Baixar Notícia
WhatsApp
Email

Adoecimento de brasileiras que usaram contraceptivo Essure é tema de exposição em Barcelona

Fonte: otempo.com.br | Data: 11/06/2026 06:13:10

🔗 Ler matéria original

Quase uma década após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) suspender o uso do Essure no Brasil, as marcas do adoecimento causado pelo contraceptivo permanente continuam a impactar a vida de milhares de mulheres. Sem respaldo das instituições médicas e jurídicas, as vítimas seguem em uma mobilização por reparação e tratamento. 

Essa trajetória de desamparo e resistência será o tema central da exposição “Corpo-performance e cicatrizes da biopolítica: o Caso Essure”, que acontece entre os dias 12 e 14 de junho, no espaço Fabra i Coats, durante a Jornada Feminista de Barcelona (Jornades Feministes 2026), na Espanha.

O projeto é fruto do trabalho da jornalista e pesquisadora mineira Miriam Kênia de Carvalho, com supervisão e curadoria da professora de Direito Ana Gabriela Braga, da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da UNESP. A mostra dá continuidade à investigação de cinco anos de Miriam, autora do livro O Útero Biopolítico: a resistência das vítimas do Essure, iniciado em seu doutorado na PUC-SP e que agora avança em estágio de pós-doutorado na Unesp.

A falsa promessa da laqueadura sem cortes

O Essure é um microimplante introduzido por via histeroscópica (através do colo do útero), o que permitia que o procedimento fosse realizado de forma ambulatorial, sem anestesia geral ou cortes externos. Disponível no Brasil entre 2009 e 2017, o dispositivo consiste em molas de titânio e níquel inseridas nas trompas uterinas. Ele foi apresentado a mulheres que aguardavam a cirurgia de laqueadura na fila do Sistema Único de Saúde (SUS) como uma alternativa moderna, segura e que dispensava incisões cirúrgicas.

A Anvisa determinou a suspensão definitiva da importação, distribuição, comercialização e uso do produto no país em fevereiro de 2017. “É importante esclarecer que esse dispositivo não foi incorporado pelo SUS. Alguns gestores de hospitais públicos colocaram isso no programa familiar como uma laqueadura, o que não é, porque a laqueadura é uma cirurgia específica”, explica Miriam Kênia de Carvalho. 

Diante da promessa de praticidade e da omissão de riscos, centenas de pacientes aceitaram o implante, dando início a processos de adoecimento sistêmico crônico. Entre os principais sintomas relatados pelas vítimas estão inflamações crônicas, hemorragias, doenças autoimunes, cefaleias, fadiga intensa, dores pélvicas severas, além de perda de dentes e cabelos.

O descrédito médico e a cirurgia de remoção

Um dos principais obstáculos enfrentados pelas pacientes foi o silenciamento de suas queixas dentro dos consultórios e hospitais. Relatos de dores e complicações físicas eram frequentemente invalidados pela comunidade médica. “Essas imagens [da exposição] trazem à tona a contaminação dos órgãos delas, mostram, escancaram esse problema que é escondido, que é minimizado, que é invalidado, porque muitas chegavam no hospital e recebiam encaminhamento para a psiquiatria. Os médicos falavam com elas que isso não tinha nenhuma ligação com o Essure”, relata a pesquisadora.

Para interromper o processo de contaminação e as dores crônicas, muitas mulheres precisaram se submeter a cirurgias invasivas para a retirada das molas. “Falaram ‘é uma laqueadura sem corte’, e as imagens mostram a barriga cortada, porque para remover o Essure, muitas vezes elas têm que fazer uma histerectomia total. Tirar todos os órgãos ginecológicos. É uma cirurgia bem agressiva, porque o níquel que é da mola do Essure sai contaminando tudo”, detalha Miriam.

Como consequência da perda da saúde reprodutiva e geral, muitas das vítimas perderam seus empregos, enfrentaram severas rupturas na dinâmica familiar e tiveram suas condições socioeconômicas precarizadas.

Fotografias como arquivo coletivo de denúncia

Diante da falta de escuta institucional, as vítimas organizaram-se coletivamente em redes de apoio mútuo e passaram a utilizar a fotografia como ferramenta de prova e resistência. Imagens de cicatrizes, lesões cutâneas, registros de internações e de órgãos retirados formaram um arquivo documental que contesta a narrativa comercial do produto.

Conforme Miriam, a exposição em Barcelona tensiona justamente dois lados visuais: de um lado, as campanhas publicitárias e discursos médicos que promoviam a modernização contracepção; de outro, os “corpos-testemunho” que revelam as marcas deixadas pela violência institucional e o impacto da intervenção biomédica na autonomia feminina.

Para a pesquisadora, o caso é emblemático por reunir recortes de gênero, classe social, nível de instrução e dinâmicas de poder econômico na gestão da reprodução. “Essa estratégia de invalidar o que a mulher sente ou o direito de lidar com o corpo, é um discurso recorrente do controle dos corpos femininos. Acho que essa é uma questão que a saúde pública deveria olhar bastante”, defende.

Internacionalização e combate ao esquecimento

Mesmo com a proibição da comercialização decretada, a pesquisadora aponta que o desamparo permanece. “Vale lembrar que essas mulheres continuam abandonadas. Elas continuam lutando sozinhas para conseguir o tratamento adequado dos seus corpos, para conseguir recursos jurídicos que elas também não têm”, ressalta Miriam.

A expectativa de Miriam é que a inserção do Caso Essure em um fórum internacional voltado ao debate feminista amplie a rede de apoio a essas mulheres e traga fôlego institucional à causa. “A gente precisa tirar essa história do esquecimento. Porque a gente percebe que ela tem alguns picos, mas depois isso some. Internacionalizar o tema é inclusive tentar buscar essa conexão com outros grupos novamente e reativar essa história para que isso não seja esquecido, afinal tudo que é esquecido é repetido”, conclui.

Serviço

Exposição: Corpo-performance e cicatrizes da biopolítica: o Caso Essure

Autoras: Miriam Kênia de Carvalho e Ana Gabriela Braga

Evento: Jornades Feministes 2026

Data: 12, 13 e 14 de junho de 2026

Local: Fabra i Coats, Barcelona (Espanha)