Em uma década, 57% dos alunos que ingressaram no ensino superior no Ceará abandonaram os estudos
Fonte: mais.opovo.com.br | Data: 04/05/2026 01:45

A necessidade de trabalhar e a insuficiência de auxílios financeiros são as principais causas de desistência entre os estudantes
Resumo
Mais de 57% dos alunos que ingressaram no ensino superior no Ceará entre 2015 e 2024 abandonaram os estudos.
O abandono é maior em cursos tecnólogos (63%) e em instituições de ensino privadas (61%), superando a média das universidades públicas.
A necessidade de trabalhar, a insuficiência de auxílios financeiros e o acúmulo de responsabilidades domésticas (especialmente para mulheres) são os principais motivos da desistência.
A precariedade do transporte intermunicipal e a falta de moradias universitárias e restaurantes em campi do interior agravam a evasão.
Instituições como a UFC planejam realizar “buscas ativas” para identificar ex-alunos e promover o retorno à graduação ainda em 2026
Mais da metade dos estudantes que ingressaram no ensino superior no Ceará nos últimos anos não concluiu a graduação. A informação é extraída do Censo de Educação Superior de 2024, elaborado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Conforme os dados, entre os que entraram a partir de 2015 até 2024, 57% dos estudantes abandonaram o curso, enquanto cerca de 39% concluíram os estudos.
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Nos cursos de bacharelado — voltados à formação em áreas técnicas, científicas e humanísticas; com duração média de quatro a cinco anos —, a taxa de evasão desde 2015 no Ceará é de 50%, enquanto 40% dos estudantes concluíram a graduação.
Nas licenciaturas, destinadas à formação de professores para a educação básica, 47% abandonaram o curso e 41% conseguiram se formar.
Já nos cursos tecnólogos — de curta duração, geralmente entre 2 e 3 anos, e foco prático voltado ao mercado de trabalho — a evasão é mais elevada: 63% desistiram, e apenas 36% concluíram a formação nos últimos dez anos.
Para o professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), Wagner Bandeira Andriola, pós-doutor em Psicologia Social e Antropologia da Educação, o abandono da graduação pode estar relacionado a uma combinação de fatores contextuais e individuais.
No campo dos fatores contextuais, um ponto relevante é a própria estrutura dos cursos. Ele cita como exemplo as áreas de engenharia, onde a alta exigência em disciplinas de matemática costuma ser um fator de desistência. “Duas ou três reprovações no primeiro ano, nos dois primeiros semestres, já são suficientes para que os alunos se evadam do curso.”
A didática dos professores também entra nesse conjunto. “Alguns são mais exigentes, outros mais tradicionais, há aqueles com pouca inovação em sala de aula, além do excesso de provas”.
Um dos aspectos mais críticos, no entanto, é a insuficiência de políticas de assistência estudantil. “Nas nossas instituições públicas, metade dos alunos que ingressam está amparada pela lei de cotas. O aluno vindo de escola pública tem um perfil que demanda cuidados específicos, especialmente no que diz respeito à assistência estudantil. Eles precisam de apoio financeiro, de suporte pedagógico. Não tendo esse auxílio, esses alunos acabam se evadindo.”
No campo dos fatores individuais, Wagner Bandeira Andriola aponta que o gênero dos estudantes tem grande influência na permanência no ensino superior. Segundo ele, mulheres apresentam maior taxa de evasão, associada a fatores sociais como casamento precoce e acúmulo de responsabilidades domésticas e familiares.
A cor da pele aparece como outro elemento relevante. “Uma mulher negra, por exemplo, tende a enfrentar mais dificuldades para se manter no ensino superior”, afirma. “Muitas vezes, elas estão inseridas em um contexto socioeconômico mais vulnerável e precisam optar entre trabalhar e estudar. E o trabalho se impõe como necessidade, já que frequentemente há responsabilidades familiares: cuidar dos pais, dos filhos, ou até ser a principal provedora da casa”.
Ele também ressalta que o estado civil influencia, já que os solteiros tendem a ter menos responsabilidades familiares e maior disponibilidade para se dedicar à vida acadêmica.
A necessidade de trabalhar, contudo, é apontada como uma das variáveis mais determinantes, independentemente de gênero. Isso porque a conciliação entre estudo e trabalho pode comprometer o desempenho acadêmico e reduzir o tempo disponível para atividades complementares.
“Quem não precisa trabalhar pode se dedicar a projetos de pesquisa, extensão, atividades culturais e acadêmicas em geral”, aponta Andriola.
Conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD), elaborada pelo IBGE, em 2023 havia cerca de 48,5 milhões de pessoas de 15 a 29 anos no Brasil. Desse total, 15,3% trabalhavam e estudavam ao mesmo tempo, o que equivale a cerca de 1 em cada 7 jovens com ambas as ocupações.
Para uma parcela da juventude, a permanência na universidade ocorre em meio a desafios que vão além dos esforços acadêmicos. Roberta Nogueira Braga, 30, moradora de Maracanaú, conta que ingressou na Universidade Estadual do Ceará (UECE) em 2014, aos 18 anos. Ela vivia, naquele período, a realização de um sonho.
“Eu sempre quis fazer faculdade. Letras-Espanhol é um curso com o qual eu me identificava muito. Uma das poucas coisas em que eu realmente me via atuando. Então foi um momento de muita alegria, de realização”, relata.
Poucos meses após o início, ela foi surpreendida com a notícia de que a Instituição entraria em greve. O período se estendeu por cerca de cinco meses. Contudo, a paralisação afetou o psicológico da jovem Roberta.
“Os sintomas da minha depressão — que já existiam, mas estavam mais ‘adormecidos’ — acabaram piorando. A ansiedade foi aumentando e, quando a greve terminou, eu já não sentia mais aquele ânimo de voltar”, afirma. A estudante ainda tentou retomar o curso em 2017, mas enfrentou nova paralisação. “Essa segunda greve foi um pouco mais curta, mas, novamente, com o ócio, minha depressão foi aumentando. Acabei deixando de frequentar”, diz.
Em uma terceira tentativa, no início de 2019, outro fator externo interferiu. Em janeiro daquele ano, o Ceará enfrentou uma crise de segurança pública, marcada por ataques a ônibus. Uma das linhas afetadas era justamente a que Roberta utilizava para se deslocar de Maracanaú até o Centro de Humanidades da UECE, no bairro de Fátima.

Foto: FERNANDA BARROS
A taxa de desistência é mais alta em instituições privadas do que em universidades públicas
A sucessão de obstáculos contribuiu para o agravamento de questões emocionais. “Quando essa situação melhorou, a minha depressão já tinha voltado com força. Eu também estava enfrentando muitos problemas de autoimagem. Acabei desistindo novamente. Depois disso, não tentei mais”, ela lembra.
Roberta diz que o desejo de retornar à universidade permanece, mas agora esbarra em novas barreiras, principalmente relacionadas à renda. Atuando como representante de vendas, ela possui uma rotina intensa trabalhando seis dias por semana.
Além disso, trabalhando no bairro Messejana, em Fortaleza, o deslocamento diário também pesa na decisão. “A viagem do trabalho para casa já é extremamente desgastante, e o deslocamento entre o trabalho e a faculdade também seria muito longo”, diz. “Eu sairia do trabalho já atrasada para a aula e, depois, enfrentaria um trajeto demorado para voltar para casa, chegando após às 23h e tendo que acordar às 5h”.
“Infelizmente, eu não posso deixar de trabalhar para me dedicar aos estudos neste momento da minha vida, porque tenho muitas responsabilidades. Eu moro com a minha mãe, e a renda da minha mãe já é bastante comprometida com contas mais altas”, diz.
Roberta chegou a considerar fazer um curso na área de Tradução, com a qual sempre teve afinidade. No entanto, não há polos com essa formação no Ceará. Caso optasse por uma instituição de fora do Estado, teria que viajar semestralmente a São Paulo — único local onde encontrou o curso —, um custo inviável para sua realidade.
Mesmo sem conseguir concluir os estudos no momento, ela ressalta o valor da formação acadêmica e espera um dia poder retornar ao ensino superior. “Considero a educação algo essencial na vida. É um bem muito valioso”.
Estudantes da rede privada e do ensino a distância lideram as taxas de desistência na graduação
Ainda conforme o Censo de Educação Superior de 2024, nas instituições privadas do Ceará, a taxa de desistência é mais alta, chegando a 61%, enquanto a de conclusão é de 38%.
Já nas instituições públicas, o cenário é relativamente mais favorável: a evasão cai para 48%, e a taxa de conclusão sobe para 43%.
Embora programas como o Programa Universidade para Todos (Prouni) e o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) ampliem o acesso, eles não garantem condições de permanência.
Segundo Davi Mattos, presidente da União Estadual dos Estudantes do Ceará (UEE-CE) e estudante de Ciências Sociais pela UECE e de Pedagogia pelo Centro Universitário Inta (UNINTA), muitos estudantes da rede privada enfrentam dificuldades para arcar com custos básicos.
“Você não tem — ou tem de forma muito mais limitada — as mesmas políticas existentes na universidade pública, como bolsas de extensão, iniciação científica ou monitoria”, ele aponta. “Por isso esses alunos, que muitas vezes também são de baixa renda, trabalham no regime CLT, com um salário mínimo, e precisam dividir esse tempo e essa renda com a própria subsistência”.
Outro recorte diz respeito à modalidade de ensino a distância. De acordo com o Censo da Educação Superior, entre 2015 e 2024, a taxa nacional de desistência em cursos EaD é de 63%, superior à registrada nos cursos presenciais, que alcança 58%.
O Inep, no entanto, não apresenta o detalhamento desses dados para o Ceará. Procurado pelo O POVO, o órgão foi questionado sobre o recorte estadual, mas não respondeu até o fechamento desta reportagem.
Segundo o novo marco regulatório do ensino superior no Brasil (nº 12.456/2025), os cursos presenciais devem ter ao menos 70% da carga horária em atividades presenciais, com no máximo 30% em EaD. No formato semipresencial, é exigido mínimo de 30% de atividades presenciais. Já no ensino a distância, pelo menos 10% da carga deve ser presencial.
As exceções são os cursos de Direito, Medicina, Enfermagem, Odontologia e Psicologia, que só podem ser ofertados no formato presencial.
Para algumas pessoas, o ensino a distância é uma alternativa mais acessível para retomar os estudos. É o caso de Haleckson Henrick Constantino Cunha, 30, que ingressou no curso de Ciência da Computação da Universidade Federal do Ceará (UFC) em 2016, na época com 20 anos.
Apesar de um começo tranquilo, a rotina rapidamente se tornou exaustiva. “Um dos maiores empecilhos era o horário, eu sou de Maracanaú e meu curso era integral. Eu saia de casa às 6h e chegava por volta das 22h”, detalha.
“Além disso, percebi que, na minha preferência de aprendizado, as aulas presenciais não me ajudavam tanto. Procurei disciplinas que pudessem ser EAD, o que acabou alongando ainda mais o tempo de conclusão do curso”, relembra.
Questões financeiras também tiveram peso na trajetória do estudante. Embora tenha tido acesso a uma bolsa acadêmica por um período, o valor era insuficiente diante das demandas de casa, que só foram agravadas com a chegada da pandemia de Covid-19.
“Nós eramos quatro pessoas e meu pai trabalhava de forma avulsa. Assim, naquele período, a gente perdeu grande parte da renda de casa. As contas foram chegando e se acumulando. Cada vez mais eu sentia a necessidade de contribuir, precisava ir atrás de alguma coisa”, diz. Henrick então trancou a graduação.
O jovem relembra que prestou um concurso público no fim de 2021. Felizmente, poucos meses depois, foi convocado e passou a atuar no setor administrativo de uma delegacia em Maracanaú. Foi nessa área que ele descobriu uma nova afinidade.
“Eu percebi que me dou bem nela, mas eu realmente quero voltar a estudar e me qualificar. Estou me organizando para retornar ao ensino superior, mas em outra área, já que vi que estou me desenvolvendo mais nesse lado”, aponta.
Embora seja uma alternativa de acesso, o professor Wagner Andriola aponta limitações nessa modalidade de ensino.
“Os cursos remotos não são adequados para qualquer perfil de estudante. Um jovem que opta pelo ensino a distância apenas por ser mais barato, muitas vezes não tem maturidade nem autonomia suficientes. Eles entram com expectativas equivocadas e encontram uma realidade diferente”, destaca.

Foto: FERNANDA BARROS
A taxa nacional de desistência em cursos EaD é superior à registrada nos cursos presenciais
Ele também destaca que a qualidade do EaD, principalmente em instituições privadas, é prejudicada por conteúdos desatualizados e metodologias pouco dinâmicas, já que muitas instituições priorizam a redução de custos em vez de investir na melhoria e inovação do ensino.
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Falta de transporte adequado dificulta permanência
De acordo com a União Estadual dos Estudantes do Ceará (UEE-CE), o deslocamento entre municípios é um fator recorrente no abandono da graduação.
“Muitos estudantes saem de suas casas e passam, às vezes, três horas para chegar à universidade e depois mais três horas para voltar. Isso exige um esforço muito grande e também tempo, que é algo que hoje a juventude não tem. A juventude se divide entre trabalho e estudo, muitas vezes”, aponta Davi Mattos, presidente da UEE-CE.
A precariedade do transporte agrava o problema. “É cada vez mais frequente termos relatos de ônibus quebram, pegam fogo, perdem pneus ou param no meio da estrada durante os trajetos”, afirma.
No dia 10 deste mês de abril, um ônibus universitário chegou a pegar fogo na BR-222, na altura do município de Forquilha, a 192 quilômetros de Fortaleza. O veículo transportava estudantes de Itapajé com destino a uma universidade em Sobral. Felizmente, todos os passageiros e o motorista conseguiram sair antes que as chamas se alastrassem.
A UEE ressalta que o Ceará não possui uma lei estadual que regulamente o transporte universitário.
Atualmente, o Projeto de Lei nº 586/2023, que institui a Política Estadual de Assistência Estudantil (PEAES), está em análise na Comissão de Constituição, Justiça e Redação (CCJR) da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará. Se receber parecer favorável, ainda sem data prevista, a proposta seguirá para as comissões temáticas e, posteriormente, para votação em plenário na Alece.
Diferentemente da educação básica, que conta com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB/nº 9.394/96), que obriga o poder público a oferecer transporte escolar, o acesso ao ensino superior não possui previsão legal expressa sobre o tema.
“Contudo, com base na Constituição Federal e na LDB, é possível inferir a responsabilidade do município em ofertar transporte a perfis definidos em legislação local, assegurando condições de dignidade e segurança”, aponta o coordenador auxiliar do Centro de Apoio Operacional da Educação (Caoeduc) do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE), promotor de Justiça Jucelino Soares.
“O que temos observa é que praticamente todos os municípios do Ceará registram procura pelo serviço. No entanto, as prefeituras enfrentam dificuldades para ofertar ônibus em número suficiente, seja por falhas de organização administrativa — já que os alunos ingressam ao longo do ano —, seja por falta de investimento”, aponta.
Conforme o MPCE, cerca de 70% da frota de transporte escolar de alunos da Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio do Ceará está em situação de irregularidade. Já no transporte universitário, até o momento, não há um órgão central responsável por compilar esses dados.
Assim, o MPCE depende do acompanhamento de levantamentos município a município, da atuação da população e das fiscalizações nas rodovias.
Em casos de dificuldades no acesso ao serviço ou baixa qualidade do transporte, estudantes ou familiares podem procurar a Promotoria de Justiça dos respectivos municípios ou a Ouvidoria do Ministério Público do Ceará.
Já situações que envolvam riscos diretos à segurança, como problemas em pneus, freios, assentos, cintos ou motorista sem habilitação adequada, também podem ser comunicadas aos órgãos de fiscalização, como a Agência Reguladora do Estado do Ceará (Arce), o Departamento Estadual de Trânsito do Ceará (Detran) e as polícias rodoviárias federal (PRF) e estadual (PRE). As denúncias podem incluir fotos, vídeos e relatos detalhados.
Professores e estudantes pedem ampliação de políticas de permanência no Ensino Superior
Para a União Estadual dos Estudantes do Ceará (UEE-CE), além de políticas de acesso à educação, é preciso melhorar as ações de permanência dos alunos. As desigualdades, segundo a representação, são mais evidentes fora da Capital. “Aqui em Fortaleza, nós temos os RUs, mas nem todo campus do interior tem restaurante universitário”, pontua o presidente Davi Mattos.
Ele cita, como exemplo, a Universidade Estadual do Ceará (UECE). “A UECE não tem uma moradia universitária. É a maior universidade estadual do Ceará, a mais interiorizada, e nem mesmo na Capital há moradia universitária. Além disso, alguns campi da Instituição, como o de Itapipoca, ainda não tem sequer restaurante universitário (RU)”, destaca.
Com 15 centros e faculdades, atualmente a UECE conta com restaurantes ou refeitórios em campi como Fortaleza (Itaperi e Centro de Humanidades), Iguatu, Mombaça, Tauá e Limoeiro do Norte.
A Universidade Estadual informou que tem adotado medidas para ampliar a política de permanência. Entre as ações está a expansão da rede de refeitórios, com unidades previstas para Quixadá, Crateús e Itapipoca, com funcionamento estimado para o segundo semestre.
Além disso, a UECE mantém 1.370 bolsas do programa BSocial/Funcap, destinadas a estudantes em vulnerabilidade, com valor de R$ 700. Há ainda auxílios para participação em eventos acadêmicos e critérios de priorização que incluem estudantes cotistas, pais ou mães com filhos pequenos e alunos que residem em municípios diferentes do campus.
Sobre a oferta de moradias, a Universidade destacou que “a estratégia de interiorização tem sido fundamental para mitigar a demanda por moradia estudantil em Fortaleza, ao levar oportunidades de formação superior para o interior do Ceará, sendo este o foco estratégico da universidade”.
A Instituição também informou que está em negociação com o Governo do Estado para ampliar o número de bolsas.
Já a Universidade Federal do Ceará (UFC) destaca que, atualmente, 8.451 estudantes estão cadastrados na política de assistência da instituição, que inclui auxílios como moradia, creche, emergencial e apoio à participação em eventos.
Entre os programas, o Auxílio Ingressante atende 1.980 estudantes sem necessidade de seleção, enquanto o Auxílio Moradia contempla 1.824 alunos mediante critérios socioeconômicos.
No campo da alimentação, a UFC destacou que todos os campi possuem Restaurante Universitário em funcionamento. São cerca de 15 mil refeições servidas diariamente, com custo de R$ 1,10 por refeição.
A universidade também dispõe de nove residências estudantis, que somam 382 vagas para alunos em situação de vulnerabilidade. Outras duas estão em construção, localizadas na Avenida da Universidade e na Avenida Carapinima, no bairro Benfica, que juntas acrescentarão 119 novas vagas.
Já para as universidades privadas, vale destacar que, durante visita a Fortaleza no último dia 1º de abril, o presidente Lula sugeriu a criação de uma modalidade do programa Pé-de-Meia para universitários, especialmente entre bolsistas do ProUni.
Para Ruy de Deus, professor do Mestrado Profissional em Avaliação de Políticas Públicas (UFC) e coordenador do projeto de análise dos 20 anos do ProUni (TED SesuMEC), as políticas de permanência podem ser ampliadas com cautela.
“Nas universidades privadas há o agravante de não ter assistência estudantil, como restaurante universitário. Eu acho que, seja o Pé-de-Meia, seja uma bolsa de manutenção ou um auxílio permanência, essas políticas devem ser pensadas com bastante cuidado. Mas podem ser um caminho necessário e interessante para garantir a permanência desses alunos no ensino superior — especialmente estudantes do CadÚnico e de baixa renda”, destaca.
O POVO entrou em contato com o Inep e com Sindicato de Educação da Livre Iniciativa do Estado do Ceará (Sinepe-CE) para um detalhamento sobre medidas de assistência para alunos da rede privada. A reportagem será atualizada após retorno.
UFC fará busca ativa por alunos que se afastaram dos cursos
A Universidade Federal do Ceará (UFC) anunciou que tem estruturado uma medida para reaproximar estudantes que interromperam a graduação nos últimos anos. A proposta de uma “busca ativa” começou a ser desenhada desde o final de 2025.
A proposta busca identificar quem abandonou os cursos, além de compreender as razões por trás dessa decisão.
“Essa busca ativa servirá para identificar as especificidades de cada estudante e os motivos do abandono. Queremos saber os fatores externos que levaram aquele aluno a abandonar a instituição, como questões de emprego, familiares ou de saúde”, destaca Júlio Barros, coordenador da Coordenadoria de Planejamento, Informação e Comunicação da Pró-Reitoria de Graduação (Prograd).
“Temos em nossa base de dados o e-mail e o telefone desses alunos. Enviaremos a eles um formulário vinculado ao CPF”, detalha. “A ideia é não esperar que o aluno procure a universidade para retornar; nós iremos atrás dele para identificar o motivo do abandono. Identificaremos aqueles que têm potencial para um retorno imediato e providenciaremos a reabertura de matrícula”, afirma.
A expectativa é que a medida tenha resultados ainda em 2026.
Ensino superior no Ceará (2015–2024)
- Bacharelado (4 a 5 anos)
50% abandonaram
40% concluíram
- Licenciaturas (4 a 5 anos – Formação de professores)
47% abandonaram
41% concluíram
- Tecnólogos (2 a 3 anos, foco prático)
63% abandonaram
36% concluíram
Por tipo de instituição (Ceará)
- Privadas
61% abandonaram
38% concluíram
- Públicas
48% abandonaram
43% concluíram
Menores taxas de conclusão no Brasil
Mato Grosso do Sul – 35%
Amazonas – 36%
Rio Grande do Sul – 36%
Maiores taxas de desistência
62% – Amazonas, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul
Fonte: Censo de Educação Superior 2024, Inep

Estudantes da rede privada e do ensino a distância lideram as taxas de desistência na graduação
Ainda conforme o Censo de Educação Superior de 2024, nas instituições privadas do Ceará, a taxa de desistência é mais alta, chegando a 61%, enquanto a de conclusão é de 38%.
Já nas instituições públicas, o cenário é relativamente mais favorável: a evasão cai para 48%, e a taxa de conclusão sobe para 43%.
Embora programas como o Programa Universidade para Todos (Prouni) e o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) ampliem o acesso, eles não garantem condições de permanência.
Segundo Davi Mattos, presidente da União Estadual dos Estudantes do Ceará (UEE-CE) e estudante de Ciências Sociais pela UECE e de Pedagogia pelo Centro Universitário Inta (UNINTA), muitos estudantes da rede privada enfrentam dificuldades para arcar com custos básicos.
“Você não tem — ou tem de forma muito mais limitada — as mesmas políticas existentes na universidade pública, como bolsas de extensão, iniciação científica ou monitoria”, ele aponta. “Por isso esses alunos, que muitas vezes também são de baixa renda, trabalham no regime CLT, com um salário mínimo, e precisam dividir esse tempo e essa renda com a própria subsistência”.
Outro recorte diz respeito à modalidade de ensino a distância. De acordo com o Censo da Educação Superior, entre 2015 e 2024, a taxa nacional de desistência em cursos EaD é de 63%, superior à registrada nos cursos presenciais, que alcança 58%.
O Inep, no entanto, não apresenta o detalhamento desses dados para o Ceará. Procurado pelo O POVO, o órgão foi questionado sobre o recorte estadual, mas não respondeu até o fechamento desta reportagem.
Segundo o novo marco regulatório do ensino superior no Brasil (nº 12.456/2025), os cursos presenciais devem ter ao menos 70% da carga horária em atividades presenciais, com no máximo 30% em EaD. No formato semipresencial, é exigido mínimo de 30% de atividades presenciais. Já no ensino a distância, pelo menos 10% da carga deve ser presencial.
As exceções são os cursos de Direito, Medicina, Enfermagem, Odontologia e Psicologia, que só podem ser ofertados no formato presencial.
Para algumas pessoas, o ensino a distância é uma alternativa mais acessível para retomar os estudos. É o caso de Haleckson Henrick Constantino Cunha, 30, que ingressou no curso de Ciência da Computação da Universidade Federal do Ceará (UFC) em 2016, na época com 20 anos.
Apesar de um começo tranquilo, a rotina rapidamente se tornou exaustiva. “Um dos maiores empecilhos era o horário, eu sou de Maracanaú e meu curso era integral. Eu saia de casa às 6h e chegava por volta das 22h”, detalha.
“Além disso, percebi que, na minha preferência de aprendizado, as aulas presenciais não me ajudavam tanto. Procurei disciplinas que pudessem ser EAD, o que acabou alongando ainda mais o tempo de conclusão do curso”, relembra.
Questões financeiras também tiveram peso na trajetória do estudante. Embora tenha tido acesso a uma bolsa acadêmica por um período, o valor era insuficiente diante das demandas de casa, que só foram agravadas com a chegada da pandemia de Covid-19.
“Nós eramos quatro pessoas e meu pai trabalhava de forma avulsa. Assim, naquele período, a gente perdeu grande parte da renda de casa. As contas foram chegando e se acumulando. Cada vez mais eu sentia a necessidade de contribuir, precisava ir atrás de alguma coisa”, diz. Henrick então trancou a graduação.
O jovem relembra que prestou um concurso público no fim de 2021. Felizmente, poucos meses depois, foi convocado e passou a atuar no setor administrativo de uma delegacia em Maracanaú. Foi nessa área que ele descobriu uma nova afinidade.
“Eu percebi que me dou bem nela, mas eu realmente quero voltar a estudar e me qualificar. Estou me organizando para retornar ao ensino superior, mas em outra área, já que vi que estou me desenvolvendo mais nesse lado”, aponta.
Embora seja uma alternativa de acesso, o professor Wagner Andriola aponta limitações nessa modalidade de ensino.
“Os cursos remotos não são adequados para qualquer perfil de estudante. Um jovem que opta pelo ensino a distância apenas por ser mais barato, muitas vezes não tem maturidade nem autonomia suficientes. Eles entram com expectativas equivocadas e encontram uma realidade diferente”, destaca.

Foto: FERNANDA BARROS
A taxa nacional de desistência em cursos EaD é superior à registrada nos cursos presenciais
Ele também destaca que a qualidade do EaD, principalmente em instituições privadas, é prejudicada por conteúdos desatualizados e metodologias pouco dinâmicas, já que muitas instituições priorizam a redução de custos em vez de investir na melhoria e inovação do ensino.
Falta de transporte adequado dificulta permanência
De acordo com a União Estadual dos Estudantes do Ceará (UEE-CE), o deslocamento entre municípios é um fator recorrente no abandono da graduação.
“Muitos estudantes saem de suas casas e passam, às vezes, três horas para chegar à universidade e depois mais três horas para voltar. Isso exige um esforço muito grande e também tempo, que é algo que hoje a juventude não tem. A juventude se divide entre trabalho e estudo, muitas vezes”, aponta Davi Mattos, presidente da UEE-CE.
A precariedade do transporte agrava o problema. “É cada vez mais frequente termos relatos de ônibus quebram, pegam fogo, perdem pneus ou param no meio da estrada durante os trajetos”, afirma.
No dia 10 deste mês de abril, um ônibus universitário chegou a pegar fogo na BR-222, na altura do município de Forquilha, a 192 quilômetros de Fortaleza. O veículo transportava estudantes de Itapajé com destino a uma universidade em Sobral. Felizmente, todos os passageiros e o motorista conseguiram sair antes que as chamas se alastrassem.
A UEE ressalta que o Ceará não possui uma lei estadual que regulamente o transporte universitário.
Atualmente, o Projeto de Lei nº 586/2023, que institui a Política Estadual de Assistência Estudantil (PEAES), está em análise na Comissão de Constituição, Justiça e Redação (CCJR) da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará. Se receber parecer favorável, ainda sem data prevista, a proposta seguirá para as comissões temáticas e, posteriormente, para votação em plenário na Alece.
Diferentemente da educação básica, que conta com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB/nº 9.394/96), que obriga o poder público a oferecer transporte escolar, o acesso ao ensino superior não possui previsão legal expressa sobre o tema.
“Contudo, com base na Constituição Federal e na LDB, é possível inferir a responsabilidade do município em ofertar transporte a perfis definidos em legislação local, assegurando condições de dignidade e segurança”, aponta o coordenador auxiliar do Centro de Apoio Operacional da Educação (Caoeduc) do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE), promotor de Justiça Jucelino Soares.
“O que temos observa é que praticamente todos os municípios do Ceará registram procura pelo serviço. No entanto, as prefeituras enfrentam dificuldades para ofertar ônibus em número suficiente, seja por falhas de organização administrativa — já que os alunos ingressam ao longo do ano —, seja por falta de investimento”, aponta.
Conforme o MPCE, cerca de 70% da frota de transporte escolar de alunos da Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio do Ceará está em situação de irregularidade. Já no transporte universitário, até o momento, não há um órgão central responsável por compilar esses dados.
Assim, o MPCE depende do acompanhamento de levantamentos município a município, da atuação da população e das fiscalizações nas rodovias.
Em casos de dificuldades no acesso ao serviço ou baixa qualidade do transporte, estudantes ou familiares podem procurar a Promotoria de Justiça dos respectivos municípios ou a Ouvidoria do Ministério Público do Ceará.
Já situações que envolvam riscos diretos à segurança, como problemas em pneus, freios, assentos, cintos ou motorista sem habilitação adequada, também podem ser comunicadas aos órgãos de fiscalização, como a Agência Reguladora do Estado do Ceará (Arce), o Departamento Estadual de Trânsito do Ceará (Detran) e as polícias rodoviárias federal (PRF) e estadual (PRE). As denúncias podem incluir fotos, vídeos e relatos detalhados.
Professores e estudantes pedem ampliação de políticas de permanência no Ensino Superior
Para a União Estadual dos Estudantes do Ceará (UEE-CE), além de políticas de acesso à educação, é preciso melhorar as ações de permanência dos alunos. As desigualdades, segundo a representação, são mais evidentes fora da Capital. “Aqui em Fortaleza, nós temos os RUs, mas nem todo campus do interior tem restaurante universitário”, pontua o presidente Davi Mattos.
Ele cita, como exemplo, a Universidade Estadual do Ceará (UECE). “A UECE não tem uma moradia universitária. É a maior universidade estadual do Ceará, a mais interiorizada, e nem mesmo na Capital há moradia universitária. Além disso, alguns campi da Instituição, como o de Itapipoca, ainda não tem sequer restaurante universitário (RU)”, destaca.
Com 15 centros e faculdades, atualmente a UECE conta com restaurantes ou refeitórios em campi como Fortaleza (Itaperi e Centro de Humanidades), Iguatu, Mombaça, Tauá e Limoeiro do Norte.
A Universidade Estadual informou que tem adotado medidas para ampliar a política de permanência. Entre as ações está a expansão da rede de refeitórios, com unidades previstas para Quixadá, Crateús e Itapipoca, com funcionamento estimado para o segundo semestre.
Além disso, a UECE mantém 1.370 bolsas do programa BSocial/Funcap, destinadas a estudantes em vulnerabilidade, com valor de R$ 700. Há ainda auxílios para participação em eventos acadêmicos e critérios de priorização que incluem estudantes cotistas, pais ou mães com filhos pequenos e alunos que residem em municípios diferentes do campus.
Sobre a oferta de moradias, a Universidade destacou que “a estratégia de interiorização tem sido fundamental para mitigar a demanda por moradia estudantil em Fortaleza, ao levar oportunidades de formação superior para o interior do Ceará, sendo este o foco estratégico da universidade”.
A Instituição também informou que está em negociação com o Governo do Estado para ampliar o número de bolsas.
Já a Universidade Federal do Ceará (UFC) destaca que, atualmente, 8.451 estudantes estão cadastrados na política de assistência da instituição, que inclui auxílios como moradia, creche, emergencial e apoio à participação em eventos.
Entre os programas, o Auxílio Ingressante atende 1.980 estudantes sem necessidade de seleção, enquanto o Auxílio Moradia contempla 1.824 alunos mediante critérios socioeconômicos.
No campo da alimentação, a UFC destacou que todos os campi possuem Restaurante Universitário em funcionamento. São cerca de 15 mil refeições servidas diariamente, com custo de R$ 1,10 por refeição.
A universidade também dispõe de nove residências estudantis, que somam 382 vagas para alunos em situação de vulnerabilidade. Outras duas estão em construção, localizadas na Avenida da Universidade e na Avenida Carapinima, no bairro Benfica, que juntas acrescentarão 119 novas vagas.
Já para as universidades privadas, vale destacar que, durante visita a Fortaleza no último dia 1º de abril, o presidente Lula sugeriu a criação de uma modalidade do programa Pé-de-Meia para universitários, especialmente entre bolsistas do ProUni.
Para Ruy de Deus, professor do Mestrado Profissional em Avaliação de Políticas Públicas (UFC) e coordenador do projeto de análise dos 20 anos do ProUni (TED SesuMEC), as políticas de permanência podem ser ampliadas com cautela.
“Nas universidades privadas há o agravante de não ter assistência estudantil, como restaurante universitário. Eu acho que, seja o Pé-de-Meia, seja uma bolsa de manutenção ou um auxílio permanência, essas políticas devem ser pensadas com bastante cuidado. Mas podem ser um caminho necessário e interessante para garantir a permanência desses alunos no ensino superior — especialmente estudantes do CadÚnico e de baixa renda”, destaca.
O POVO entrou em contato com o Inep e com Sindicato de Educação da Livre Iniciativa do Estado do Ceará (Sinepe-CE) para um detalhamento sobre medidas de assistência para alunos da rede privada. A reportagem será atualizada após retorno.
UFC fará busca ativa por alunos que se afastaram dos cursos
A Universidade Federal do Ceará (UFC) anunciou que tem estruturado uma medida para reaproximar estudantes que interromperam a graduação nos últimos anos. A proposta de uma “busca ativa” começou a ser desenhada desde o final de 2025.
A proposta busca identificar quem abandonou os cursos, além de compreender as razões por trás dessa decisão.
“Essa busca ativa servirá para identificar as especificidades de cada estudante e os motivos do abandono. Queremos saber os fatores externos que levaram aquele aluno a abandonar a instituição, como questões de emprego, familiares ou de saúde”, destaca Júlio Barros, coordenador da Coordenadoria de Planejamento, Informação e Comunicação da Pró-Reitoria de Graduação (Prograd).
“Temos em nossa base de dados o e-mail e o telefone desses alunos. Enviaremos a eles um formulário vinculado ao CPF”, detalha. “A ideia é não esperar que o aluno procure a universidade para retornar; nós iremos atrás dele para identificar o motivo do abandono. Identificaremos aqueles que têm potencial para um retorno imediato e providenciaremos a reabertura de matrícula”, afirma.
A expectativa é que a medida tenha resultados ainda em 2026.