ONU expõe falha do Brasil em saneamento e alerta para poluição dos mares
Fonte: republicadaverdade.com.br | Data: 10/06/2026 00:17:42
Relatório da ONU aponta o Brasil como vulnerável à poluição marinha por déficit em saneamento básico. Mais de 4 mil espécies sofrem impacto dos resíduos plásticos que chegam aos oceanos.
A Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou, em 08/06, o terceiro volume da Avaliação Global do Oceano (WOA3), documento que compila evidências científicas sobre a saúde dos mares e suas implicações socioeconômicas. O material dedica atenção especial ao Brasil, destacando a relação entre falhas no saneamento básico e o avanço da poluição marinha, sobretudo por plásticos.
Segundo o relatório, mais de 4.000 espécies marinhas sofrem impactos diretos da contaminação por resíduos plásticos em todo o mundo. A situação brasileira é apontada como particularmente vulnerável devido a altos índices de descarte inadequado de lixo, esgoto sem tratamento e poluição costeira. O país possui mais de 8 mil quilômetros de litoral e depende do oceano para regulação climática, alimentação, geração de energia, transporte, turismo e manutenção da biodiversidade, o que amplia a relevância do problema.
“O oceano é o principal amortecedor da crise climática, mas os sinais de estresse estão se tornando cada vez mais evidentes, prejudicando sua atuação na regulação climática”, afirmou o professor Ronaldo Christofoletti, da Universidade Federal de São Paulo, um dos coautores do estudo.
A publicação aponta que a frequência de ondas de calor marinhas dobrou desde os anos 1980, enquanto a taxa média de elevação do nível do mar chegou a 4,3 milímetros por ano entre 2013 e 2023 — 50% maior do que o observado no período 1993-2018. Para o litoral brasileiro, esses indicadores significam maior risco de erosão, inundações, impactos sobre a pesca e eventos extremos associados ao Atlântico Tropical.
No capítulo dedicado ao país, o WOA3 enfatiza que o saneamento insuficiente favorece a entrada de microplásticos em rios, estuários e zonas costeiras. Adicionalmente, o crescimento urbano desordenado e a coleta deficitária de resíduos sólidos ampliam a quantidade de detritos que chegam ao mar. Manguezais, recifes de coral e pradarias marinhas sofrem pressões combinadas da poluição e do aquecimento das águas, o que ameaça espécies migratórias e comunidades pesqueiras artesanais das regiões Norte e Nordeste.
Além dos impactos ecológicos, o relatório chama atenção para os efeitos econômicos. A pesca e a aquicultura, atividades que sustentam milhares de famílias brasileiras, podem ter produtividade reduzida. O turismo em praias também tende a perder competitividade caso a qualidade ambiental continue a se deteriorar.
Os autores recomendam ampliar investimentos em infraestrutura de saneamento, incentivar a economia circular e reforçar a fiscalização sobre o descarte de resíduos. Também sugerem apoio a ecossistemas costeiros que armazenam carbono, como manguezais, marismas e pradarias marinhas, considerados aliados naturais contra mudanças climáticas, mas que ainda recebem financiamento aquém do necessário.
O documento lembra que o Brasil sediará, em abril de 2027, a 3ª Conferência Internacional da Década da Ciência Oceânica da ONU, no Rio de Janeiro. A cúpula é vista como oportunidade para o país apresentar avanços em políticas de proteção marinha e saneamento, bem como liderar iniciativas de “economia azul” baseadas na conservação e no uso sustentável dos recursos oceânicos.
Enquanto essa agenda não se concretiza, o WOA3 alerta que a atual trajetória de poluição e aquecimento contínuo pode aumentar custos econômicos e sociais, caso medidas de mitigação e adaptação não sejam adotadas de forma célere e coordenada.