Flor Gil revela o que mais deseja herdar de Bela Gil: “Quero muito ser mãe como ela”
Fonte: claudia.abril.com.br | Data: 10/10/2026 05:00:53
Só Flora Gil parece se lembrar da música que ela mesma acabou de colocar para tocar no celular. Bela se levanta, ajeita o figurino para a próxima foto. Flor nem se mexe: ainda almoça. “Você conhece essa?”, me pergunta, em busca de alguma parceria. A letra fala algo sobre cinema, madrugada. Não reconheço na hora.
“Ah, vocês com certeza vão saber quando chegar o refrão.” Quando, enfim, chega o verso mais chiclete, Bela e a mãe cantam juntas: “Só quero saber do que pode dar certo/não tenho tempo a perder”. Flor não sabe nem o refrão, nunca ouviu a música.
Não é para menos. Nos anos 1980, quando os Titãs lançaram o single Go Back, Bela, mãe de Flor, ainda não tinha comemorado nem um ano de vida. Flora já tinha quase 30 — daí a memória tão fresca da canção. “Eu acho que essa música ia ficar linda na voz da Flor”, comenta a matriarca. A distância de décadas entre as três gerações, de mãe, filha e neta, rabiscou histórias diferentes para cada uma.
Flora Gil, Bela Gil e Flor Gil: três gerações da família Gil

Flora foi criança nas ruas ainda de terra de Moema, zona oeste da capital paulista. Brincou de carrinho de rolimã, empinou pipa, andou de velotrol. Na São Paulo dos anos 1960 e 1970, a menina podia ir sozinha, de ônibus, para a escola de freira em que estudava. “Eu vi a rua asfaltar, tinha aquele cheiro de piche. A gente ficava vendo o piche ficar duro. A iluminação era amarela, de lâmpada de mercúrio.
Quando saíamos à noite parecia que o dente mudava de cor. Aos domingos, a gente ia para o aeroporto de Congonhas ver avião”, relembra, com um brilho de quem sente saudade. A filha, Bela, nascida em Salvador, na Bahia, era bem mais tímida e, segundo a mãe, “um pouco medrosa, não gostava de dormir fora”.
A bagunça era diferente, era em casa. Ao contrário da infância da mãe, Bela cresceu rodeada por músicos — quatro dos cinco filhos de outros três casamentos de seu pai, Gilberto, já seguiam os passos musicais dele. Ela estava mais interessada nas aulas de biologia, principalmente de anatomia humana. Pensou que viraria médica.
“Eu era CDF, não gostava de perder aula. Logo no comecinho da adolescência, entendi que queria trabalhar com o corpo, com a saúde. Meu irmão aproveitou bem mais, porque ele não tava nem aí. E isso foi muito bom, porque ele virou um grande músico observando os parceiros que acompanhavam meu pai”, conta.
Bela não herdou o talento musical da família. Ou talvez nunca o tenha desenvolvido. Os dedos doíam demais quando ela tentava tocar violão e os irmãos tiravam sarro da desafinação dela. “Eu não fiz aula de canto, não tenho um ouvido muito bom, não sei distinguir uma nota da outra, e sou meio desafinada. Então meus irmãos me sacaneavam: ‘Bela, deixa quem sabe cantar, pelo amor de Deus”, ri.
“Isso me desencorajou, mas não virou, de forma alguma, um trauma.” Já Flor, filha de Bela, herdou — e muito. Nasceu e viveu nos Estados Unidos até os 7 anos, acompanhada por câmeras e palcos. Em casa, via as gravações do Bela Cozinha, programa que a mãe apresentava no canal GNT.
Com ela, aprendeu desde muito nova a cozinhar. Ao lado do avô e de todos os tios e primos, entendeu que seu futuro também seria na música. Em 2025, ela lançou seu primeiro álbum, Cinema Love. “Minha mãe me trouxe muita familiaridade com a câmera, porque ela fazia programa em casa. Meu primeiro contato com o público não foi no palco, foi com a câmera”, diz Flor, que acabou de completar 18 anos.
“Mas, no geral, minha família me trouxe muito essa vontade de ser artista, desde pequena. Quando comecei a cantar, aos 6 anos, todo mundo cantava, e eu via aquilo como um estilo de vida. E eu também queria viver daquele jeito.”
Como a música atravessou gerações na família de Gilberto Gil

A algazarra no pequeno estúdio no Cosme Velho, zona sul do Rio de Janeiro, lembra o clima de Em Casa Com os Gil, reality show lançado em 2022, pela Amazon Prime. Durante a pandemia, a família se reuniu no sítio deles em Araras, interior do Rio, para gravar a série, que virou uma espécie de prelúdio para a turnê europeia de comemoração do 80 anos de Gil.
Flora confirma: a casa deles é mesmo parecida, sempre cheia de gente. Além das três, estão ali Fafá Giordano, irmã de Flora, e Marcus Vinicius, o Marquinho, assessor de Gil há mais de duas décadas. Como na série, no estúdio, elas se aconselham. E parecem se entender sem dizer muito.
Quando Bela aparece com um vestido bege, com anquinhas rígidas na altura da cintura, que lembram um traje de época, a mãe percebe o desconforto. Interrompe a entrevista e se levanta. “Deixa eu ver, filha. Eu acho bonito, mas tem que ver como você se sente mais confortável. Acha estranho? Deixa eu segurar para você, peraí”, diz Flora, enquanto ajusta o vestido no corpo da filha.
“A proposta é interessante, mas a cor… me empalidece”, responde Bela. “Você diz que comeu muito glúten. ‘Bela revela seu culote de glúten’”, brinca Flora. “Mas tá bonito, se for nessa pegada de fazer uma foto mais artística.”
Flor também brinca com um dos looks da avó, enquanto posa para as fotos. “Vou perguntar para Flor o que ela acha desse vestido aqui”, disse para Bela. “Ela não vai gostar não”, antecipou a apresentadora. Assim que a avó se aproxima e pede a opinião, Flor é enfática: “Ai, vó, esse não, troca!”.
A vida da família se entrelaça assim, entre conselhos e a autonomia das escolhas individuais. “Nos restaurantes, minha mãe não participa de nada, mas é ótima de negociação, dá nó em pingo d’água”, diz Bela. “Eu sempre tô dando pitaco e ela sempre tá contando as coisas: ‘ai, mãe, vou fazer um instituto, agora uma série’. Ela é da ‘pá virada’ para trabalhar”, conta Flora.
Bela Gil transformou a paixão por alimentação em carreira

Dá ‘pá virada’ mesmo: atualmente, Bela toca mais de 12 projetos ao mesmo tempo. São dois restaurantes, o Camélia Òdòdó, e o recém-aberto Preta Maria, uma homenagem à irmã e cantora Preta Gil, que faleceu no ano passado.
Ela ainda integra a equipe de apresentadoras do Saia Justa, na GNT, dá palestras pelo país sobre alimentação saudável e, recentemente, escreveu mais um livro, Educar para a Alimentação Consciente, que será lançado pela Editora Senac.
Ao mesmo tempo, também toca projetos como o Bela Infância e o Instituto Brasil Orgânico. E tudo começou quase por acaso — tanto a paixão por alimentação saudável quanto a vida pública.
Aos 14 anos, quando começou a praticar ioga, entendeu o quanto a comida moldava seu humor. Deixou de lado o açúcar, as comidas processadas, e as carnes vermelhas. Logo se deu conta que o interesse pela saúde não estava na medicina, mas na alimentação.
Aos 18 anos, partiu para Nova York, onde estudou culinária natural, no Natural Gourmet Institute, e nutrição e ciência dos alimentos, no Hunter College, e trabalhou em dois restaurantes veganos.
Um dia, sem nenhuma pretensão, começou a gravar uns vídeos em casa, ensinando algumas receitas para os amigos. Dandara, uma de suas melhores amigas de infância, viu nela um talento com as câmeras e um potencial de programa. Enviou uma das gravações para o GNT.
Em 2014, Bela estreou o Bela Cozinha. “Eu tinha acabado de passar para o mestrado, estava há oito anos em Nova York, já estava um pouco cansada, com saudade do Brasil. E o convite era como ensaiar uma volta para casa”, explica.
“Os vídeos que a gente gravava eram pessoais, eu não tinha pretensão nenhuma de ter um programa. Sempre fui muito tímida, não sou dos holofotes — ao contrário da Preta, que desde pequenininha sabia que queria estar no palco. Foi a paixão pelo que faço, pela nutrição, pela saúde e pela culinária que me levou a apresentar um programa. E que me catapultou para esse lugar público.”
Flora Gil e a trajetória por trás do Expresso 2222

A vida da mãe, Flora, também tem as marcas do acaso. Aos 17 anos, ela pegou um bico de fim de ano para trabalhar como vendedora numa loja de shopping. Deu tão certo que a garota ganhou uma viagem da empresa. Ela escolheu a Bahia como destino. E isso mudaria tudo.
Na viagem, ao voltar de um show, pediu carona na rua. Quem parou o carro foi o músico Gilberto Gil, 18 anos mais velho que ela, com cinco filhos e três casamentos no currículo. “Minha mãe dizia ‘pelo amor de Deus, ele é casado!’. Eu corrigia: ‘casado não, ele tá separado’. Ela achava que era balela. Fui levando com calma até que eles conheceram o Gil e gostaram dele. Foi minha sorte”, diz.
Ao lado do companheiro, o tino empresarial, que já tinha se manifestado ali, naquela experiência como vendedora, ganhou força. Nasceu de brincadeira de criança: quando Bela tinha 10 anos e queria, pela primeira vez, ver de perto o Carnaval baiano, a família alugou uma varandinha no Farol da Barra. Levaram junto os filhos de amigos, como Caetano Veloso e Arnaldo Antunes.
“Ficou bem bonito, útil, prático. Era como se fosse um play mesmo das crianças”, lembra. Gostaram tanto que, no ano seguinte, repetiram a brincadeira. Foi aí que as marcas começaram a procurá-la para entrar como patrocinadores.
Nascia assim o Expresso 2222, um dos camarotes mais disputados do Carnaval de Salvador, e o único que não vende ingresso: só entra convidado. Flora também organizou a bagunça que eram os direitos autorais das músicas do marido, espalhados entre várias gravadoras, com contratos diferentes.
Ela foi atrás de cada uma das centenas de músicas de Gil, avaliou cada contrato e abriu, dentro da Gêgê Produções, uma editora própria para cuidar das composições dele dali em diante.
“Minha mãe e meu pai respiram trabalho, com excelência e talento em todos os lugares. Minha mãe é muito assim: a casa precisa estar perfeita. Até, sei lá, a forma como a flor tá colocada no jarro. Meu pai também, ele é conhecido por ser um dos únicos artistas que canta todas as músicas na passagem do som, antes do show”, explica Bela.
“A minha avó é muito poderosa, muito inteligente. Ela consegue executar qualquer ideia. E ela me inspira muito nisso: tem poder de uma forma sutil. Ela não se exalta por isso, não precisa de uma afirmação. Ela só é”, confirma Flor.
Flor Gil constrói seu próprio caminho na música

No palco, ao lado da família, Flor está em casa. Sozinha, ela ainda sente o nervosismo das estreias — a primeira turnê solo foi no ano passado. “Com a minha família, eu adoro, me divirto, não fico nervosa. Mas, quero fazer shows só meus, então ainda estou construindo as coisas. Quero achar músicos com quem eu possa ter uma relação e uma confiança parecida com a que já sinto no palco com a minha família.”
Não que seja fácil subir no palco ao lado de ninguém menos que Gilberto Gil. “Sou muito perfeccionista, tenho muito respeito pelo meu avô, pelos meus tios e primos, que estão aí há muito mais tempo. Eu tô ali por causa deles, eles abrem esse espaço para mim”, diz.
“Mas sou muito cobrada também: já que eu quis fazer isso, tenho que ser boa. Mas eu sei que não tô ali só porque tenho espaço. Meu avô jamais faria isso se eu não tivesse talento, uma habilidade de verdade, e capacidade e postura para estar no palco com ele.”
Amor, liberdade e maternidade entre três gerações da família Gil

Trabalho e perfeccionismo não são a única coisa que transborda entre as mulheres dessas três gerações — o amor e a liberdade de escolha também se repetem, geração após geração. “Minha mãe ficou preocupada no início do namoro [por Gil ser músico], e hoje entendo. Mas toda mãe precisa dar liberdade de escolha para os filhos. E ela me deu, assim como eu dei para os meus filhos depois”, conta Flora.
Bela nunca limitou os desejos e a sexualidade da filha. Pelo contrário: deu autonomia e acolhimento. Em 2023, Flor publicou no X que ficava ofendida quando a julgavam como heterossexual. Pouco depois, nos stories do Instagram, publicou o print de uma conversa com a mãe sobre o tuíte em que contava que era “uma grande sapata”. Bela republicou em suas redes, cheia de orgulho.
É esse conceito de família, rico em acolhimento e suporte, herdado de Flora, que fez Bela sonhar cedo com a maternidade. Ela teve Flor aos 20 anos. E a filha quer o mesmo, o quanto antes. “Minha mãe me deu a vida. O que eu mais quero herdar dela é a maternidade. Quero muito ser mãe como ela foi”, diz Flor.
“Ela não quer esperar viver para depois ser mãe. Ela quer viver sendo mãe. Mas ela é muito privilegiada em poder fazer essa escolha, e tem essa consciência. Um filho, para ela, pode virar um grande parceiro de vida”, conclui Bela, enquanto olha para a própria mãe e a própria filha, suas grandes parceiras de caminhada.
Créditos:
- Styling: Milton Castanheira
- Beleza: André Florindo
- Set designer: Daniela Arend
- Direção de arte: Mariana Manini
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