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O que são terras raras e por que o Brasil quer explorar minerais considerados essenciais para carros elétricos, chips e tecnologia militar

Fonte: terra.com.br | Data: 08/05/2026 11:35:07

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A Câmara dos Deputados aprovou, em 6 de maio, um projeto de lei que amplia os poderes do Executivo sobre minerais críticos e estratégicos. Ademais, ela prevê incentivos ao setor privado para explorar as reservas brasileiras. A proposta inclui as chamadas terras raras, grupo de minerais considerados fundamentais para a indústria de alta tecnologia e para a transição energética. Dessa forma, a votação reacende discussões sobre soberania, meio ambiente e o papel do Brasil em uma cadeia global dominada pela China.

O projeto define diretrizes para mapear, regular e estimular a exploração desses recursos. Ao mesmo tempo, centraliza mais decisões no governo federal. A iniciativa ocorre em um momento em que grandes potências disputam o acesso a minerais estratégicos para a economia do século 21. No caso brasileiro, a combinação entre grandes reservas de terras raras e capacidade limitada de processamento coloca o país no centro de um debate sobre como transformar potencial geológico em desenvolvimento industrial.




Terras rarastrata-se é um conjunto de 17 elementos químicos, como neodímio, praseodímio e lantânio, que costumam aparecer misturados a outros minerais e exigem processos complexos para serem sua separação e purificação – depositphotos.com / robertohunger

Terras rarastrata-se é um conjunto de 17 elementos químicos, como neodímio, praseodímio e lantânio, que costumam aparecer misturados a outros minerais e exigem processos complexos para serem sua separação e purificação – depositphotos.com / robertohunger

Foto: Giro 10

O que são terras raras e por que despertam tanta atenção?

Apesar do nome, as terras raras não são exatamente escassas na crosta terrestre. Afinal, trata-se de um conjunto de 17 elementos químicos, como neodímio, praseodímio e lantânio, que costumam aparecer misturados a outros minerais e exigem processos complexos para serem sua separação e purificação. Assim, o termo “raras” liga-se mais à dificuldade de exploração econômica e ao processamento industrial do que à abundância natural.

Esses elementos apresentam propriedades magnéticas, luminosas e condutoras que os tornam insubstituíveis em vários equipamentos modernos. Nesse grupo, imãs de alta potência, ligas metálicas resistentes, telas de alta definição e catalisadores industriais dependem de combinações específicas de terras raras. Por isso, esses minerais passaram a receber classificação como estratégicos, conectando geologia, tecnologia e geopolítica.

Terras raras: para que servem e quais tecnologias dependem delas?

A palavra-chave “terras raras” costuma aparecer em associação a setores vitais para a economia digital e a transição verde. Em veículos elétricos, por exemplo, ímãs feitos com neodímio e disprósio aparecem em motores mais leves e eficientes. Por sua vez, em smartphones diferentes terras raras compõem alto-falantes, vibrações do aparelho, cores das telas e componentes internos responsáveis por desempenho e miniaturização.

Turbinas eólicas utilizam ímãs permanentes de alta potência, que dependem de terras raras para gerar energia com menor perda. Em baterias e sistemas de armazenamento, esses elementos ajudam a melhorar performance e durabilidade. Na área militar, há utilização em radares, miras de precisão, drones e sistemas de comunicação. Por fim, na indústria de semicondutores, parte da produção de chips e equipamentos de litografia exige compostos de terras raras para atingir o nível de precisão necessário.

  • Carros elétricos: motores compactos e eficientes
  • Smartphones e tablets: telas, alto-falantes, vibração e sensores
  • Turbinas eólicas: ímãs de alto desempenho para geração de energia
  • Baterias: ligas especiais para maior estabilidade
  • Defesa: radares, guiagem de mísseis, equipamentos de comunicação
  • Chips e eletrônica: componentes de alta precisão e processos industriais

Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras: qual é o desafio?

Estudos recentes indicam que o Brasil detém a segunda maior reserva mundial de terras raras, ficando atrás apenas da China. Depósitos relevantes estão mapeados em estados como Minas Gerais, Goiás, Bahia e Amazonas, muitas vezes associados a outros minerais, como nióbio, fosfatos e minério de ferro. Esse potencial coloca o país em posição estratégica em um mercado com demanda crescente.

Apesar disso, a cadeia produtiva nacional ainda é limitada. O país participa principalmente da etapa de prospecção e, em alguns casos, da mineração, mas possui pouca capacidade instalada para refino químico e produção de compostos de alto valor agregado. A separação dos diferentes elementos, o domínio de tecnologias limpas de processamento e a fabricação de ímãs, ligas especiais e materiais avançados ainda dependem, em grande parte, de conhecimento e equipamentos importados.

Especialistas apontam três grandes obstáculos para que o Brasil avance na área:

  1. Tecnologia de processamento: necessidade de dominar rotas de separação complexas e menos poluentes;
  2. Indústria de transformação: falta de fábricas de ímãs, ligas e componentes que usem terras raras no território nacional;
  3. Financiamento e regulação: alto risco inicial, necessidade de regras claras e estabilidade para atrair investimentos de longo prazo.

Como a China domina o mercado global de terras raras?

No cenário internacional, a China ocupa posição central. Além de liderar as reservas e a produção mineral, o país responde por grande parte da capacidade global de processamento e refino das terras raras. Ao longo das últimas décadas, Pequim combinou incentivos estatais, controle rígido da produção e investimentos em pesquisa para consolidar uma indústria integrada, que vai da mina ao produto final.

Hoje, muitos países extraem minério bruto, mas enviam o material para processamento em território chinês. Isso gera uma dependência estrutural que preocupa governos dos Estados Unidos, União Europeia, Japão e outros centros industriais. Em momentos de tensão diplomática, Pequim já sinalizou restrições a exportações, reforçando a percepção de que as terras raras também são instrumentos de política externa.

Essa concentração de capacidade industrial leva outras nações a buscar alternativas, seja desenvolvendo projetos domésticos, seja firmando parcerias com países que têm reservas, como o Brasil. O debate sobre o novo marco regulatório brasileiro ocorre nesse contexto, em que cadeias de suprimento mais diversificadas são vistas como forma de reduzir vulnerabilidades.

Quais são os impactos ambientais e sociais da mineração de terras raras?

A mineração de terras raras levanta preocupações ambientais e sociais que influenciam diretamente o debate sobre licenciamento e soberania. Os processos tradicionais de extração e refino podem gerar grandes volumes de rejeitos, alguns com elementos radioativos e substâncias químicas usadas na separação dos minerais. Se não forem devidamente controlados, esses resíduos podem contaminar solo e água, afetando comunidades próximas e ecossistemas frágeis.

No Brasil, há discussões sobre como conciliar a exploração de reservas com a proteção de biomas como Amazônia e Cerrado, além de territórios indígenas e áreas de comunidades tradicionais. Organizações ambientais e especialistas em direito mineral defendem regras claras para o licenciamento ambiental, transparência sobre riscos e participação social nas decisões. O tema da soberania nacional também aparece, com questionamentos sobre o grau de controle do Estado em relação à presença de empresas estrangeiras em áreas sensíveis.

Entre os pontos frequentemente destacados nos debates estão:

  • Definição de zonas onde a mineração de terras raras pode ou não ocorrer;
  • Exigência de tecnologias de menor impacto para extração e processamento;
  • Planos de fechamento de minas e recuperação de áreas degradadas;
  • Garantias de compensações econômicas e sociais às populações afetadas;
  • Transparência em contratos e parcerias internacionais envolvendo minerais estratégicos.


Em smartphones diferentes terras raras compõem alto-falantes, vibrações do aparelho, cores das telas e componentes internos responsáveis por desempenho e miniaturização – depositphotos.com / ifeelstock

Em smartphones diferentes terras raras compõem alto-falantes, vibrações do aparelho, cores das telas e componentes internos responsáveis por desempenho e miniaturização – depositphotos.com / ifeelstock

Foto: Giro 10

Que caminhos se desenham para o Brasil no mercado de terras raras?

Com a aprovação do projeto de lei na Câmara, o Brasil sinaliza interesse em ocupar espaço mais relevante na cadeia global de minerais críticos. A transformação desse potencial em realidade, porém, depende de uma combinação de fatores: desenvolvimento tecnológico, formação de mão de obra especializada, atração de investimentos e definição de um modelo regulatório que integre competitividade econômica, proteção ambiental e defesa do interesse público.

Nos próximos anos, a forma como o país vai estruturar a governança sobre as terras raras tende a influenciar políticas industriais, relações internacionais e estratégias de desenvolvimento regional. Em um mundo em que baterias, turbinas, carros elétricos e dispositivos digitais se multiplicam, a forma de explorar esses minerais pode se tornar tão relevante quanto as reservas em si.