Diego Martins pondera sobre luta contra o preconceito: ‘A gente só quer fazer o que todo mundo faz’
Fonte: gshow.globo.com | Data: 19/06/2026 06:23:52
O ator e cantor, que está no ar da novela Coração Acelerado e acabou de lançar o single “Tatuagem”, com Pocah e MC GW, fala sobre uma trajetória que começou como sonho distante na infância e hoje ocupa espaço na TV, na música e no cinema. Ao olhar para trás, ele reconhece que viveu uma realidade diferente da de muitos jovens da comunidade LGBTQIAPN+.
Diego Martins no palco — Foto: Agnews/Webert Belicio
“Eu sou super exceção à regra. Não passei pelo momento de ter que me assumir, foi tudo muito natural em casa. Sempre tive os diálogos muito abertos com meus pais. A única coisa com que eles se preocupavam era que minha irmã e eu fôssemos pessoas boas, honestas e trabalhadoras. De resto, o que a gente faz com a nossa sexualidade nunca foi uma preocupação. Adoraria que eles servissem de inspiração para outras famílias!”, disse.

Diego Martins relembra incentivo da família para investir na carreira artística
A naturalidade, porém, existia só dentro de casa. Da porta para fora, a experiência era outra. Diego relembra um caso de homofobia que sofreu, na adolescência, no condomínio onde morava. Uma vizinha viu quando ele deu um “selinho” em seu “primeiro namoradinho” e recebeu uma carta dizendo que ele estava cometendo “atos libidinosos no prédio”. A família de Diego chegou a levar o caso à justiça, mas perdeu o processo:
“Estamos falando de 2012, acho que hoje seria diferente, até com a repercussão que tenho e com as redes também, tudo isso muda um pouco”.
O poder da televisão e da internet
Diego Martins como Esteban Serran em ‘Coração Acelerado’ — Foto: Globo/Manoela Mello
E, falando em redes sociais, Diego ainda recebe muitas mensagens de carinho e admiração pelo seu primeiro papel na TV. Depois de brilhar como Kelvin em Terra e Paixão, na qual fez par romântico com Ramiro (Amaury Lorenzo), o artista sentiu na pele o impacto de sua presença nas telinhas:
“[Os personagens] tiveram uma torcida muito grande do Brasil. E, para além da representatividade, a gente recebia muita mensagem de pais e mães falando que, a partir do meu personagem, começaram a entender o filho, que puderam aceitar, pedir desculpas, entender o que é amor. Recebia muitas mensagens de pessoas LGBTs, de maneira geral, falando: ‘Obrigado, estou me sentindo representado’, mas as que mais achava especiais eram pais, avós e mães. Isso é mágico, esse também é o poder da TV!”

Diego Martins fala de representatividade na TV: ‘Recebi mensagens especiais’
E engana-se quem pensa que Diego Martins encara essa responsabilidade como um peso. Longe disso! Ele entende a importância de falar sobre e lutar por espaços, principalmente por ter crescido com uma família com quem nunca teve conflitos a respeito de sua sexualidade:
“Acho que tem muitos lugares com uma visão muito romântica de ser gay, porque vivi isso, não na rua, mas em casa. Então, muitas vezes, quando trago esse viés romântico, acabo não representando pessoas que falam: ‘Mas é importante expor a violência que a gente vive, a homofobia’. E, quando ouço esses comentários, faz todo sentido”.
‘É chato nos reduzir somente a isso’
Ao mesmo tempo em que sabe que é preciso denunciar e falar sobre, Diego não quer estar em uma constante batalha contra o preconceito. Ele só quer viver sua vida como outra pessoa qualquer:
“É chato só ficar lutando, às vezes a gente só quer namorar, casar, beijar, transar, ouvir música, viver, sair, viajar, ganhar dinheiro, fazer coisas que todo mundo faz, independentemente de sexualidade”.

Diego Martins comenta importância da arte no combate à homofobia
O mesmo vale para as histórias que assistimos nas séries e filmes: narrativas que, em sua maioria, partem de uma dor ou sofrimento de pessoas LGBTs. Na opinião de Diego, já existem muitas tramas em que questões de gênero não são o foco ou de personagens gays que existem para além de histórias sobre sexualidade, mas ainda há muito trabalho a ser feito:
“Acho que o cinema brasileiro tem dois filmes muito interessantes que vão um pouco por esse caminho, que são romances. O ‘Quinze Dias’ é um filme adolescente sobre a paixão de dois meninos, e isso fica em um lugar gostoso de assistir. E tem o que acabei de estrear, ‘Trago Seu Amor’, um romance entre duas meninas que são bruxas. É um mundo mágico e a pauta LGBT fica como pano de fundo. Em nenhum momento o conflito delas é: ‘Estou apaixonada por uma mulher, não me aceito’”.
Da infância de sonhos aos planos de carreira
Diego Martins — Foto: Reprodução/Instagram
Nascido em Campinas, no interior de São Paulo, e criado em Maceió, capital de Alagoas, a versão criança de Diego já se deslumbrava com artistas na televisão… Mas tudo não passava do campo do sonho, um olimpo inalcançável.
“Para mim era tudo muito distante, a gente não tinha muitas condições. Não chegava a ser um objetivo [me tornar ator] quando era criança, era um sonho, porque via as coisas na TV, mas para mim era tudo muito inacessível”.

Diego Martins fala sobre conciliar carreira de ator e cantor
Mas, antes desse “querer” se concretizar em cursos, faculdade e projetos no teatro, foram-se anos transformando qualquer trabalho escolar em uma pecinha de teatro, assistindo às novelas e aos clipes de suas divas pop – apresentadas pelos pais, aliás!
“O teatro foi meu primeiro grande amor, com certeza. Só que cresci muito no meio da música também, meu pai sempre gostou de cantar e cresci como uma criança muito eclética”.
Hoje se tornou impossível escolher entre as duas formas de fazer arte: atuar e cantar caminham lado a lado. E como ele dá conta de tantos trabalhos ao mesmo tempo?
“Toda vez que ficava cansado, pensava: ‘Estou cansado por um motivo bom, estou gravando uma novela, fazendo o meu sonho, trabalhando, construindo música e conseguindo fazer tudo aquilo que planejei fazer. É muito cansativo, mas é muito gratificante quando você vê as coisas prontas”.