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Hantavírus vs. covid-19: as diferenças da ameaça silenciosa que instalou o pânico num cruzeiro

Fonte: cnnportugal.iol.pt | Data: 08/05/2026 14:21:14

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Surto mortal num cruzeiro reavivou os fantasmas de 2020. Só que, apesar de partilhar sintomas iniciais com o coronavírus, o hantavírus é um inimigo muito diferente

Partilham sintomas iniciais perigosamente semelhantes e a origem é a mesma – são vírus zoonóticos, que se transmitem de animais para humanos -, mas as parecenças ficam por aí. Um é consideravelmente mais letal e raro, escondendo-se de forma silenciosa num período de incubação que pode durar meses, normalmente até seis semanas.

A principal fronteira entre ambos sempre foi a forma de transmissão. Enquanto um domina o contágio aéreo maciço à escala global, o outro depende tradicionalmente do contacto com roedores. No entanto, até essa linha vermelha começa a esbater-se, com uma nova estirpe, a andina, a propagar-se a bordo do MV Hondius a provar que o contágio entre humanos também é uma realidade. Saiba o que realmente separa estes o hantavírus da covid-19. 

“Isto não é coronavírus. Quero ser muito clara: isto não é SARS-CoV-2 e não é o início de uma pandemia de covid”, garantiu Maria van Kerkhove, diretora de preparação para epidemias da Organização Mundial de Saúde (OMS), durante uma conferência de imprensa no dia 7 de maio. 

A primeira grande diferença entre o hantavírus e a covid-19 é o tempo de ataque. Enquanto o coronavírus é rápido, manifestando sintomas num curto espaço de dois a 14 dias, o hantavírus atua de forma diferente e mais alargada. Este vírus pode incubar silenciosamente no organismo até dois meses após a exposição inicial. Os sintomas até são parecidos com a febre, fadiga, tossa e dores musculares entre os mais comuns.

Essa demora na manifestação de sintomas é um dos problemas para as autoridades de saúde neste momento, já que as primeiras duas de três mortes já confirmadas foram registadas bem depois do MV Hondius sair de Ushuaia, na Argentina.

O que difere os dois vírus é a evolução da doença e a agressividade que uma pessoa infetada pelo hantavírus pode sofrer. Enquanto a covid-19 se denuncia muitas vezes pela perda de olfato ou paladar, o hantavírus provoca sintomas gastrointestinais violentos, como dores abdominais severas, náuseas e vómitos, antes de culminar num colapso respiratório fulminante onde os pulmões se inundam rapidamente de líquido, dificultando a respiração de forma progressiva.

É mais ou menos contagiante?

O hantavírus é significativamente menos contagiante do que a covid-19.  No entanto, a própria diretora-geral de Saúde, Rita Sá Machado, sublinhou na CNN Portugal que para a OMS e para o Centro Europeu de Doenças “o risco é muito baixo”. O coronavírus SARS-CoV-2 tornou-se uma pandemia porque se espalha com extrema facilidade pelo ar, através de tosse, espirros ou simples conversas. Já o hantavírus não domina o contágio aéreo interpessoal. O ser humano contrai a doença, quase em exclusivo, inalando poeiras de fezes ou urina de roedores infetados num espaço fechado.

E ainda que este caso seja diferente, já que se trata de uma estirpe que propaga o vírus entre humanos, as autoridades de saúde garantem que não há razões para uma preocupação generalizada.

Tem menos potencial pandémico?

Sim, o seu potencial pandémico é drasticamente inferior. O recente surto mortal no cruzeiro neerlandês MV Hondius gerou pânico por envolver a estirpe Andes, a única variante do hantavírus capaz de passar de humano para humano. Porém, a Organização Mundial da Saúde (OMS) apressou-se a travar comparações com 2020, até porque mesmo esta estirpe exige um contacto íntimo e prolongado para contagiar outra pessoa, o que dificulta o contágio fulminante necessário para parar o mundo.

Só para que se perceba, a bordo do navio iam cerca de 150 pessoas, sendo que só há cinco casos confirmados e três suspeitos até ao momento nos contactos diretos entre passageiros e tripulação.

É mais controlável do que a covid-19? Porquê?

Sim, do ponto de vista da saúde pública, é um inimigo muito mais controlável. Como a esmagadora maioria dos contágios não ocorre entre humanos, a prevenção é tátil e ambiental. Combater infestações de ratos e usar equipamento de proteção como máscaras respiratórias ao limpar sótãos, celeiros ou cabanas é importante. E mesmo nos raros casos da variante Andes, isolar os contactos próximos é altamente eficaz, dispensando a necessidade de confinamentos em massa.

Em todo o caso, e como vai fazer Espanha com os 14 cidadãos que vão ser internados em Madrid assim que forem transferidos de Tenerife, a quarentena pode chegar às seis semanas.

Em contrapartida, os sintomas do hantavírus são considerados significativamente mais perigosos. Enquanto a covid-19 apresenta uma letalidade estatisticamente baixa na população em geral, o hantavírus é brutal. O doente pode entrar no hospital a queixar-se de dores abdominais e febre, mas a doença evolui rapidamente para um edema pulmonar fulminante. A taxa de mortalidade chega a atingir os 40% a 50%.

Existem vacinas ou medicamentos?

É aqui que reside a grande desvantagem do hantavírus. Ao contrário da covid-19, que obrigou a ciência a desenvolver vacinas e antivirais direcionados em tempo recorde, o hantavírus não tem vacina nem cura farmacológica aprovada para a sua síndrome pulmonar. O único tratamento disponível é o suporte de vida intensivo, dependendo de oxigénio, ventiladores e sistemas de respiração extracorporal (ECMO) para manter o doente vivo enquanto o próprio corpo tenta combater a infeção.