Recife: rumo à imobilidade urbana?
Fonte: jc.uol.com.br | Data: 20/06/2026 11:49:24
Os engarrafamentos no Recife só não paralisam de vez a capital pernambucana por um milagre da sua padroeira, Nossa Senhora do Carmo?
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Em 6/7/2025, reportagem do site G1 mencionava que, conforme dados da Autarquia de Trânsito e Transporte do Recife (CTTU), pedestres e motociclistas eram as grandes vítimas de acidentes nas vias urbanas da capital. Em 2024, estes grupos somaram 86% dos acidentados. O levantamento diz mais. Que a tendência é de alta.
Culpa (em boa medida) da Covid-19. Foi quem impulsionou os serviços de entrega, a partir da necessidade do distanciamento social, fazendo com que a demanda por profissionais desta natureza fosse ampliada, assim como que se expandissem os serviços de transporte por aplicativo por motos.
O quadro é grave: a experiência de mobilidade no Recife, em dias úteis e fins de semana, é um teste de bungee jumping para cardíaco recém-operado. Lógica kamikaze: para sair do ponto x e chegar ao ponto y, condutores e até pedestres se acham no direito de cometer transgressões. E quando se promove o recorte para quem pilota moto, a pressa supera a cautela no quesito regra de ouro. É revogado o conceito de rua de mão única e demais disposições em contrário.
O trânsito se desfigurou em uma disputa por território. É simples assim. Carros, motos, ônibus, carroceiros, ciclistas, agora patinetes motorizados, ambulâncias, viaturas policiais, todos sempre impacientes. Nenhum espírito de comunidade. O sujeito quer a vez, mas não cede a vez.
Por que a incômoda sensação de que o assunto não é prioridade do debate político? Por que a impressão de que os engarrafamentos no Recife só não paralisam de vez a cidade por milagre da sua padroeira, Nossa Senhora do Carmo?
O cidadão bem-informado intui a verdade. Sabe que a melhoria do transporte público é parte da metodologia para se resolver, ao mesmo tempo, três ordens de desafios: 1) a redução do tempo gasto pelas pessoas em sua locomoção de todos os dias; 2) a conseqüente melhoria da qualidade de vida do conjunto da população, em especial dos mais desfavorecidos; e 3) a constante expansão do uso do transporte privado individual.
O drama do trânsito não é reflexo das atitudes de um único segmento, senão a resultante de diversas culpas. Nessa matemática cruel, em que medida entram os motoqueiros, cujo número parece cada vez se multiplicar mais e descontroladamente?
O transporte de passageiros por moto cresce no País no mesmo ritmo que as mortes e feridos em acidentes com esse tipo de veículo. Se nas cidades, o serviço de transporte com motos por aplicativos é a alternativa para quem quer chegar mais depressa ao destino, gritam desdobramentos evidentes e nada positivos que afetam as questões da mobilidade e da saúde pública. Por trás da narrativa
de viagens baratas e livres de engarrafamentos, se avolumam os índices de acidentes, o número de mortes e as internações envolvendo motociclistas.
As motos se fazem presentes em mais de metade dos acidentes registrados no Brasil, além de responderem por mais de quatro em cada dez mortes no trânsito. Não se trata de Orson Wells denunciando a invasão dos ET’s, mas de fato incontroverso. A taxa de internação de motociclistas acidentados no Sistema Único de Saúde e rede conveniada somente em 2023 foi de 1,2 milhão de pessoas, dados do Ministério da Saúde; já os gastos com internações no SUS beiraram à casa dos bilhões de Reais.
Se os motociclistas não são – e se dê a César o que é de César no debate do tema – os causadores predominantes do problema, ressoa indubitável que eles vêm colaborando ativamente para ele. São fatores contributivos. Ingrediente notório a qualquer hora da manhã ou da tarde na terra do frevo é o enxame de motos a rasgar as ruas e avenidas como se estivessem em uma corrida desesperada pelo prêmio milionário. Uma selva.
Não há fórmula mágica, nem atalho salvador. Ou bem se reconhece a difícil realidade e se parte para combatê-la de forma criativa, ou bem se dê de ombros de que vai tudo parar em algum momento e aí não adianta se queixar ao Bispo. É descer do carro parado, sentar-se no meio-fio e chorar.
Gustavo Henrique de Brio Alves Freire, advogado