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Mãe e filha vencem desafios e se formam juntas na faculdade de enfermagem

Fonte: www1.folha.uol.com.br | Data: 09/05/2026 23:16:44

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Uma dupla de alunas chama atenção não apenas pela sintonia, mas pela história que carrega. Há quatro anos, Ana Maria da Silva, 50, e a filha Fernanda Silva, 23, atravessam juntas os corredores do curso de graduação em enfermagem. Agora, a poucas semanas da formatura, elas se preparam para vestir a beca e receber o diploma lado a lado.

Mas, para que a convivência funcionasse dentro da faculdade, foi preciso estabelecer um combinado logo no início. De acordo com Ana, do portão para dentro, a relação familiar ficava em segundo plano para ser estritamente como colegas de turma. Já do lado de fora, a dinâmica de mãe e filha retornava normalmente, dividindo estudos e conselhos.

A adaptação não foi simples, especialmente para a matriarca. Após anos distante dos estudos, ela se viu em uma sala lotada e chegou a duvidar da própria capacidade.

“A primeira vez que entrei na sala de aula aqui na faculdade, eu pensei: ‘Isso não é para mim, eu não vou conseguir dar conta'”, relembra Ana. O medo inicial, porém, deu lugar a uma parceria construída na base da paciência, da admiração e da troca constante.

Enquanto Fernanda ajudava a mãe a estudar os termos teóricos, associando o conteúdo a exemplos do dia a dia, Ana retribuía com sua bagagem profissional.

A mãe já atuava na área da saúde como técnica de enfermagem havia cerca de 15 anos e dominava a prática. Nos laboratórios e estágios, era Ana quem transmitia segurança à filha.

A trajetória de Ana Maria até o curso na Unicid (Universidade Cidade de São Paulo), na zona leste da capital paulista, começou muito antes da sala de aula. Natural do interior de Pernambuco, ela conta que precisou interromper os estudos ainda na antiga quarta série devido à necessidade do pai, um agricultor que precisava da ajuda dos filhos no trabalho para sustentar a família.

O sonho de estudar ficou pausado até que, em 1993, ela se mudou para São Paulo em busca de novas oportunidades. Na capital paulista, trabalhou como empregada doméstica e auxiliar de limpeza.

Eu quero estar lá junto dela, não apenas aplaudindo, nem sendo aplaudida por ela. Quero que estejamos juntas, comemorando isso

Foi justamente durante um desses empregos, em um colégio, que ouviu um conselho. A diretora percebeu seu potencial e sugeriu que ela voltasse a estudar.

Ana não pensou duas vezes sobre o que queria: cuidar de pessoas. Foi ali que a enfermagem começou a ganhar forma como projeto de vida.

O caminho, no entanto, esteve longe de ser fácil. Com o nascimento de Fernanda, Ana precisava equilibrar a maternidade, o trabalho e os estudos em um curso técnico de enfermagem, com apenas um salário mínimo.

Sem condições de pagar alguém para cuidar da filha, encontrou suporte em sua rede de apoio familiar. Uma tia paterna ficava com Fernanda durante a semana, um gesto fundamental para que a mãe conseguisse concluir o curso técnico.

O foco principal de Ana passou a ser garantir à menina um futuro com mais possibilidades do que o dela. Fez o possível para manter Fernanda em uma escola particular e seguir a carreira, começando por cuidadora até passar em concurso público em hospitais de referência.

Fernanda passou anos resistindo em seguir a profissão da mãe. O desgaste físico visível na rotina de Ana motivava a busca por outras áreas, como gastronomia ou arquitetura.

No entanto, a força da determinação materna acabou sendo o fator decisivo para a escolha da jovem. Fernanda percebeu que a mãe havia construído uma trajetória admirável.

“O que eu sabia, e do que tinha muito orgulho da minha mãe, é que, além de ela ter feito tudo o que fez, vindo de onde veio —um local muito humilde, com pessoas que não tiveram oportunidade nem de fazer um curso de auxiliar, ela conseguiu passar em um concurso público. Então, isso para mim era um motivo de inspiração e admiração”, afirma a jovem.

Em 2022, as duas ingressaram juntas na faculdade. A experiência universitária aproximou ainda mais as duas.

Minha mãe é uma profissional incrível e minha inspiração de vida

Fernanda conta que passou a compreender na prática as limitações educacionais enfrentadas por Ana no passado. Com isso, a relação ganhou mais empatia, paciência e cumplicidade.

Na reta final do curso, a parceria foi colocada à prova mais uma vez. Ana sofreu um acidente de trabalho durante o período de estágio e temeu não conseguir se formar ao lado da filha.

“O meu objetivo é concluir minha graduação, mas o meu orgulho é estar com a minha filha. Se eu não levantar o canudo com ela, para mim não vai ser tão significativo. Porque eu quero estar lá junto dela, não apenas aplaudindo, nem sendo aplaudida por ela. Quero que estejamos juntas, comemorando isso”, afirma.

Ao observar a trajetória da mãe, Fernanda afirma que gostaria que ela tivesse a real consciência da própria força e do que representa como mulher e profissional.

“Eu queria que ela continuasse acreditando na pessoa que ela é, porque ela não consegue ter dimensão do que representa, da força que tem, da mulher que é, de tudo que passou e de tudo que é capaz. Minha mãe é uma profissional incrível e minha inspiração de vida”, conclui Fernanda.