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O vapor pode ser a próxima fronteira de descarbonização da indústria

Fonte: integridadeesg.insightnet.com.br | Data: 07/10/2026 11:45:27

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Como transformar a abundância de recursos renováveis do Brasil em soluções capazes de entregar calor industrial de forma confiável, rastreável e competitiva?

Por Carlos Martins*

Caldeiras que produzem vapor fazem parte da infraestrutura industrial há décadas. Estão por trás de processos essenciais para a produção de diferentes bens de consumo, mas raramente aparecem no centro das discussões sobre transição energética. Por ser uma utilidade tão incorporada à rotina das fábricas, o vapor costuma ser tratado como algo que simplesmente precisa estar disponível. Entretanto, olhar para a forma como esse calor é produzido revela um desafio importante, já que a geração de energia térmica ainda está associada, em grande medida, ao uso de combustíveis fósseis em uma etapa essencial para manter a produção em funcionamento.

Em processos industriais, energia térmica precisa estar disponível na temperatura, pressão e quantidade necessárias, de forma contínua. Uma interrupção pode comprometer uma linha inteira e gerar perdas muito superiores ao custo do combustível. Por isso, a escolha de uma fonte renovável para substituição precisa responder, ao mesmo tempo, três questões: quanto emite, quanto custa e, sobretudo, se consegue entregar a energia necessária com previsibilidade.

É nesse ponto que a biomassa ganha relevância. O Brasil reúne uma combinação pouco comum de disponibilidade de matérias-primas de origem vegetal, diversidade agroindustrial e experiência acumulada no uso de fontes renováveis para geração de energia. Há, portanto, uma vantagem estrutural para substituir combustíveis fósseis na geração de calor industrial.

Transformar essa vantagem em fornecimento confiável, porém, exige mais do que disponibilidade de matéria-prima. É necessário conhecer sua origem e qualidade, garantir volumes compatíveis com a demanda, organizar transporte e armazenamento e administrar a sazonalidade de diferentes culturas e atividades produtivas. A rastreabilidade passa a ser parte dessa equação, permitindo acompanhar a origem da biomassa, estabelecer critérios para sua seleção e dar maior consistência às metas ambientais ao longo da cadeia de fornecimento.

As empresas passam a ser cobradas não apenas por suas emissões, mas também pela capacidade de demonstrar como suas cadeias de valor contribuem para a transição energética

Essa complexidade também ajuda a explicar por que a transição térmica pode exigir uma mudança na forma como a indústria administra sua energia. Para uma empresa cujo negócio principal é produzir papel, alimentos, produtos químicos ou outros bens, gerir fornecedores de biomassa, equipamentos, logística e operação de caldeiras pode significar assumir uma estrutura que não faz parte de sua competência central. Modelos baseados em especialização permitem transferir essa responsabilidade para parceiros capazes de integrar geração, abastecimento, operação e gestão da cadeia em uma única estrutura.

Isso não significa simplesmente terceirizar uma caldeira. Projetos de energia térmica podem atravessar dez ou quinze anos, período em que mudam preços, safras, disponibilidade de matéria-prima, regulamentações e exigências ambientais. O valor de um parceiro especializado está justamente na capacidade de planejar essa operação no longo prazo e adaptar a estratégia às mudanças sem comprometer a continuidade do fornecimento.

O movimento ganha ainda mais relevância à medida que as empresas passam a ser cobradas não apenas pelas emissões de suas operações, mas também pela capacidade de demonstrar como suas cadeias de valor contribuem para a transição energética. Nesse cenário, critérios ambientais, segurança operacional e competitividade deixam de ser decisões isoladas e passam a fazer parte da mesma equação.

O Brasil tem condições favoráveis para avançar nessa agenda. A questão agora é transformar a abundância de recursos renováveis em soluções capazes de entregar calor industrial de forma confiável, rastreável e competitiva. O caminho não passa apenas por trocar um combustível por outro, mas por desenvolver uma estrutura que torne essa mudança tecnicamente segura, ambientalmente consistente e sustentável no longo prazo. O vapor pode parecer apenas mais uma utilidade dentro de uma fábrica. Para a transição energética brasileira, ele pode ser uma das peças mais importantes do quebracabeça.

*Carlos Martins é COO da ComBio, empresa brasileira de fornecimento de energia térmica renovável para a indústria a partir de biomassa e energia elétrica renovável