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“É uma conquista para o cinema brasileiro”, dizem os Abdala Brothers, diretores do primeiro filme IMAX do país – TELA

Fonte: telaviva.com.br | Data: 30/04/2026 22:39:08

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(Foto: Divulgação)

“2DIE4: 24 Horas no Limite” estreia nos cinemas nesta quinta-feira, dia 30 de abril, e chega como um marco tecnológico para o audiovisual brasileiro, tornando-se o primeiro filme do país em formato IMAX. A produção transporta o público para o epicentro das 24 Horas de Le Mans, a prova de resistência mais icônica do mundo, acompanhando a participação do piloto brasileiro Felipe Nasr na edição de 2025 da corrida. O longa, que será exibido em salas IMAX e em cinemas convencionais de todo o Brasil, chega com o prestígio de ter vencido o Motor Sports Film Award 2025 na categoria Melhor Documentário de Longa-Metragem.

Sob a direção de André e Salomão Abdala – os “Abdala Brothers”-, o filme desafia limites entre realidade e ficção. Filmado em tempo real e sob condições extremas, o projeto foi concebido para oferecer uma experiência em large format, utilizando o máximo potencial das telas gigantes e sistemas de som de alta definição. Assista ao trailer:

Os irmãos começaram a trabalhar com audiovisual em meados de 2013, quando ganharam uma câmera GoPro num sorteio da própria marca e, a partir daí, passaram a produzir vídeos com ela, especialmente de esportes. “O sonho era sermos atletas, mas percebemos que éramos melhor atrás do que na frente das câmeras”, brincou Salomão Abdala em entrevista exclusiva para TELA VIVA. O diretor contou que o processo se desenrolou de forma natural – eles foram fazendo cada vez mais vídeos, treinando e aprimorando. Em 2018, produziram um vídeo para o piloto Eric Granado, da Honda, que teve grande repercussão. A marca então os contratou como produtora oficial deles. “Foi uma coisa meio maluca, porque não existia nem produtora. A assinatura Abdala Brothers era eu e meu irmão fazendo nossos vídeos e editando em casa. De repente, o sonho virou realidade e, de fato, montamos uma produtora. Começamos a trabalhar para várias marcas, como Mercedes Brasil, Porsche Brasil e Red Bull, entre outras. Quando as coisas cresceram, fomos estudar para entender como as coisas funcionavam no cinema”, lembrou.

Salomão afirma que, na sua visão, o cinema seria a versão mais alta da arte que estavam produzindo. “Igual todo piloto de kart um dia quer estar na Fórmula 1, todo mundo que faz vídeos um dia quer fazer cinema. É a Fórmula 1 da sua categoria. É onde os melhores são testados”. Nesse sentido, ele disse que os dois sabiam que precisavam se preparar muito bem para fazerem seu primeiro filme. “Logo no começo entendemos que esse filme precisaria ser sobre algo que entendêssemos muito, sobre o qual poderíamos trazer uma nova perspectiva. E ficou óbvio que seria automobilismo – um assunto que a gente vive e sabe bem a respeito. Quando os diretores fazem um filme sobre uma coisa pela qual eles são completamente obcecados, o resultado é muito diferente. Tem muitas vantagens”.

Os dois adoram filmes de corrida, mas sempre acreditaram que as obras já produzidas traziam um caráter muito “hollywoodizado”, isto é, retratando coisas que não correspondiam à realidade. “Queríamos um filme que falasse de automobilismo e mostrasse pra audiência uma perspectiva que ela nunca viu antes. A gente conhece muitos pilotos e convive com eles. Sabemos o quão determinados e egoístas eles às vezes precisam ser. É uma personalidade meio Batman e Bruce Wayne – fora do carro, eles são educados, falam sobre como esse esporte é um esporte de equipe. Os filmes de corrida mostram os pilotos a partir dessa visão. Do que eles contam nas entrevistas. Mas quando eles colocam o capacete, é a personalidade Batman, e todos querem ser melhores do que o Ayrton Senna. Não interessa que a equipe passou anos trabalhando naquele carro. Se eles precisarem andar mais rápido e correr o risco de destruir o carro, eles farão isso. E vão destruir o carro inteiro. Esse é um lado da personalidade do piloto de corrida que ainda não foi abordada. Sempre conversamos sobre isso e entendemos que era uma ideia boa, um assunto legal, e que daria um filme diferente”.

A ideia era interessante, mas logo surgiu um problema: o orçamento. “Filmes de corrida são os mais caros que existe. O recente ‘Fórmula 1 – O Filme’ teve um orçamento estimado em 250 milhões de dólares mais ou menos. É muito caro. E nenhum estúdio em sã consciência daria milhões de dólares para dois diretores que nunca fizeram um filme – por mais legal que fosse o trabalho deles até então. Lá fora já seria difícil, e no Brasil isso simplesmente não existe”, assumiu Salomão.

O projeto começou a tomar mais forma durante um jantar com o Felipe Nasser – piloto da Porsche e, na opinião dos diretores, o melhor piloto da Porsche inteira. Na ocasião, ele contou que estava há quatro anos envolvido num processo de um hipercarro da marca, o 963, e que finalmente esse carro poderia vencer uma corrida. O piloto tinha acabado de ganhar as 24 Horas de Daytona e tinha como sonho se consagrar vencedor também das 24 Horas de Le Mans, a maior corrida de todos os tempos. “Ele falou que ganharia essa corrida ou morreria tentando – foi daí que veio o nome do filme. Quando ele disse isso, meu irmão virou pra mim e falou: ‘e se nosso primeiro filme fosse sobre um piloto de verdade, numa equipe de verdade, competindo numa corrida de verdade?’. Fomos para o nível mais absurdo dessa ideia, que era acompanhar uma corrida de verdade, mas filmando ela da maneira mais cinemática o possível e editando como um filme. Essa ideia ficou com a gente. Conversamos com estúdios no Brasil – todos falaram que a ideia era ótima, mas que éramos malucos. Principalmente por ser um projeto de orçamento tão alto sobre o qual não teríamos controle nenhum do resultado”. Mas, para os diretores, esse não era o ponto. O mais interessante era a jornada, e não o resultado final. “O nosso filme é sobre um artista obcecado. Não importa se ele vai conseguir ou não, e sim a sua jornada. Foi assim que decidimos fazer o filme e financia-lo pela própria produtora”.

Tecnologia de alto nível

Quando decidiram tocar o filme, os irmãos decidiram que precisariam fazê-lo da melhor forma possível “Você só faz seu primeiro filme uma vez na vida. Entendemos que, por isso, ele precisaria ser completamente inovador e diferente em todos os sentidos”, explicou Salomão. A partir daí, eles criaram uma lista com tópicos que consideravam essenciais para o projeto – caso um deles não fosse aprovado, o filme não iria pra frente. “A primeira coisa era que esse seria o primeiro filme IMAX do Brasil. A segunda, que ele deveria ser inteiramente filmado com lentes e câmeras Panavision – porque tudo bem não ter o budget de Hollywood, mas eu queria o budget para ter o equipamento que Hollywood usa para fazer os melhores filmes deles. Quisemos garantir essa parte técnica desde o começo. A terceira era ter a aprovação da Porsche para captarmos tudo sem restrições. Queríamos ter total direito no final cut do filme. E deu certo – o começo e o fim do filme é sobre um piloto da Porsche, mas no meio você vai ver muita coisa que só pudemos mostrar porque tivemos essa liberdade. Mas tudo isso tornou a ideia ainda mais desafiadora. O filme, como um todo, era praticamente impossível de acontecer. A própria IMAX, quando os procuramos, adoraram a ideia do projeto, mas falaram algo tipo ‘façam o filme, se ele for muito bom, a gente conversa’. Para nós, isso foi um greenlight”.

A produção, que levou dois anos para ser concluída, contou com o apoio técnico da Panavision para o desenvolvimento de câmeras personalizadas. A equipe utilizou corpos de cinema 8K com sensores Vista Vision, permitindo capturas em alta velocidade com mobilidade inédita, e fez uso do Sistema 65 – um conjunto de lentes tão exclusivo que existem apenas dois no mundo. Os cineastas aplicaram uma técnica única que permite filmagem anamórfica na proporção IMAX 1.43:1, garantindo uma textura cinematográfica e uma profundidade de campo que trazem ao espectador uma experiência imersiva que acompanha um carro a mais de 300 km/h.

Desafios de produção

“Para fazer um filme IMAX, é necessário seguir uma série de especificações de câmeras, lentes, sensores e etc, para cobrir todo o aspecto da tela – que é gigantesca, vai do chão ao teto, de uma parede a outra. É muita resolução, contraste, a imagem é muito mais clara. Se não tem resolução, o público percebe na hora. Seguir o padrão de qualidade IMAX dificulta muito”, destacou o diretor. Outro desafio era que, seguindo uma regra imposta pela Porsche, eles só poderiam levar no máximo oito pessoas. “E um ponto importante é: estaria ali uma equipe real tentando ganhar as 24 Horas de Le Mans. Ninguém liga para o filme. Não existe segundo take. Não posso falar para o piloto ‘entra no carro de novo porque eu errei o foco’. Então eram poucas pessoas envolvidas, e nenhuma delas poderia errar”, pontuou.

Dessas oito pessoas, seis eram operadores de câmera – entre eles, os “Abdala Brothers” – além de um operador de som e um produtor executivo. “Cada uma dessas pessoas tinha que ser sua própria equipe inteira de câmera, isto é, operar foco, trocar bateria, carregar lente, limpar lente… Mas, por conta do nosso histórico – nos especializamos tanto em fazer comerciais que eram difíceis, fizemos o primeiro comercial em gravidade zero do Brasil, por exemplo – já estávamos acostumados. Nossos trabalhos sempre desafiaram muito os limites tecnológicos. Montamos um tipo de câmera diferente para cada um da equipe, onde cada uma teria suas especialidades. Uma tinha super slow motion, por exemplo. Foi muito trabalhoso, mas com a ajuda da Panavision conseguimos fazer com que o filme não perdesse nada em qualidade e, ao mesmo tempo, pudéssemos trabalhar com essa equipe tão pequena”.

Caráter precursor

Os diretores acreditam que esse, que é o primeiro filme IMAX do Brasil, possa abrir portas para que venham novos projetos nacionais do tipo. “O IMAX é o formato mais elevado do cinema hoje em dia, e deve continuar em alta. Cada vez mais as pessoas estão preferindo ficar em casa, assistindo a filmes no streaming. Então você precisa de um motivo para que elas realmente queiram sair de casa para ver um filme. Hoje, os filmes que fazem as pessoas irem ao cinema são os grandes eventos cinematográficos, que dão aquela sensação de ‘eu preciso assistir esse filme no cinema’. É muito legal estarmos fazendo o primeiro IMAX do Brasil. É uma conquista para o cinema brasileiro, e sem dúvidas abre espaço para outros virem. É um filme completamente diferente dos que são produzidos aqui. Nós, como brasileiros, temos que buscar cada vez mais pela inovação e pela tecnologia. Os cinemas que mais vendem ingressos hoje são os cinemas IMAX, então precisa ter filmes brasileiros passando ali”, afirmou.

Os irmãos acreditam que até hoje nenhum filme em IMAX havia sido feito no Brasil por uma série de motivos – falta de orçamento, por exemplo. “E uma barreira que muitas pessoas acreditam que está posta. Falam que é muito grande, que não é pra gente. Os brasileiros têm esse espírito vira-lata, de achar que é só pros grandes, pros gringos, pra Hollywood”, opinou Salomão. Seu irmão, André, garante que eles sempre pensaram o contrário. “Acreditamos que, justamente porque somos brasileiros, temos que fazer coisas que ninguém nunca fez antes. E, a partir do momento em que abrimos as primeiras portas na força de vontade, vimos que existe um certo charme em ser brasileiro nesse negócio, porque eles sabem o quão difícil foi para você chegar até ali. Muitas pessoas gostaram, acreditaram, elogiaram nossa perseverança e quiseram apoiar justamente por isso”.

Salomão critica o que ele chama de uma certa acomodação da indústria, de achar que como as coisas sempre foram feitas de tal maneira, precisam seguir assim. “Precisamos de pessoas que cheguem e questionem o porquê de fazer de novo do mesmo jeito se podemos fazer diferente – de um jeito mais novo, mais tecnológico e que vai melhorar a experiência no final. Para nós, nunca existiu limite. Nossa ideia era bater em todos os limites técnicos possíveis – de câmeras, som, cor e etc. Sempre perguntamos por que não podemos fazer tal coisa. Sempre respondiam que ‘não é o padrão’. Mas não ser o padrão não significa que não pode ser feito, então nós vamos fazer”.

Técnica a serviço da história

No entanto, os diretores ressaltam que toda a tecnologia envolvida no filme está a favor da história. “Se você quer fazer um filme de corrida, precisa ir o mais longe possível para que a audiência se sinta dentro do carro. As câmeras que usamos permitem que o público sinta que está dentro do espaço pessoal do Felipe, e não vendo de fora. É sobre fazer parte daquele mundo. Acho que isso faz com que as pessoas se conectem e acreditem mais naquela história. Se é sobre corrida, você tem que usar o sensorial que a sala de cinema de oferece, colocar o público nesse ambiente e brincar com os sentimentos. A tecnologia entra para permitir fazermos isso”, explicou André. “Tanto é que muitas imagens incríveis ficaram no chão da ilha de edição porque, apesar de serem muito boas, não contribuíam em nada para a história. Não é só sobre imagens, e sim sobre a motivação do filme”, completou.

“E muitas coisas técnicas que fizemos não são visíveis no filme. Era esse o objetivo. A parte técnica entra para trazer imersão para a audiência, mas não tentamos em nenhum momento jogar isso na cara das pessoas”, acrescentou Salomão.

“2DIE4: 24 Horas no Limite”, que já está em cartaz nos cinemas, conta com patrocínio da Porsche Brasil, Urban e Mahle e é distribuído pela O2 Play.