Do mega-aeroporto para a Fundação da Construção: uma transferência polémica
Fonte: cnnportugal.iol.pt | Data: 10/05/2026 11:43:20
Mineiro Aires defendeu sempre grande aeroporto em Alcochete. Agora, quer a obra entregue a grandes empresas portuguesas
O ex-bastonário dos Engenheiros, Carlos Mineiro Aires, é acusado de incompatibilidade pela Frente Cívica, por ter assumido o cargo de administrador-executivo da Fundação da Construção, depois de ter presidido à Comissão de Acompanhamento do estudo para o novo aeroporto de Lisboa. “Há aqui claramente um conflito de interesses. Se a comissão era independente, alguns dos comissários claramente não são”, declara João Paulo Batalha, vice-presidente da Frente Cívica, organização não governamental de luta contra a corrupção.
Para os críticos da solução de Alcochete, esta “é mais uma demonstração da falta de isenção” do grupo de professores universitários reunidos para propor ao Governo de António Costa a construção, de raiz, de um aeroporto, com capacidade para quatro pistas e mais de 100 milhões de passageiros, a 50 quilómetros de Lisboa. “Quem defende os interesses dos construtores que querem um mega-aeroporto, não pode ter sido imparcial quando teve a missão de acompanhar e fiscalizar o trabalho da Comissão Técnica Independente (CTI)”, declara Pedro Castro, consultor em aviação comercial. “Esses interesses são legítimos, mas não se pode é permitir que levem a um aeroporto megalómano”, considera Sérgio Palma Brito, analista sénior em Turismo e Transporte Aéreo.
Uma causa antiga
Carlos Mineiro Aires sempre defendeu o encerramento do aeroporto da Portela e a sua substituição por um mega-aeroporto no Campo de Tiro de Alcochete. Em 2022, foi nomeado por António Costa presidente da Comissão de Acompanhamento, com a missão de fiscalizar os trabalhos e de “garantir a independência” da CTI. Um ano antes, em 2021, continuava a defender que “avançar para o novo aeroporto no Campo de Tiro de Alcochete será uma excelente decisão”. Numa apresentação no Rotary
Club, disse e escreveu que “se for necessário, endividemo-nos, desta vez conscientemente.”
Na semana passada, veio a público defender a adjudicação da obra do aeroporto a empresas portuguesas, ou consórcios liderados por estas. “Se as empresas portuguesas tiverem a oportunidade de fazer um grande aeroporto, criam currículo para poder concorrer lá fora a outros aeroportos semelhantes. Não lhes sendo dada essa oportunidade, ficam pelo caminho”, alertou o administrador executivo da Fundação da Construção, numa entrevista ao Expresso.
Esta entidade, constituída em julho de 2024, reúne três ordens profissionais — Arquitetos, Economistas e Engenheiros — e 16 grandes empresas: A400, Alves Ribeiro, Betar, Casais, Câncio Martins, Coba, Conduril, Gabriel Couto, Edivisa, HCI, JLCM, Mota-Engil, NRV, Teixeira Duarte, Ventura + Partners e Visabeira. Nos termos do plano de atividades, o Conselho de Administração da Fundação “deliberou que apenas o administrador executivo terá direito a remuneração”.
Contactado, o visado rejeita qualquer conflito de interesses, não se mostrando disponível para outros comentários.