tales
Fonte: vogue.globo.com | Data: 07/10/2026 11:42:48
É um ensolarado dia de primavera em Paris, e uma jovem está em uma oficina mecânica cuidando de um Ford prateado retrô. Ela verifica o óleo do motor e lustra o capô, com uma mancha de graxa no rosto. Entra no carro e dá início a uma espécie de odisseia de flâneuse pela cidade, durante a qual vive uma série de encontros estranhos e levemente surreais — ajuda uma mulher a atravessar a rua carregando uma cadeira antiga, entrega caixas de plantas em uma loja — até chegar à famosa Fontaine des Lions, no 12º arrondissement de Paris, onde uma figura a espera.
A figura veste um look invernal, incongruente com o clima ameno: um chapéu de caçador decorado com cristais bordados, um casaco igualmente aconchegante forrado de shearling e botas até os joelhos. Ela carrega algumas bolsas, como se estivesse chegando para passar uma temporada com nossa protagonista sem nome. Então começa a caminhar em direção à câmera e, olhando com mais atenção, você percebe: é… Kim Gordon?
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Sim, é ela mesma. A irreverente musicista e ex-vocalista do Sonic Youth é a estrela que dá nome ao curta-metragem “Avec Kim”, dirigido por Claire Denis. (Os verdadeiros fãs de Gordon sabem que esta não é sua primeira vez diante das câmeras: ela já fez aparições breves, mas memoráveis, em “Não Estou Lá”, de Todd Haynes, e “Últimos Dias”, de Gus Van Sant.) O filme, que também traz a atriz e diretora francesa Suzanne Lindon como a jovem protagonista, estreia hoje no Festival de Cinema de Veneza como parte do Miu Miu Women’s Tales, a aclamada série de curtas-metragens liderada por Miuccia Prada e sua braço direito, Verde Visconti.
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Diretoras como Agnès Varda, Ava DuVernay e Miranda July já participaram do projeto, mas ter Denis envolvida neste ano parece uma conquista especialmente significativa. A lendária cineasta francesa de 80 anos, responsável por clássicos modernos como “Bom Trabalho” e “35 Doses de Rum”, é conhecida por suas análises incisivas das cicatrizes persistentes do colonialismo, influenciadas pela infância que passou na África Ocidental, assim como por seu estilo visual tátil e elíptico. Uma das diretoras mais intransigentes do cinema francês, Denis raramente assume projetos fora de seus longas-metragens; já fazia mais de uma década desde a última vez que havia dirigido um curta.
Ainda bem que aceitou. “Avec Kim” é uma reflexão misteriosa e, no fim, comovente sobre a amizade feminina entre gerações, que parece ecoar a própria relação de Denis com Lindon. Depois de assistir ao longa de estreia de Lindon, “Spring Blossom”, de 2020, Denis entrou em contato para expressar sua admiração, dando início a uma amizade próxima. As duas acabaram colaborando no roteiro do filme mais recente de Denis, “The Fence”. (Há também uma história entre Gordon e Denis que vale conhecer: a cineasta dirigiu um videoclipe do Sonic Youth em 2006.)
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Tudo isso parece perfeitamente alinhado à filosofia geral da Miu Miu que, apesar de sua associação com uma versão mais jovem e divertida do espírito da Prada, recentemente vem fazendo um movimento deliberado em direção a elencos mais inclusivos em termos de idade. Nomes como Kristin Scott Thomas, Gillian Anderson e até Willem Dafoe desfilaram para a marca nos últimos anos. Não se trata necessariamente de juventude, mas de um espírito rebelde — algo que tanto Gordon quanto Lindon têm de sobra.
Em uma tarde quente e úmida em Veneza, um dia antes da estreia, a “Vogue” conversou com Gordon e Lindon — a primeira recém-chegada de um voo de Los Angeles e, como sempre, muito cool usando uma versão cinza dos óculos de sol que aparecem no filme — em uma cabine providencialmente climatizada no hotel em que estavam hospedadas. Ali, elas contaram mais sobre como o filme também deu origem a uma amizade entre as duas.
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Kim Gordon: Conheci Claire anos atrás por meio de Olivier Assayas, de quem sou muito amiga. Não me lembro exatamente quando. Mas sempre admirei os filmes dela: “Bom Trabalho”, “White Material”. Ela também dirigiu um videoclipe do Sonic Youth há muito tempo. Ela simplesmente me perguntou se eu queria fazer esse projeto com ela. Fiquei incrivelmente feliz e animada em participar.
Suzanne Lindon: Na verdade, meu pai [o ator Vincent Lindon] fez um filme com Claire quando eu nasci, mas eu nunca a tinha conhecido. Ela foi ao cinema assistir ao meu primeiro longa, “Spring Blossom”, e deixou uma mensagem para mim que eu guardei, porque era surreal ouvir Claire falando sobre o meu filme. Depois, ela entrou em contato para perguntar se eu queria escrever com ela seu filme mais recente, “The Fence”. Então comecei a escrever com ela, o que é algo muito íntimo — trabalhávamos na cozinha dela e nos víamos todos os dias durante um ano e meio. Depois, ela me convidou para fazer este projeto com ela e com Kim. Eu sabia que você [gesticula para Gordon] e Claire eram amigas porque ela às vezes falava sobre você enquanto trabalhávamos juntas.
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Li que você precisou aprender a dirigir em duas semanas para o filme, Suzanne?
Suzanne: Sim. Eu não sabia sobre o que seria o filme, mas ela me ligou dizendo que queria me filmar dirigindo, e eu não sabia dirigir. Falei: “Sim, claro! Ótima ideia!” E imediatamente liguei para a autoescola que fica na esquina da minha casa. [Risos.] Comecei a fazer aulas, mas sabia que teria que buscar Kim de carro e estava morrendo de medo, porque queria que Kim estivesse segura no meu carro.
Você ficou nervosa em sentar no banco do passageiro, Kim?
Kim: Na verdade, nem um pouco. [Risos.]
Suzanne: Você estava menos nervosa do que eu.
O filme não tem diálogos, e sei que Claire gosta de improvisar e descobrir as coisas durante o processo. Havia algum tipo de roteiro? Com que material vocês trabalharam para construir seus papéis?
Kim: Não havia roteiro. Só me disseram que ficaríamos andando de carro por Paris.
Suzanne: Acho que ela nos disse que queria nos filmar dentro do carro, e só. Foi isso que gostei no projeto. Eu sabia que Claire filmaria algumas coisas, mas ela não precisava explicar para nós o que tinha em mente.
Kim: Ela também é muito abstrata e poética quando fala em inglês. Não sei como é em francês, mas, em inglês, não importa o que esteja dizendo, tudo soa incrível. Ela mencionou que a estátua dos leões era muito especial. Essa era uma das coisas principais.
Suzanne: Lembro que, quando trabalhávamos juntas no roteiro de “The Fence”, percebi que ela tem uma maneira muito particular de escrever filmes, porque nunca decide tudo completamente nessa etapa. Ela está sempre escrevendo, mas acho que o que mais amo em trabalhar com Claire é que você permanece muito livre. Nós conversávamos dentro do carro e acho que, em determinado momento, quase esquecemos que estávamos sendo filmadas.
Há uma qualidade misteriosa no filme: não fica totalmente claro em que época a história se passa ou qual é a relação entre as personagens. Vocês conversaram entre si ou com Claire para tentar entender isso? Ou preferiram manter essa ambiguidade também para vocês?
Kim: Bom, acho que simplesmente parti do princípio de que eram duas amigas que não se viam há muito tempo e que viveriam essa aventura juntas. Também foi muito divertido para mim conhecer Suzanne. Gostei tanto que tudo ficou fácil. Ela me deixou muito à vontade.
Suzanne: O que eu amo é que, para mim, esse filme será uma lembrança do dia que passamos juntas. Às vezes ficávamos esperando o set e a equipe ficarem prontos, então conversávamos e realmente nos conhecíamos, como duas amigas que não se viam há muito tempo. Fiquei muito feliz em conhecer você, e acho que a relação no filme é, na verdade, a relação que tivemos naquele dia.
As roupas são incorporadas à história de maneira muito natural — o workwear da coleção de verão 2026 nas cenas da oficina ou aquele incrível chapéu de caçador bordado com cristais que você usa, Kim. Você participou da escolha?
Kim: Ele estava entre as minhas opções. Aliás, estava muito quente naquele dia. [Risos.]
Suzanne: Era abril em Paris e Kim estava usando esse chapéu de shearling dentro daquele carro antigo e quente. Por que você escolheu o chapéu?
Kim: Simplesmente achei incrível. Pensei: nunca vou ter um desses, mas vou usar um agora. Não sei, na verdade.
Suzanne: O momento em que trocamos o chapéu e os óculos de sol significou muito para mim, porque é realmente a imagem dessa amizade e dessas duas gerações de mulheres que são amigas. Eu amo isso, porque é assim que me sinto em relação à Claire. Sinto-me mais próxima de Claire do que de amigos que tenho desde o colégio. Então acho que esse momento em que compartilhamos o chapéu diz muita coisa.
Kim, conte um pouco mais sobre o trabalho na trilha sonora. Esse sempre foi o plano?
Kim: Originalmente, eu queria fazer como Neil Young fez em “Dead Man Walking”: simplesmente assistir ao filme e tocar acompanhando as imagens. Fiz um pouco disso, mas também voltei depois e inseri algumas partes. No começo, Claire disse que queria algo misterioso — ela não dá muitas orientações, então pode ser difícil entender do que ela realmente gosta. Eu sabia que ela queria que o início, com a mecânica, tivesse uma sensação mais industrial. Havia uma música no meu disco mais recente de que ela gostava muito. E ela disse: “Ah, você consegue fazer alguma coisa com essa melodia?” Eu queria criar algo que parecesse muito aberto.
Suzanne: Ainda não vi o filme, mas mal posso esperar para ouvir a música. Minhas lembranças do que filmamos são muito claras, então tenho uma ideia de como o filme pode ser. Mas sei que Claire vai me surpreender, então vamos ver.
Parece que vocês realmente construíram uma amizade durante o processo de realização do filme. Vocês se encontraram desde então? Como é estarem reunidas novamente aqui em Veneza?
Kim: É maravilhoso. Parece que nos vimos ontem. E Suzanne fez um filme inteiro nesse meio-tempo!
Suzanne: Kim foi uma das primeiras pessoas para quem tive coragem de contar sobre o filme, porque senti que ela entenderia o quanto essa experiência é estressante, mas também incrível. Lembro que você realmente me incentivou a seguir em frente, e isso significou muito para mim. Comecei a montá-lo há apenas dez dias, então vamos ver no que vai dar. Mas Kim será uma das primeiras pessoas para quem vou mostrar.
Suzanne: Agora você faz parte da minha história.