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Festival da Fronteira começa com homenagens e obras com olhar feminino | Brasil de Fato

Fonte: brasildefato.com.br | Data: 28/04/2026 10:10:09

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Com sessões competitivas, exibições especiais, atividades de formação e apresentações musicais diárias e gratuitas, começa nesta terça-feira (28) a programação do 17º do Festival Internacional de Cinema da Fronteira, em Bagé. Nesta edição, 30 títulos concorrem ao novo Prêmio São Sebastião/Assembleia Legislativa.

Pela primeira vez, o evento contará com a parceria da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul na premiação. Serão concedidos aos realizadores um total de R$ 15 mil, sendo R$ 10 mil ao melhor longa e R$ 2,5 mil a cada vencedor de categoria de curta. 

As três mostras da competição (longas, curtas e animações em curta-metragem) reúne obras de 18 países, várias delas inéditas. Com curadoria de Fatimarlei Lunardelli, Jonas Chadarevian e Roger Lerina, oito dos longas são dirigidos por realizadoras ibero-americanas. Neste ano, o evento recebeu mais de 3,2 mil inscrições de 120 países, sendo mais de 470 longas.

“Porta de entrada da excelência cinematográfica ibero-americana, o Festival volta com sua melhor programação até aqui”, atesta Zeca Brito, idealizador do evento e atual secretário municipal de Cultura. A afirmação do gestor é corroborada pela expectativa dos convidados da edição e da crítica especializada. “Nossa curadoria escolheu uma seleção diversa e com especial atenção às grandes diretoras em atividade”, complementa. 

A exibição dos longas em competição acontece no Cine 7, precedidas pela projeção de curtas da mostra principal, com atrações no Centro Histórico Vila de Santa Thereza e Instituto Municipal de Belas Artes (IMBA). Seis produções gaúchas serão exibidas fora de competição. Onze projetos do Brasil e América Latina concorrem no laboratório de projetos Sur Frontera WIP LAB.

A Mostra Regional, somente com curtas gaúchos, foi realizada em janeiro de 2026.

Diversas e representativas homenagens

Realizadores dos filmes vencedores e personalidades destacadas recebem Prêmio São Sebastião  – Crédito:  Isidoro B. Guggiana/Divulgação

Como de costume, o evento homenageia grandes nomes da cena cultural local: Sapiran Brito (1947-2025), Lucio Yanel, Nei Lisboa, Elvira Nascimento, Paulo Ricardo de Moraes e Maria Luiza Benitez. 

A terça-feira (28) terá como primeira atração a sessão-homenagem do curta Sapiran Brito e o Teatro em Bagé, dirigido por Sapiran, seguido do longa de abertura, Ángeles, de Paula Markovitch, às 14h, no Cine 7. Já às 16h30min, será a exibição de Cartas Para…, de Vânia Lima. 

Em sessão especial, às 18h30min, será exibido Tambor Sem Fronteiras, de Adriana Gonçalves. Às 20h, é a vez do painel O Violão Pampeano de Lucio Yanel, com o professor José Daniel (Unipampa) no Instituto Municipal de Belas Artes, seguido da cerimônia de abertura, às 21h, com Sarau do Solar com Lucio Yanel (que será homenageado) e Grupo de Cordas da UCS.

Cielo, de Alberto Sciamma, inicia a quarta-feira (29), às 10h. À tarde, a competição de longas terá Aqui Não Entra Luz, de Karol Maia, e Un Futuro Brillante, de Lucía Garibaldi. A noite continua em Sant’Ana do Livramento/Rivera, às 19h, com a exibição de O Velho Nepo, de Renatho Costa e J.N. Canabarro, na UTEC (Universidade Tecnológica do Uruguai). 

Quemadura China, de Verónica Perrotta, abre a quinta-feira (30), às 10h. A tarde começa com Duas Vezes João Liberada, de Paula Tomás Marques, seguido, às 16h30min, de Futuro Futuro, de Davi Pretto. Às 20h, será inaugurada a exposição Volver a Los 17, na Galeria Edmudo Rodrigues, seguido do Conexiones Sur Frontera e show de Samba e Choro Orquestra Rubens Veiga, no Bosque do Palacete Pedro Osório.

A oficina Protocolo Antiassédio Objetivas, promovida pela APTC-RS, inicia a sexta-feira (1º), às 10h, na Casa de Cultura Pedro Wayne. No mesmo horário, no Cine 7, será projetado Nada a Fazer, longa de Leandra Leal. Às 14h, passa Nuestra Tierra, de Lucrecia Martel. 

Em Santa Thereza, às 16h, acontece a sessão especial de Unipampa Memória Viva 20 Anos, de Simôni Gervasio e Alessandro Bica, e Darcy Fagundes, Meu Famoso Pai Desconhecido, de Luciane Fagundes, às 17h. Mais tarde, às 19h, será exibido o programa de curtas de animação. Às 21h, o IMBA apresenta show-homenagem a Nei Lisboa.

A partir das 9h30min, no sábado (2), ocorrem duas mesas promovidas pelo Ministério da Cultura (MinC), na Casa de Cultura Pedro Wayne. A programação se muda para Santa Thereza a partir das 16h, com reprise de O Velho Nepo, e exibição especial de Mãos à Terra, de Sergio Guidoux, às 18h. 

À noite, haverá o cortejo com sopros do projeto social Orquestra Rubens Veiga, às 20h30min, seguida da cerimônia de premiação, às 21h. Na ocasião, serão homenageados Elvira Nascimento e Paulo Ricardo de Moraes. O Sarau do Solar com homenagem a Maria Luiza Benitez encerra o evento.

Retratos da cultura da Fronteira

LEG2: Documentário 'Tambor Sem Fronteiras' aborda a cultura dos instrumentos afro-uruguaios
Documentário ‘Tambor Sem Fronteiras’ aborda a cultura dos instrumentos afro-uruguaios – Crédito:  Finish Produtora/Divulgação

O candombe é uma expressão cultural e musical afro-uruguaia, baseada no toque de três tambores (piano, repique e chico), que acompanham desfiles de rua (as “llamadas”), especialmente no Carnaval de Montevidéu. Embora se destaque nessa festa, o candombe acontece o ano todo, sendo uma cultura permanente na capital uruguaia.

 Mistura de música e dança, a manifestação artística simboliza resistência, identidade e ancestralidade da comunidade afro-uruguaia. Desde 2009, o candombe é reconhecido como Patrimônio Imaterial da Humanidade pela UNESCO.

Com esta temática, a produção gaúcha “Tambor Sem Fronteiras”, da realizadora e educadora bageense Adriana Gonçalves Ferreira, chegará aos cinemas. O longa documental ganha sua première em Bagé (RS), na terça-feira (28), às 18h30min, no Cine7, dentro do 17º Festival Internacional de Cinema da Fronteira.

Tambor Sem Fronteiras é o terceiro longa de Adriana (publicitária, mestre em Patrimônio Cultural, doutoranda em Educação pela UFSM e licenciada em Formação Pedagógica), depois de Fronteriz@s (2021) e Vila Santa Thereza (2020). É dela também o média Guarani Presente (2025) e o curta Latorre, Alma Terra e Sangue (2014), além de produções acadêmicas sob o tema Cinema e Educação, do qual é pesquisadora, atuando na formação de professores e educação audiovisual. 

No filme, além da direção e roteiro, a cineasta também narra, muitas vezes de maneira poética, os acontecimentos, dando à narrativa uma linguagem performática para expressar subjetividades do ser fronteiriço feminino e sua relação com o tambor.

A perspectiva de gênero é um dos destaques da produção, como diz a narração da cineasta: “A mulher do candombe não anda sozinha. É força que emana, delira, desvaira, invoca. Soy tambor“. Entre os assuntos abordados pelo documentário, em estética pampeana, estão a presença do candombe na Fronteira e as vozes que protagonizam esse cenário, a relação entre uruguaios e brasileiros, com a chegada dos tambores afro-uruguaios no lado brasileiro, e a fabricação de tambores como política pública.

Iniciadas em 2015, as gravações do longa ocorreram nos municípios gaúchos de Bagé, Santa Maria, Porto Alegre e Santana do Livramento, e nas cidades uruguaias de Rivera, Vichadero, Melo e Montevidéu. Segundo Adriana, a ideia surgiu a partir da aquisição de uma “cuerda” (jogo de tambores) pelo ponto de cultura Pampa Sem Fronteiras, de Bagé – um projeto da Associação Pró Santa Thereza, dentro da dimensão da política Cultura Viva. A partir daí, começou um processo de oficinas e trocas com os saberes dos mestres da cultura afro-uruguaia, documentadas pelo filme.

“O tambor transcende limites, e o candombe não exclui ninguém”, aponta a diretora. Ela destaca o acolhimento da cultura candombeira à realização do documentário, que permitiu também o intercâmbio de conhecimento entre mestres uruguaios e a comunidade bajeense. O resultado dessa troca deu origem à criação do grupo local Grillos Candomberos de Bagé. “É uma cultura de união e força a qual admiro e me submeto aos aprendizados com o povo afro-uruguaio. Candombe é um sentir”, sintetiza.

Simbolo de resistência e lembrança da diáspora africana, o candombe se consolidou como importante contribuição do povo negro no Uruguai, sendo celebrada em encontros realizados nas Salas de Naciones (casa de reuniões com  normas específicas na qual era tocado), nas ruas e também em datas festivas como o carnaval, com o famoso Desfile de Llamadas, anualmente em Montevidéu. Desde 2006, o candombe tem uma data no calendário uruguaio: 3 de dezembro, o dia nacional do Candombe.Realização da Finish Produtora, de Santa Maria (RS), Tambor Sem Fronteiras foi viabilizado com recursos da Lei Complementar 195/2022 (Lei Paulo Gustavo) a partir do Edital Sedac LPG 16/2023 – Audiovisual – Complementação de Longa-Metragem. Também contou com recursos do Edital Sedac Cultura Viva. Durante sua pós-produção, o projeto participou do Laboratório Sur Fronteira na categoria work in progress no Festival Internacional de Cinema da Fronteira. Adriana é uma militante antiga da cultura da cidade e parceria e entusiasta declarada do evento.