Passageiros de cruzeiro com surto de hantavírus temem estigma ao desembarcar
Fonte: estadao.com.br | Data: 10/05/2026 11:39:48
Passageiros de cruzeiro com surto de hantavírus desembarcam nas Ilhas Canárias
Mais de 100 pessoas serão retiradas do navio em operação acompanhada pela OMS.
MADRID — Nos dias que se seguiram ao surto de hantavírus em um navio de cruzeiro no Oceano Atlântico, a preocupação tomou conta de ao menos parte dos passageiros espanhóis — mas não tanto pelo medo de contrair a doença. Em vez disso, temem a forma como serão recebidos ao desembarcar.
Eles dizem ter visto reportagens sensacionalistas e memes irresponsáveis que estigmatizam os passageiros a bordo do MV Hondius, relataram dois passageiros à Associated Press por telefone, a partir do navio, na sexta-feira.
“Você entra nas redes sociais — eles querem dinamitar o navio. Querem afundar o navio”, disse um homem espanhol.

Um passageiro do navio afetado pelo hantavírus lê as notícias em seu celular durante a viagem para o porto espanhol de Tenerife, em 6 de maio de 2026
Foto: AP Photo
Ele diz que teme ser estigmatizado como um vetor do vírus a ser evitado — ou pior. Ele falou sob condição de anonimato devido a essas preocupações, e outra mulher espanhola insistiu em permanecer anônima pelo mesmo motivo.
“Você vê o que está acontecendo lá fora e percebe que está entrando no olho do furacão”, disse ela. “Muitas pessoas esquecem que aqui dentro há mais de 140 passageiros. Na verdade, são 140 seres humanos.”
Memória da Covid
Um navio de cruzeiro com um surto de infecção trouxe à tona uma sensação de déjà vu da Covid-19 — mas, segundo a Organização Mundial da Saúde, essa comparação é inadequada. Há dias, autoridades da OMS vêm tentando dissipar as comparações entre o coronavírus e o hantavírus, enfatizando que este último representa um risco muito baixo para a população em geral.
“Este é um vírus muito diferente. Quero ser bem clara quanto a isso”, afirmou Maria Van Kerkhove, chefe da área de preparação para epidemias e pandemias da OMS, na quinta-feira. “Este não é o início de uma pandemia de Covid.”
O hantavírus geralmente é transmitido pela inalação de fezes contaminadas de roedores e não se transmite facilmente entre pessoas. Mas o vírus Andes detectado no surto ocorrido no navio de cruzeiro pode ser capaz de se transmitir entre pessoas em casos raros.
Ainda assim, há quem desconsidere os especialistas em saúde — assim como ocorreu durante a pandemia. A Iustitia Europa, um grupo espanhol que ganhou destaque ao questionar as restrições da era da Covid, pediu que o MV Hondius fosse impedido de chegar às costas espanholas.
“As Ilhas Canárias não podem se tornar o laboratório de saúde da Europa… Exigimos transparência, responsabilidade e proteção para os espanhóis, a fim de evitar a repetição dos erros do passado”, postou no X.
Reação fria de alguns políticos espanhóis
Outros assumiram uma postura defensiva. O presidente regional das Ilhas Canárias, Fernando Clavijo, disse ao jornal espanhol El País na sexta-feira que não ficaria tranquilo até que o navio deixasse a Espanha e todos os passageiros fossem encaminhados para seus respectivos destinos de quarentena. A líder regional de Madri, Isabel Díaz Ayuso, disse na quinta-feira que discordava da decisão de transferir os 14 passageiros espanhóis do navio para um hospital militar na capital espanhola, onde as autoridades afirmaram que eles terão que ficar em quarentena.
“Vimos notícias de que ninguém quer esse navio. Que é um navio de pessoas infectadas, um navio de multimilionários, cheio de ratos”, disse o espanhol. “A sociedade está, de certa forma, contaminada com muito barulho e muitas mentiras.”
Ele disse que se sentia um pouco mais tranquilo com a garantia das autoridades espanholas de que haveria escolta oficial na chegada a Tenerife, onde, na quinta-feira, os trabalhadores portuários protestaram, alegando falta de informações sobre as medidas de segurança a serem implementadas.
A vida cotidiana a bordo do navio
O homem espanhol que está no navio disse que ficou tranquilo em relação ao vírus graças a um grupo de especialistas que embarcou enquanto o navio ainda estava na costa de Cabo Verde e explicou que a transmissão entre pessoas é muito rara.
A rotina diária dos passageiros tem sido tranquila, acrescentou ele. Aqueles que se aventuram a sair de suas cabines para as áreas comuns ficam relaxando, lendo ou participando de palestras — sempre usando máscaras e respeitando o distanciamento social. Alguns participam de um grupo de exercícios às 7h30 da manhã em um dos conveses superiores.
Outros saem para tomar ar e tentam avistar pássaros; muitos esperavam voltar de alguns dos lugares mais remotos da Terra com fotos da vida selvagem, e não se ver no centro de um holofote global ofuscante.
Mesmo assim, ambos os passageiros espanhóis disseram que fariam outro cruzeiro no futuro.
“Para mim, pessoalmente, viajar é um meio de… viver o que me apaixona — que é observar a natureza e documentá-la”, disse ela. “É claro que eu faria outro cruzeiro.”