O novo papel do consumidor de energia e o fim da “surpresa” no fim do mês
Fonte: megawhat.uol.com.br | Data: 19/06/2026 15:28:50
Por: Alfredo Silva*
Durante muito tempo, a conta de luz teve um papel quase inevitável na rotina das famílias: ela simplesmente chegava no fim do mês. O consumidor observava o valor, torcia para que não tivesse subido demais e, se houvesse aumento, restava tentar entender o motivo, o que nem sempre era fácil. Hoje, esse modelo começa a mudar. Cada vez mais, o consumidor deixa de ser apenas um pagador de contas e assume um papel ativo na gestão da própria eletricidade.
Essa mudança está diretamente ligada à pressão crescente sobre o orçamento doméstico e a tendência é de intensificação. Projeções do sistema InforTarifa, da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), indicam que a conta deve subir, em média, 8% em 2026. O aumento supera a inflação prevista pelo IPCA (3,9%) e pelo IGP-M (3,1%) para o período, ampliando o peso da energia no orçamento das famílias brasileiras.
Dados da pesquisa “Futuro da Energia” reforçam esse cenário. Segundo o levantamento, 76% dos entrevistados sentem que a conta de luz pesa cada vez mais no bolso. O problema não é só o preço, mas a imprevisibilidade. O estudo revelou que 84% das pessoas foram pegas de surpresa pelo valor da fatura pelo menos uma vez no último ano. Quase a totalidade (96%) quer saber quanto vai pagar antes de o mês acabar.
Diferente de ir ao mercado ou abastecer o carro, onde o custo é imediato, o consumo de energia costumava ser invisível. Você usa agora, mas só descobre o valor 30 dias depois. Essa falta de previsibilidade é o que gera a sensação de surpresa e, em muitos casos, de falta de controle.
Mas a percepção do público já começa a mudar. O mesmo levantamento sobre hábitos de consumo com energia mostra que cerca de 53% das pessoas alteraram sua relação com os gastos elétricos nos últimos dois anos. As mudanças comportamentais têm sido muito mais comuns que os investimentos em tecnologia. Embora 62% tenham adotado atitudes mais conscientes (desligar aparelhos que não estão em uso, reduzir o tempo de funcionamento de equipamentos ou usar a eletricidade com mais atenção ao longo do dia), apenas 18% afirmam ter comprado equipamentos mais eficientes, enquanto 17% buscaram fontes alternativas de energia.
Isso mostra que, antes de investir, o consumidor quer compreender o que está pagando. É aqui que a tecnologia entra para traduzir dados em informação acessível. O uso de medidores inteligentes e aplicativos de gestão, inovação que já é acessível em valor e disponibilidade à maior parte da população, transforma o que era um mistério em um gráfico claro na palma da mão. O acompanhamento em tempo real substitui a lógica de descoberta tardia da fatura.
Essa transparência amplia completamente a relação com o setor energético. Identificar o impacto dos equipamentos transforma a economia em decisão baseada em informação, não em palpite. Ferramentas digitais permitem identificar picos de uso, oferecem dicas práticas que realmente impactam o saldo final e proporcionam uma experiência mais clara e interativa.
Estamos vivendo uma transição onde as empresas de energia deixam de ser meras cobradoras para se tornarem parceiras de gestão. A proposta é oferecer ferramentas que ajudem as pessoas a compreender melhor o uso da eletricidade, identificar oportunidades de economia e planejar os gastos com mais previsibilidade.
O protagonismo das pessoas na energia vai além de uma tendência tecnológica. Em um cenário em que a tarifa sobe acima da inflação e cada gasto pesa no orçamento, ter informação, visibilidade e controle sobre o consumo deixa de ser um luxo e torna-se essencial. E, com a tecnologia certa, a gestão da energia encontra-se onde sempre deveria ter estado: nas mãos do próprio consumidor.
* Alfredo Silva é sócio-fundador e CTO da LUZ. Formado em Economia pela Universidade Santa Úrsula-RJ e em Tecnologia da Informação pela PUC-RJ, possui MBAs em Finanças pelo Ibmec e em Gestão de Telecomunicações e Projetos pela Fundação Getúlio Vargas.
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