Yuri Mesquita anuncia óperas, festivais e novos projetos para a Fundação Clóvis Salgado
Fonte: otempo.com.br | Data: 08/05/2026 19:04:10
Há um mês, Yuri Mesquita foi anunciado como o novo presidente da Fundação Clóvis Salgado (FCS), uma das instituições culturais mais importantes do estado e responsável por administrar o Palácio das Artes, o Cine Humberto Mauro, a Serraria Souza Pinto, o Circuito Liberdade, entre outros equipamentos. Em entrevista ao Magazine, no canal de O TEMPO no YouTube, o mestre e doutor em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) afirma que a prioridade de sua gestão será ampliar o alcance cultural da instituição para além de Belo Horizonte, fortalecer os corpos artísticos e consolidar projetos de formação, entre outros temas. Confira os principais trechos da entrevista.
Yuri ainda destacou a realização de festivais, óperas e concertos no Palácio das Artes, além da expansão de cursos online e intercâmbios com cidades do interior de Minas. Em entrevista ao Magazine, no canal de O TEMPO no YouTube, o gestor também adiantou que os projetos de revitalização do complexo do Palácio das Artes e do Cine CâmeraSete já estão aprovados e aguardam definição de financiamento e cronograma. Defensor de uma gestão pautada pelo diálogo e pelas parcerias, o novo presidente reforçou a intenção de aproximar a Fundação de outras instituições culturais, universidades e espaços públicos, ampliando a presença da FCS em todo o estado. Confira os principais trechos da entrevista:
Estamos em um ano eleitoral, o que pode criar um cenário de incertezas quanto à continuidade. Teoricamente, a gestão termina no final do ano com o governo atual. O que pode ser feito concretamente nesse curto prazo?
O governador Matheus Simões (PSD) e o secretário Leônidas Oliveira (titular da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais) me deixaram completamente tranquilo quanto a isso. Já passei por situações de transição diversas vezes em minha trajetória em repartições públicas. A grande vantagem é que a Fundação Clóvis Salgado é uma potência com programas muito bem estabelecidos. Ela forma cerca de 2.000 pessoas todos os anos por meio do Cefart, que inclusive completa 40 anos agora. O desafio é fazer com que esses programas funcionem cada vez melhor e com maior alcance.
Mas o que você pode adiantar de concreto? Algum “spoiler”?
Alguns eu vou guardar para um próximo momento, quando lançarmos novos programas, mas já temos uma programação intensa. No Cine Humberto Mauro, estamos com um festival de cinema mineiro muito importante, com mostras gratuitas que reforçam nossa função social. Teremos também duas óperas: As Bodas de Fígaro, que começa em maio, e uma ópera autoral sobre Chica da Silva em setembro, que terá uma pré-estreia em Diamantina. Queremos expandir a presença da Fundação para além de Belo Horizonte, atingindo Minas Gerais inteira. Também estamos dialogando com outros gestores culturais para compartilhar a expertise da fundação. Teremos concertos e espetáculos das nossas três companhias artísticas, que são a alma do Palácio das Artes.
Você mencionou a expansão dos corpos artísticos (Companhia de Dança, Coral Lírico e Orquestra Sinfônica). Existem projetos específicos planejados para cada uma ou as ações serão integradas para a celebração do aniversário?
Temos projetos específicos e integrados. Um dos grandes objetivos é mostrar que a fundação age de forma integrada. Além do que o público vê no palco, temos programas voltados para a infraestrutura e o cuidado laboral, como a melhoria das salas de ensaio. Recentemente, vi a Companhia de Dança se apresentar para escolas estaduais e projetos sociais. No final, eles abriram para conversar e foi emocionante ver o público infanto-juvenil trazendo a realidade da arte para suas vidas. A Orquestra fará um programa de músicas de cinema. O coro e a orquestra já estão ensaiando para as óperas com profissionais altamente gabaritados.
Falando sobre o Cefart, que completa 40 anos, qual a importância dele e quais os projetos para este ano?
O Cefart é um projeto que precisa ser cada vez mais conhecido. São 2.000 pessoas formadas anualmente; em qualquer escola de música ou dança do Brasil você encontra ex-alunos de lá. É uma escola pública e gratuita de altíssima qualidade. Dentro do programa “Minas Essencial”, do Governo de Minas, elencamos a “Escola de Todas as Artes”, um calendário comemorativo que mostrará a potência do Cefart. Faremos mais “palcos abertos” com os alunos e queremos expandir parcerias com o Parque Municipal, levando apresentações para os espaços da cidade. Também vamos ampliar a oferta de cursos de extensão online para que pessoas de todo o estado possam acessar.
Aproveitando o gancho de levar a Fundação para fora do Palácio, como essas ações chegam aos pontos mais distantes de Minas Gerais?
A Fundação tem uma expertise que poucas instituições têm. O secretário Leônidas pediu que contribuíssemos com essa experiência para outras prefeituras e espaços culturais. Já estivemos em Uberaba e Barbacena intensificando intercâmbios. Em breve, teremos novidades com um grupo de teatro de Barbacena: eles virão se apresentar aqui e nós iremos até lá. Além disso, a expansão do Cefart via cursos remotos ajudará na capacitação de pessoas para acessarem editais de fomento. A Fundação Clóvis Salgado está muito além do Palácio das Artes.
Sobre o Circuito Liberdade, que acabou de ganhar a Rodoviária como novo equipamento, o que há de novidade e o que um equipamento precisa para se integrar ao Circuito?
O Circuito Liberdade está se expandindo e já passamos de 60 parceiros. A Rodoviária é um ponto estratégico; é o portal de entrada da cidade. Quem chega ali já pode ter contato imediato com atividades culturais, como o Cine Cardume, e acessar a programação de todos os outros equipamentos por meio do nosso portal. O Circuito hoje abarca toda a região dentro da Avenida do Contorno. Para integrar, o equipamento precisa ter a cultura como missão ou vocação. Em breve, se tudo der certo, a PUC também integrará o circuito, mostrando sua potência cultural. Existe uma rede colaborativa muito bonita entre os gestores desses espaços.
Como historiador e especialista em patrimônio, como você enxerga a conservação do Palácio das Artes? Existe algum projeto de reforma ou reestruturação física previsto?
O Palácio das Artes e o CâmeraSete – Casa da Fotografia de Minas Gerais são patrimônios tombados. Além da arquitetura, temos acervos de fotografias, cartazes históricos e partituras de valor inestimável. Sobre as reformas: o projeto para o complexo do Palácio das Artes está pronto. Foi elaborado pela arquiteta Jô Vasconcelos e foca em humanizar o espaço, ampliar áreas de convivência e integrar melhor o Cefart com as companhias. O projeto executivo está aprovado pelos órgãos de patrimônio (IEPHA e diretoria municipal). Também estamos trabalhando no projeto de restauro do CâmeraSete, que demanda um levantamento complexo de acessibilidade e arquitetura.
Daria tempo de começar essas intervenções ainda este ano?
Sim, os projetos estão aprovados. No entanto, o trâmite envolve o financiamento e o planejamento para não interromper o funcionamento do teatro e das companhias. Estamos em negociação sobre os recursos e esperamos anunciar cronogramas em breve. Não será nada intempestivo; haverá diálogo com os corpos artísticos e a sociedade. Queremos garantir que as próximas gerações recebam esse patrimônio ainda mais forte.
A Fundação pretende ampliar o diálogo com outras instituições e espaços privados da cidade?
Essa já é a nossa realidade. O secretário Leônidas pediu que ampliássemos essas parcerias. Um exemplo é o Museu de Ciências Naturais da PUC, que recebe muitas crianças. Queremos contar a história daquela exposição que ocorreu no Palácio das Artes anos atrás e originou o museu, integrando programações de férias com música e dança. Temos parcerias naturais com a UFMG, com órgãos do estado como Ipsemg, Ministério Público e Tribunal de Justiça, além de instituições privadas e agências de fomento como o Instituto Moreira Salles, entre outras.
Você tem alguma relação ou história pessoal que te marcou com a Fundação, seja no Palácio das Artes ou em algum desses equipamentos, algo de quando era criança, por exemplo?
Tenho várias! Algumas eu não posso nem contar (risos). Mas, falando sério, eu nunca vou me esquecer de quando vi “A Flauta Mágica”. Antes disso, lembro que minha mãe tocava piano e minha avó cantava. Certa vez, me levaram “arrastado” para assistir a um concerto da nossa orquestra. Eu fui obrigado, não queria ir de jeito nenhum — hoje que tenho filho, sei bem como é essa sensação de obrigar a criança. Mas, quando assisti, desde o primeiro acorde, foi um dos momentos mais impactantes da minha vida. A partir dali, passei a assistir a temporada inteira com a minha mãe. Depois fui assistir ao balé; eu não tinha contato nenhum com a dança, mas ver aqueles movimentos no palco foi maravilhoso. Passei muito tempo frequentando o Cefart, vendo os alunos tocando violão do lado de fora com instrumentos emprestados. Guardo muitos espetáculos com carinho e adiciono a eles as experiências que tive agora. Às vezes, apresentações que não são para o grande público te tocam de formas inimagináveis, como o espetáculo da Companhia de Dança que mencionei, que me lembrou de quando eu morava em uma cidade muito pequena no interior. O Palácio está no meu coração e, agora, mais do que nunca.
Qual marca ou legado você gostaria de deixar da sua gestão na Fundação Clóvis Salgado?
Essa é uma pergunta complexa porque envolve muita intensidade. Do ponto de vista pessoal, eu gostaria de deixar a marca de uma instituição com cada vez mais parcerias e diálogo — tanto com os corpos artísticos quanto com o corpo de funcionários. Temos uma equipe administrativa maravilhosa e as pessoas lá cuidam muito umas das outras. Brinco que até me dão comida toda hora, o que mostra esse carinho e cuidado no dia a dia. Quero potencializar as atividades da Fundação, mas também buscar um maior reconhecimento para o Cefart, para a Companhia de Dança, para o Coral e para a Orquestra, além de expandir a atuação desses espaços em Minas Gerais. Acredito na escuta e na parceria, tanto para quem está dentro quanto para quem vem de fora contribuir. Minha missão é não deixar a peteca cair, trabalhando sempre com empolgação e alegria. Trabalhar com gestão cultural e saber que fazemos cultura todos os dias é um privilégio enorme. Reforçar essa característica tão bonita da Fundação Clóvis Salgado é o meu grande objetivo.