Conflito no Oriente Médio atinge os mercados internacionais de gás natural e atrasa a onda global de oferta de GNL
Fonte: ipesi.com.br | Data: 30/04/2026 14:27:19

O cenário do mercado global de gás natural foi bastante alterado pelo conflito no Oriente Médio. Há um grande choque na oferta, que afeta os fundamentos do mercado e adia uma onda esperada de nova oferta de GNL (gás natural liquefeito), de acordo com o mais recente relatório trimestral da Agência Internacional de Energia (AIE).
A interrupção da navegação pelo Estreito de Ormuz desde o início de março criou uma incerteza sem precedentes, retirando cerca de 20% da oferta global de GNL do mercado e provocou aumentos acentuados de preços em importantes regiões importadoras. Durante um período de intensa volatilidade em março, os preços do gás natural na Ásia e na Europa atingiram seus níveis mais altos desde janeiro de 2023, contribuindo para uma contração na demanda de gás natural nos principais mercados importadores de GNL.
A crise reverteu uma tendência de reequilíbrio do mercado observada durante a temporada de aquecimento de 2025/26, quando o forte crescimento na oferta de GNL – impulsionado pela nova capacidade de liquefação, principalmente na América do Norte – ajudou a aliviar os preços. O comércio global de GNL aumentou 12% em relação ao ano anterior no período de outubro a fevereiro, enquanto os preços de referência na Europa e na Ásia caíram cerca de 25% no mesmo período de cinco meses.
Apesar disso, eventos climáticos extremos, incluindo grandes tempestades de inverno na América do Norte, Europa e Ásia Oriental, levaram a fortes picos na demanda por gás, ressaltando a importância contínua da flexibilidade no fornecimento de gás para a segurança energética, inclusive em sistemas com participação crescente de geração renovável dependente das condições climáticas.
As condições de mercado mudaram abruptamente em março, quando o conflito no Oriente Médio resultou no fechamento de fato do Estreito de Ormuz para cargas de GNL. A produção global de GNL caiu 8% em relação ao ano anterior, com uma queda acentuada nas exportações do Catar e dos Emirados Árabes Unidos, compensada apenas parcialmente pelo aumento da produção em outras regiões. À medida que as interrupções começaram a se espalhar pelas cadeias de suprimentos globais, as entregas de GNL também caíram, com um declínio mais acentuado observado em abril.
A demanda por gás natural enfraqueceu nos principais mercados importadores em resposta aos preços mais altos, ao clima mais ameno e às medidas políticas destinadas a reduzir o consumo de gás. Na Europa, a demanda por gás natural caiu cerca de 4% em relação ao ano anterior em março, impulsionada principalmente pelo aumento da geração de energia renovável. Vários países asiáticos estão tomando medidas de substituição de combustíveis e de controle da demanda para limitar o uso de gás em meio à crise de oferta.
Além da interrupção imediata, espera-se que a crise tenha implicações para as perspectivas de médio prazo. Os danos à infraestrutura de liquefação de GNL no Catar devem reduzir o crescimento projetado da oferta e atrasar o impacto da esperada onda de expansão global do GNL em pelo menos dois anos. O efeito combinado das perdas de oferta de curto prazo e do crescimento mais lento da capacidade pode resultar em uma perda cumulativa de cerca de 120 bilhões de metros cúbicos de oferta de GNL entre 2026 e 2030. Embora se espere que novos projetos de liquefação em outras regiões compensem essas perdas ao longo do tempo, o impacto prolongará os mercados restritos até 2026 e 2027.
O relatório destaca a importância de fortalecer a segurança do fornecimento global de gás por meio de investimentos contínuos e adequados em toda a cadeia de valor do GNL e de uma maior cooperação internacional entre produtores e consumidores. Também observa as vantagens que um portfólio diversificado de contratos de longo prazo pode trazer para os importadores de gás em termos de mitigação da volatilidade de preços em períodos de interrupção. (Franco Tanio)
