‘Se eu fosse você 3′ traz, por meio da comédia, problemas enfrentados por diversos casais ao longo do relacionamento
Fonte: oestadoonline.com.br | Data: 08/10/2026 13:05:42
Coincidência? Eu acho que não! Como prova de que o raio pode sim cair no mesmo lugar, o cinema brasileiro volta nesta quinta-feira (8), com uma das franquias nacionais mais amadas pelo público da comédia romântica: Se eu fosse você. Na estreia do terceiro longa, o público voltará a acompanhar o casal interpretado por Glória Pires e Tony Ramos, que dessa vez assistem de camarote a mais uma mudança de corpos — e de mentalidades.
Com direção de Anita Barbosa e roteiro de Leandro Soares, o filme acontece duas décadas depois da última troca de corpos. Dessa vez, Cláudio (Tony Ramos) e Helena (Glória Pires) vivem uma nova fase da vida ao lado da filha Bia, interpretada por Cleo Pires (sim, a filha de Glória), agora adulta e casada com Aquiles (Rafael Infante).
Tudo parecia normal e em equilíbrio até que uma situação inesperada abala a dinâmica da família e coloca as relações à prova, desafiando todos a se colocar no lugar do outro.
A troca de corpos pode ser vista como uma analogia sobre, literalmente, viver na pele do companheiro. A mudança levanta questões como confiança, superação, empatia e dificuldade de compreender a perspectiva alheia.
Mesmo com a fórmula requentada, a franquia se atualiza ao trazer novos problemas e conflitos aos personagens e até mesmo como eles lidam com isso hoje em dia. Conforme críticas, estereótipos ligados ao gênero ficam mais em segundo plano e abrem espaço para a discussão sobre expectativas ligadas aos homens e mulheres.
Separação como único caminho
Assim como nos filmes anteriores, conflitos como falta de comunicação e compreensão são extensivamente abordados aos casais. Porém, esse tipo de problema não fica exclusivamente nas telas.
Conforme dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o número de divórcios chegou a 428.301 em 2024 e cerca de 45% dos casamentos terminam em separação ao longo do tempo; quase metade das separações ocorre antes de a união completar dez anos.
A ideia de ‘se colocar no lugar do outro’ é o centro do filme, mas, para um relacionamento na vida real, apenas esse pensamento não basta, segundo a psicóloga especialista em relacionamentos, Djane Almeida.
“O que realmente faz a diferença é conseguir sentir o que o outro está sentindo. No filme, quando eles trocam de corpos, isso é sentido literalmente na pele um do outro. Na vida real, como isso não é possível, podemos desenvolver uma comunicação mais efetiva para dizer com segurança o que estamos sentindo e o outro poder perceber como cada ação e reação atinge o parceiro(a). O que ajuda é criar a segurança emocional suficiente para que cada um possa se mostrar vulnerável, sem medo de ser julgado ou rejeitado”, explicou em entrevista ao jornal O Estado.
Segundo ela, quando o parceiro consegue entender o que o outro sente, o ciclo de defesa x ataque começa a se encerrar. “Colocar-se no lugar do outro significa interromper esse ciclo automático e sentir e entender o que o outro está sentindo naquele momento. Isso cria espaço para respostas emocionais novas e não mais reações habituais”.
Rotina, problemas, cansaço do dia a dia são desafios que precisam ser enfrentados pelos casais e que podem ser catalisadores de problemas no futuro. A psicóloga destaca que um dos riscos é que a funcionalidade, ou seja, casais que se dão bem na logística da casa, podem cair em um limbo de falta de afetividade.
“Algumas dicas práticas: criar momentos que não sejam apenas sobre tarefas e perguntar: ‘Como você está se sentindo?’ Ser genuíno e se importar de verdade; lembrar sempre que ambos estão em constante mudança, trocar a frase ‘eu já sei como ele/ela é’ e se permitir conhecer um ao outro de tempos em tempos; manter interesses individuais como: amigos, hobbies, projetos, E enxergar isso não como ameaça, pelo contrário, mantém o casal interessado um no outro”, disse.
“O relacionamento saudável é composto de ‘dois inteiros escolhendo caminhar juntos’ e não ‘dois virando um’”, completa.
Comunicação para ontem
Muitas crises em relacionamentos também começam quando há expectativas em relação ao parceiro que, em sua maioria, não são correspondidas. “As expectativas fazem parte das relações; elas organizam o que cada um espera do outro em termos de cuidado, lealdade, divisão de tarefas, intimidade, filhos, etc. O problema surge quando essas expectativas se tornam rígidas, não negociadas e não verbalizadas”, diz Djane.
Entretanto, a pesquisa conduzida pelo IBGE mostra que é a comunicação o principal fator de falha entre casais. A psicóloga aponta que há sinais claros de quando a comunicação não vai bem para um casal.
“O casal não consegue fazer pedidos, apenas muitas críticas um ao outro, por exemplo, ‘Você nunca me ajuda’ em vez de pedir ‘Preciso da sua ajuda’ ou ‘Pode me ajudar com isso?’; qualquer comentário vira ataque e a resposta já é justificar ou contra-atacar; o uso do sarcasmo e/ou desprezo: piadas que machucam, revirar os olhos, tom de superioridade. O desprezo é o maior preditor do divórcio nos relacionamentos”, destaca.
“Os principais sinais de que a comunicação está se desgastando aparecem quando começa a existir mais um monólogo, quando uma pessoa fala e a outra deixa de se interessar pelo que ela está dizendo”, explica o psicólogo Sylvio T. B. Tutya
“As respostas ficam mais curtas, evasivas, agressivas ou passivo-agressivas, principalmente porque as pessoas já não querem mais ouvir umas às outras e vão deixando de se colocar no lugar do outro. Além disso, as demandas do dia a dia, como celular, filhos, trabalho e outras responsabilidades, fazem a comunicação ficar mais escassa e a intimidade diminuir”, completa.
Para evitar esse tipo de desgaste, é preciso evitar que discussões ou debates se tornem brigas; entender e apontar os próprios pontos em vez de apenas inserir a culpa no outro e validar o que o parceiro sente antes de discordar.
“É importante que os dois se permitam conversar sobre o que está incomodando e, mesmo quando for difícil, estejam dispostos a escutar. Quanto mais diálogos profundos, e não apenas superficiais, melhor vai se tornando o relacionamento e a comunicação entre os dois”, diz Sylvio.
Sylvio ainda reforça como o cotidiano faz com que os casais coloquem as ações realizadas acima de sentimentos. “Em relacionamentos longos, as pessoas mudam, passam por crises e transformações físicas, e é importante reconhecer essas mudanças e continuar enxergando o valor e as qualidades do parceiro”.
Ao trazer para as telas uma personagem como Bia, forte e independente, o longa também coloca em cheque as questões de ressignificação de papéis de gênero. Mulheres, desde sempre, trabalham em rotinas exaustivas e para manter o bem-estar e convívio social e familiar; entretanto, em décadas passadas, essas ações eram feitas nos bastidores, para não ‘ofuscar’ o papel do homem dentro do âmbito familiar. Já hoje, a mulher é colocada no centro, como ‘chefe da família’. Segundo Sylvio, essa ‘reestruturação’ não é bem aceita ou digerida pelos homens.
“Com as mulheres ocupando espaços antes destinados aos homens, muitos homens perderam um lugar que conheciam e não encontraram outro, o que acabou causando conflitos e abalando algumas estruturas dos relacionamentos. Ao mesmo tempo, surgiram novas configurações de relacionamento e novas formas de insegurança”, aponta.
Por Carolina Rampi