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O seguro como infraestrutura da nova economia

Fonte: revistacobertura.com.br | Data: 09/10/2026 10:39:42

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por José Carlos Macedo – founder e CEO da Ô insurance

José Carlos Macedo
José Carlos Macedo

Durante muito tempo, o seguro foi associado à ideia de proteção. Proteger um patrimônio, uma empresa, uma vida, uma operação. Era, essencialmente, uma forma de administrar aquilo que poderia dar errado. Mas o mundo mudou e, talvez, o setor de seguros ainda não tenha explorado plenamente o tamanho dessa mudança.

Vivemos em uma economia em que a tecnologia acelera tudo. Empresas nascem e escalam em velocidades inéditas, decisões são tomadas em tempo real, novos modelos de negócio surgem continuamente e ativos intangíveis passaram a representar uma parcela enorme do valor das organizações. Ao mesmo tempo em que a tecnologia cria oportunidades extraordinárias, ela também amplia a velocidade e a complexidade dos riscos.

É nesse cenário que o seguro ganha uma nova dimensão. Mais do que um mecanismo de proteção, o seguro pode ser entendido como uma infraestrutura que permite avançar. Ele cria condições para que pessoas e empresas assumam riscos necessários ao crescimento sem transformar cada decisão em uma ameaça existencial.

Toda inovação envolve risco. Investir, empreender, contratar, expandir, lançar um produto, utilizar inteligência artificial, operar dados, entrar em um novo mercado ou simplesmente mudar a maneira de fazer algo envolve algum grau de incerteza. O problema não é eliminar o risco, isso seria impossível. O desafio é torná-lo conhecido, mensurável e administrável.

É justamente aí que o seguro pode deixar de estar no fim da conversa e passar para o início dela. Durante décadas, muitas decisões empresariais foram tomadas primeiro para, depois, buscar uma solução de seguro que acompanhasse aquilo que já havia sido decidido. Precisamos inverter essa lógica. O gerenciamento de riscos deve participar da estratégia desde o começo, porque compreender o que pode dar errado também ajuda a enxergar até onde uma empresa pode ir.

Essa mudança de perspectiva é especialmente importante em um momento em que a tecnologia reduz drasticamente o tempo entre oportunidade e execução. A velocidade tornou-se uma vantagem competitiva, mas velocidade sem gestão de risco pode transformar uma oportunidade em vulnerabilidade na mesma velocidade.

Pensemos na inteligência artificial. Ela permite ganhos de produtividade, automação, personalização e escala que, até pouco tempo atrás, pareciam distantes. Mas também cria novas questões relacionadas a dados, privacidade, responsabilidade, fraude, segurança cibernética, propriedade intelectual e decisões automatizadas. O mesmo instrumento que aumenta a eficiência pode ampliar a exposição. Isso não significa frear a inovação. Significa criar mecanismos que permitam inovar com responsabilidade.

O mesmo vale para as pessoas. Nossas vidas também se tornaram mais complexas e conectadas. Dependemos de sistemas digitais, acumulamos ativos financeiros e patrimoniais de diferentes naturezas e construímos carreiras cada vez menos lineares. A proteção necessária para esse novo mundo não pode ser pensada apenas a partir dos riscos do passado. O seguro precisa acompanhar a transformação da sociedade. Isso exige tecnologia, dados, personalização e, principalmente, uma mudança cultural. Precisamos deixar de enxergar o seguro como uma despesa que só demonstra seu valor quando alguma coisa dá errado. Seu valor também está naquilo que ele permite fazer quando tudo está funcionando.

Uma empresa que conhece seus riscos e possui mecanismos adequados para absorvê-los pode tomar decisões com maior clareza. Pode investir, crescer, testar, contratar, expandir e inovar. Uma pessoa que possui proteção adequada pode construir patrimônio, empreender e fazer escolhas de longo prazo com maior segurança. Nesse sentido, o seguro não deveria ser visto apenas como um custo para proteger o que já existe. Ele pode ser um instrumento para viabilizar aquilo que ainda queremos construir. Essa é uma mudança importante de mentalidade: estratégia.

O futuro não será menos arriscado porque teremos mais tecnologia. Provavelmente será mais dinâmico e, em alguns aspectos, mais complexo. A tecnologia nos dará ferramentas para prever, analisar e responder melhor aos riscos, mas também criará riscos que ainda nem conseguimos nomear. Por isso, acredito que o futuro do seguro esteja menos relacionado à promessa de evitar perdas e mais à capacidade de ajudar pessoas e empresas a navegar em um mundo de mudanças permanentes.

No fundo, o seguro não vende apenas proteção. Ele vende capacidade de continuar. Continuar quando uma operação é interrompida. Continuar quando um patrimônio é atingido. Continuar quando um ataque cibernético compromete sistemas. Continuar quando uma responsabilidade inesperada surge. Continuar quando um empreendedor precisa tomar uma decisão ousada. Continuar quando a vida muda de direção.

Em uma economia baseada cada vez mais em velocidade, inovação e confiança, essa capacidade de continuidade ganha valor estratégico. Talvez seja hora de deixarmos de perguntar apenas “o que o seguro protege?” e começarmos a perguntar “o que o seguro permite que façamos?”. A resposta pode mudar não apenas a percepção sobre o seguro, mas o próprio papel que ele desempenha na economia moderna. Em tempos de transformação acelerada, proteger não mais olhar para trás.

Às vezes, proteger é justamente criar condições para seguir em frente.