Baixar Notícia
WhatsApp
Email

Biometano

Fonte: jornalbomdia.com.br | Data: 30/04/2026 16:44:32

🔗 Ler matéria original

Todos sabemos que os dejetos de suínos eram um grande problema para os suinocultores, seja pela poluição da água, seja pelo mau cheiro exalado dos chiqueirões e pela proliferação de moscas. Antigamente, havia um ditado no meio rural que dizia: “onde tem cheiro de porco, tem dinheiro”, ou seja, ser produtor de suínos era sinal de boa renda familiar.

Lá na década de 90, a pesquisa desenvolveu a técnica de captar todos os dejetos em esterqueiras, tanques cavados ao lado dos chiqueirões para receber a urina e os dejetos dos suínos. E, se cobertos por uma lona, poderiam captar o gás produzido pela fermentação aeróbica, cujas bactérias “comem” o esterco e o transformam em água enriquecida de nutrientes, que poderiam ser usados como adubo líquido nas lavouras, além de gerar gases. É nesse processo de fermentação que se forma o “gás metano”. Na época, não havia uso, por isso era queimado indefinidamente. Posteriormente, poderia ser queimado gerando calor para aquecer os leitões recém-nascidos nas creches, ou para gerar energia elétrica para a rede local. Ainda, esse produto aquoso poderia ser prensado, retirando-se a matéria orgânica para virar adubo sólido, e até usado na mistura de silagem para alimentação do gado confinado.

O que é o gás metano? Metano (CH4) é um gás incolor, inodoro e altamente inflamável. É o hidrocarboneto mais simples que existe: 1 átomo de carbono ligado a 4 de hidrogênio. Mas sua composição química é uma das mais fáceis de ser quebrada.

Sua origem: a) fontes naturais: pântanos, cupinzeiros e derretimento de permafrost; b) energia: vazamentos na produção de petróleo, gás e carvão. Essa fonte no Brasil representa 10%; c) agropecuária: vem da fermentação no estômago do gado — o famoso “arroto do boi” — e de outros ruminantes, além dos dejetos de animais e do ser humano. Representa 72% das emissões brasileiras dos gases de efeito estufa (GEE); d) resíduos: decomposição de lixo orgânico em aterros sem coleta de gás. Representa 15%.

Suas principais características são: a) energético: é o principal componente do gás natural. Queima liberando energia, CO2 e água; b) efeito estufa: é 28 vezes mais potente que o CO2 para aquecer o planeta em um período de 100 anos. No curto prazo de 20 anos, é 84 vezes mais potente; c) vida curta: permanece na atmosfera cerca de 12 anos, contra séculos do CO2.

Mesmo representando só 17% dos gases de efeito estufa (GEE), o metano é responsável por cerca de 30% do aquecimento global atual desde a era pré-industrial, justamente por ser tão potente.

Somos o 5º maior emissor de metano do mundo. Entre 1990 e 2019, as emissões subiram 51%. Em 2050, mesmo com neutralidade climática, o governo já admite que ainda vamos emitir metano por causa da agropecuária. A ideia é compensar com a remoção de CO2 por florestas e energia limpa (eixos.com.br). Reduzir o metano é considerado a forma mais rápida de frear o aquecimento no curto prazo, porque ele desaparece da atmosfera em 12 anos (globalmethanepledge.org). Quer que eu detalhe o que está sendo feito na prática em cada setor?

O Brasil se comprometeu a reduzir a emissão do gás metano, aderindo, em 2021, ao pacto lançado na COP26 junto com 158 países. A meta é coletiva: reduzir as emissões globais de metano em pelo menos 30% até 2030, em relação aos níveis de 2020. É uma meta global, não uma obrigação individual de cada país (globalmethanepledge.org).

No Plano Clima, uma estratégia nacional lançada em março de 2026, é o principal instrumento do Brasil até 2035. Para o metano, o foco está em três planos setoriais: a) Agricultura e pecuária: 72% do metano brasileiro vem daqui. As ações incluem dieta melhor para o gado, manejo de dejetos e integração lavoura-pecuária-floresta; b) Resíduos: 15% das emissões. Meta de ampliar a captura de biogás em aterros e tratar esgoto; c) Energia: 10% das emissões. Reduzir vazamentos na cadeia de petróleo e gás (gov.br/eixos.com.br).

Recentemente, o tal gás metano, até então um passivo ambiental, virou “o salvador da pátria”. O Brasil aproveita apenas 1,5% do seu potencial de biometano — um mercado estimado em R$ 180 bilhões que permanece praticamente inexplorado, mesmo após 15 anos da Política Nacional de Resíduos Sólidos.

As novas tecnologias de geração de energia crescem exponencialmente, e surgem usinas de biometano em Santa Catarina, no maior criador de suínos do Brasil.