Três mortos em cruzeiro após possível surto de hantavírus ao largo de Cabo Verde
Fonte: cnnportugal.iol.pt | Data: 04/05/2026 02:29:35
Autoridades de saúde investigam a origem do vírus enquanto passageiros aguardam assistência médica
Três pessoas morreram e pelo menos outras três ficaram doentes após um possível surto de hantavírus a bordo de um navio de cruzeiro que navegava no Oceano Atlântico, informou a Organização Mundial da Saúde no domingo.
Os três mortos eram passageiros do cruzeiro, revelou a Oceanwide Expeditions, a empresa que opera o navio, chamado MV Hondius, que está atualmente ancorado na Praia, a capital de Cabo Verde, um país insular ao largo da costa ocidental de África.
Às 22:00 de domingo, as autoridades cabo-verdianas ainda não tinham permitido que os passageiros desembarcassem para procurar cuidados médicos, mas as autoridades de saúde locais visitaram o navio e avaliaram dois membros da tripulação sintomáticos “que necessitam de cuidados médicos urgentes”, referiu a Oceanwide Expeditions em comunicado.
O hantavírus pode causar uma doença respiratória grave e frequentemente mortal chamada síndrome pulmonar por hantavírus, que matou Betsy Arakawa, mulher do falecido ator Gene Hackman, no ano passado.
Os humanos podem infetar-se através do contacto com roedores como ratos e ratazanas, especialmente com a sua urina, fezes e saliva, segundo os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC). A transmissão entre humanos é possível mas rara, disse a OMS.
Eis o que se sabe sobre o suspeito surto a bordo.
Por onde passou o navio?
O MV Hondius partiu de Ushuaia, na Argentina, há cerca de sete semanas, segundo dados da MarineTraffic, que o identificam como um navio de cruzeiro de passageiros com bandeira neerlandesa. Fez escalas na Antártida e no território britânico ultramarino de Santa Helena antes de ancorar no domingo na Praia, capital de Cabo Verde, segundo a MarineTraffic.
O navio transporta 170 passageiros e 71 tripulantes, incluindo um médico, segundo a Oceanwide Expeditions. A empresa disse à CNN que está “atualmente focada na saúde e segurança dos passageiros e da tripulação” e fornecerá mais informações à medida que estiverem disponíveis.
Não se sabe como ocorreram as infeções. O Ministério da Saúde da província de Tierra del Fuego, onde se situa Ushuaia, disse que nunca foi reportado qualquer caso de hantavírus na província.
Dos seis indivíduos sintomáticos, apenas um caso de infeção por hantavírus foi confirmado em laboratório até agora, enquanto os outros cinco são casos suspeitos, disse a OMS.
“Estão em curso investigações detalhadas, incluindo mais testes laboratoriais e investigações epidemiológicas”, revelou a OMS. “Estão a ser prestados cuidados médicos e apoio aos passageiros e tripulação. A sequenciação do vírus também está em curso.”
Scott Miscovich, médico de família e presidente executivo do Premier Medical Group, disse que é altamente invulgar haver um surto de hantavírus num navio que não viajou para locais onde o vírus é endémico.
“Quando li isto pela primeira vez, pensei que se tratava de um erro”, disse à CNN após a notícia do surto suspeito.
O que se sabe sobre as vítimas?
A primeira vítima foi um homem de 70 anos. Morreu a bordo do navio e o corpo foi removido para Santa Helena, revelou o Departamento de Saúde da África do Sul, segundo a Associated Press.
A mulher do homem colapsou num aeroporto na África do Sul enquanto tentava regressar aos Países Baixos, o seu país de origem, e morreu no hospital, acrescentou a mesma fonte.
Dois dos passageiros mortos eram neerlandeses, confirmou um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros dos Países Baixos à Reuters.
Um cidadão britânico que adoeceu após o navio deixar Santa Helena está a ser tratado em Joanesburgo, disse o departamento de saúde da África do Sul.
Ainda não foi tomada uma decisão sobre a transferência dos membros da tripulação para receber cuidados médicos, adiantou a operadora turística.
As autoridades neerlandesas concordaram em repatriar os membros da tripulação sintomáticos, bem como o corpo de um dos mortos, para os Países Baixos, disse a Oceanwide Expeditions.
“A prioridade da Oceanwide Expeditions é garantir que os dois indivíduos sintomáticos a bordo recebem cuidados médicos adequados e rápidos”, afirmou.
A OMS disse que está “a facilitar a coordenação entre os Estados-membros e os operadores do navio para a evacuação médica de dois passageiros sintomáticos, bem como a avaliação completa do risco de saúde pública e apoio aos restantes passageiros a bordo”.
Miscovich disse ser intrigante que as autoridades não tenham dado prioridade à retirada das pessoas do navio.
“Se eu estivesse envolvido, a primeira coisa que teria de acontecer seria levar o navio para terra e retirar toda a gente, para serem avaliados”, assegurou.
A CNN contactou o Departamento de Saúde da África do Sul, o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, o Ministério dos Negócios Estrangeiros dos Países Baixos e o Ministério da Saúde de Cabo Verde.
Quão mortal é o hantavírus?
As estirpes de hantavírus encontradas no hemisfério ocidental podem causar síndrome pulmonar por hantavírus, que é maioritariamente transmitida pelo rato-veado nos EUA, segundo o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC).
Os sintomas iniciais incluem fadiga, febre, dores musculares, bem como dores de cabeça, tonturas, calafrios e problemas abdominais em alguns doentes. Os sintomas mais tardios da síndrome pulmonar por hantavírus incluem tosse, falta de ar e aperto no peito.
Hantavírus encontrados sobretudo na Europa e na Ásia podem também causar doença renal grave.
Não existe cura para a infeção por hantavírus, para além do tratamento dos sintomas, sendo que os doentes com dificuldades respiratórias graves podem necessitar de ventilação mecânica, disse o CDC.
A doença é rara mas altamente mortal — cerca de 38% das pessoas que desenvolvem sintomas respiratórios podem morrer, segundo o CDC. Se os doentes forem idosos ou imunocomprometidos, a taxa de mortalidade pode ser mais elevada, acrescentou Miscovich.
Até ao final de 2023, foram registados apenas 890 casos confirmados de hantavírus nos EUA desde o início da monitorização em 1993.
A maioria dos casos ocorre no Novo México, o mesmo estado onde Arakawa foi encontrada morta na casa que partilhava com Hackman. Mais tarde foram encontrados roedores mortos e ninhos em várias estruturas da propriedade.
Miscovich disse que “todos os sinais apontam” para a origem do vírus estar algures no navio.
“Esse navio vai ser minuciosamente investigado e vão encontrar alguma coisa”, disse.
A CNN contactou ainda várias entidades para obter mais informações.
Teele Rebane, Begoña Blanco Muñoz e Rocio Muñoz-Ledo, da CNN, contribuíram para esta reportagem.