Sem fisioterapia, dores musculares viram rotina em comunidades ribeirinhas
Fonte: www1.folha.uol.com.br | Data: 25/04/2026 04:22:13
O trabalho pesado e contínuo imposto pela vida na floresta cobra um preço silencioso nas comunidades ribeirinhas da amazônia: a alta prevalência de doenças que afetam ossos, músculos e articulações e a falta de uma linha de cuidado que envolva prevenção e reabilitação.
Pesquisas da Universidade Federal do Amazonas indicam que a prevalência de dores musculares pode chegar a 73% em grupos que vivem na floresta, com a coluna sendo a mais afetada, respondendo por 38% das queixas.
Relatos de moradores e profissionais de saúde da região de Eirunepé, no sudoeste do Amazonas, indicam que essas queixas estão diretamente ligadas às atividades do dia a dia, como a pesca e o trabalho na roça. O esforço repetitivo e a sobrecarga física resultam em dores persistentes e limitações funcionais.
Como a Folha observou em expedição de saúde realizada na comunidade do Ubim, na reserva extrativista do rio Gregório, homens e mulheres passam horas sob o sol, colhendo açaí, carregando madeira, sacas de farinha e outros insumos nas costas, sem qualquer tipo de equipamento de proteção.
“Sinto muita dor nas juntas do meu braço. Tem dias que levanto o braço e faz ‘truc’, parece que um osso sai do outro”, relata a moradora Luzanete Rodrigues do Nascimento, 69, que sempre trabalhou na roça. “Eu puxei muita roda [para fazer a farinha de mandioca]. Não tinha motor, era no braço mesmo”, conta.
O marido também tem limitações causadas pela dor nas costas. “A gente serrou muita madeira para fazer a nossa casa. Eu puxava aquele serrotão de cima e ele segurava embaixo. Agora tenho essa bursite que não me dá sossego.”
Ela diz que nunca fez fisioterapia nem recebeu orientação sobre como manejar a dor sem medicações como analgésicos e anti-inflamatórios. “É só remédio para dor mesmo e injeção quando tem”, diz ela.
A agente comunitária de saúde Maria Emelie do Nascimento observa que as dores na coluna estão entre as queixas mais frequentes nas visitas domiciliares. “Toda viagem que eu faço é pedido de remédio pra cá, pedido de remédio pra lá”, relata, destacando a alta demanda por analgésicos.
No posto de saúde recém-inaugurado da comunidade do Ubim, ela já observa a mesma dinâmica, com muitas queixas de dores musculares e articulares.
Segundo outro agente comunitário de saúde Raimundo Luciano, da comunidade do Atalaia, 80% dos moradores que atende se queixam de problemas na coluna. “Carregam muito peso a vida toda.”
A enfermeira Maiane Araújo, que atua na atenção primária do município de Eirunepé, confirma o padrão. “Homens e mulheres apresentam dores crônicas, lesões e limitações”, afirma. A falta de acesso à fisioterapia e a acompanhamento especializado agrava a situação.
Maiane diz que a gestão municipal está programando atendimentos de fisioterapia por meio de atendimentos remotos nas segundas e terças-feiras.
A proposta é atuar não apenas no tratamento, mas também na orientação sobre prevenção e manejo da dor. “Esse é um problema que não é só do Ubim ou do rio Gregório. É de toda a extensão do Amazonas.”
Na prática, hoje o tratamento costuma ser limitado ao alívio imediato da dor. Na ausência de serviços regulares, muitos recorrem à automedicação ou a soluções caseiras.
O farmacêutico Roberto Monteiro, que atua na UBS Fluvial de Eirunepé, relata que é comum os pacientes já chegarem pedindo medicamentos específicos para dor, como as injeções Beta 30 (dipropionato de betametasona + fosfato dissódico de betametasona).
Para ele, isso revela tanto a frequência das queixas quanto a falta de acompanhamento. “Eles já vêm dizendo o que querem tomar porque não conhecem outra forma de lidar com a dor”, afirma. Ele diz que sempre os orienta para a necessidade de avaliação antes do uso de remédios.
A dificuldade de acesso a serviços de saúde impede o diagnóstico precoce de lesões mais graves. Em muitos casos, o que começa como uma dor pontual evolui para um problema crônico, sem tratamento adequado.
Para Mickela Souza Costa, gerente do projeto de saúde da Fundação Amazônia Sustentável, há uma lacuna evidente no Ministério da Saúde quando se trata de organizar uma linha de cuidado voltada às doenças osteomioarticulares, aquelas que afetam ossos, músculos e articulações.
Essa ausência se torna ainda mais crítica no contexto amazônico. “Crianças, mulheres e homens participam de atividades como o cultivo da mandioca, a construção de casas e canoas, a extração de madeira e o transporte de cargas pesadas. Desde muito cedo vão se acostumando com essa rotina.”
O resultado aparece com o passar dos anos: dores articulares persistentes, lombalgias, encurtamentos musculares e uma série de outras condições que comprometem a qualidade de vida.
Segundo Mickela, o que existe hoje no SUS (Sistema Único de Saúde) para o enfrentamento do problema é insuficiente. A referência mais próxima, explica ela, são as políticas voltadas à LER (lesão por esforço repetitivo), que não contemplam a complexidade das condições enfrentadas pelos ribeirinhos e indígenas.
“Não chega àquilo que as populações tradicionais precisam”, diz. Para ela, é urgente pensar em uma linha de cuidado específica, adaptada às particularidades desses territórios e modos de vida.
Outro desafio importante é a invisibilidade desses casos nos sistemas públicos de informação. Mickela destaca a necessidade de sensibilizar os profissionais de saúde para que reconheçam essas queixas e façam os registros adequados.
Sem dados consistentes, o próprio SUS tem dificuldade de dimensionar o problema e, consequentemente, de formular políticas públicas eficazes.
Ana Luiza Caldas, secretária de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde, diz que a demanda por problemas osteomioarticulares é grande na região amazônica e que o governo federal está trabalhando para ampliar o acesso a tratamentos sem que a pessoa tenha que sair de seus territórios.
“A gente vem investindo muito em saúde digital para olhar para essas nuances que existem nos territórios líquidos [espaços onde a dinâmica da água molda a vida, a cultura e a dinâmica das populações] desse Brasil profundo. A gente sabe que a maior parte dos profissionais especializados está nos grandes centros.”
Ana afirma que uma das estratégias do ministério é o programa Viva Mais Brasil, compartilhado com estados e municípios. A iniciativa prevê que UBS (Unidades Básicas de Saúde) ofereçam cuidados especializados por meio da telessaúde.
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Ela diz que o município de Eirunepé já recebeu quatro kits multimídia de telessaúde, que serão instalados nas embarcações fluviais que atendem as comunidades ribeirinhas.
“Eles poderão fazer trocas com outras categorias multiprofissionais para oferecer esse atendimento especializado.” Além de fisioterapeutas, psicólogos e nutricionistas, estão previstos médicos especialistas, como cardiologistas e endocrinologistas.
Segundo ela, a estratégia prevê oferecer todo o cuidado possível a distância e, se necessário, o deslocamento do paciente, com direcionamento da equipe da UBS à qual ele está vinculado.
A jornalista viajou a convite do programa Juntos pela Saúde.