De vendedor de abadás a pivô do caso Master: a trajetória de Augusto Lima, homem que levou Jaques Wagner ao centro da investigação
Fonte: agendadopoder.com.br | Data: 21/06/2026 09:08:08
Empresário construiu império no crédito consignado após privatização da Ebal na Bahia e hoje aparece no centro das apurações da Polícia Federal sobre o Banco Master
21 de junho de 2026, 09:06
A ascensão empresarial de Augusto Lima, conhecido como Guga, começou a ganhar escala a partir de um negócio que transformou o mercado de crédito consignado na Bahia e, anos depois, o colocaria no centro de uma das maiores investigações financeiras do país. Ex-vendedor de abadás, ele construiu uma rede de influência que transitou entre governos petistas, lideranças do carlismo baiano e políticos ligados ao PL, tornando-se personagem-chave nas apurações envolvendo o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro.
A relação entre Lima e o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo Lula no Senado, passou a ser alvo da Polícia Federal após a nona fase da Operação Compliance Zero, deflagrada na semana passada. Segundo os investigadores, Wagner teria atuado em Brasília para beneficiar interesses empresariais ligados ao grupo formado por Augusto Lima e Daniel Vorcaro.
As investigações tramitam sob relatoria do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). Paralelamente, milhares de ações judiciais questionam o funcionamento do Credcesta, produto criado a partir dos ativos adquiridos por Lima na Bahia e que se tornou um dos pilares de sua expansão empresarial.
A compra que mudou tudo
A origem da trajetória empresarial de Augusto Lima remonta à privatização da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), estatal criada no fim da década de 1970 pelo então governador Antônio Carlos Magalhães com a missão de ampliar o acesso da população de baixa renda a produtos básicos.
Ao longo dos anos, a empresa acumulou prejuízos bilionários. Diante da deterioração financeira, o governo de Rui Costa decidiu colocá-la à venda.
As primeiras tentativas fracassaram. O negócio era considerado pouco atrativo devido ao passivo estimado em cerca de R$ 750 milhões. Em 2016, o valor mínimo exigido para a compra era de R$ 81 milhões.
Dois anos depois, Augusto Lima fechou a aquisição por R$ 15 milhões. Além do desconto expressivo em relação à proposta inicial, o acordo previa que o passivo permanecesse sob responsabilidade do governo estadual.
O nascimento do Credcesta
O principal ativo herdado por Lima não era a rede de supermercados Cesta do Povo, mas sim o Credcesta, cartão consignado voltado aos servidores públicos estaduais.
Pouco depois da privatização, um decreto publicado em abril de 2018 ampliou significativamente o alcance do produto. Até então restrito às compras realizadas nas lojas da Cesta do Povo, o cartão passou a funcionar em qualquer estabelecimento comercial na modalidade crédito.
O governo também elevou o limite de comprometimento da renda dos servidores. Além dos 30% já permitidos para operações consignadas, foi autorizado um percentual adicional de 10% por meio do Credcesta.
Na prática, Augusto Lima assumiu o controle de uma operação altamente rentável, baseada em crédito consignado, com exclusividade garantida por 15 anos.
Após consolidar o modelo na Bahia, Lima buscou parceiros para expandir o negócio para outros estados.
Segundo relatos publicados pela revista piauí, a ideia inicial era fechar acordo com o Banco BMG. Sem sucesso, ele acabou chegando ao recém-criado Banco Master, de Daniel Vorcaro.
A parceria foi formalizada em 2019 e se transformou em um dos pilares da expansão do banco no mercado de crédito consignado. Além de sócio, Augusto Lima assumiu a posição de CEO de varejo do Master e participou da estratégia de crescimento da instituição em diversos estados.
O Rio de Janeiro foi um dos principais mercados alcançados pela iniciativa. Em 2021, um decreto assinado pelo então governador Cláudio Castro ampliou a margem consignável dos servidores estaduais, em medida semelhante à adotada anteriormente na Bahia.
Prestígio político
À medida que seus negócios cresciam, Augusto Lima ampliava também sua influência política.
Na Bahia, tornou-se figura de trânsito livre entre grupos historicamente adversários. Em dezembro de 2024, recebeu a Comenda Dois de Julho, principal honraria da Assembleia Legislativa baiana, por iniciativa do deputado estadual Vitor Azevedo (PL).
No ano anterior, o lançamento da ONG Terra Firme, criada por Lima e sua esposa, a ex-ministra Flávia Arruda, reuniu representantes de diferentes correntes políticas. Participaram do evento o governador Jerônimo Rodrigues (PT), o prefeito de Salvador, Bruno Reis (União Brasil), e o ex-prefeito ACM Neto (União Brasil).
Dois dias antes da prisão de Augusto Lima, em novembro de 2025, Bruno Reis e ACM Neto utilizaram uma aeronave pertencente ao empresário para uma agenda no interior da Bahia.
O avanço das investigações
Com o aprofundamento das investigações sobre o Banco Master, a atuação política de Augusto Lima passou a ser analisada pela Polícia Federal.
Os investigadores apontam que Jaques Wagner teria atuado em diferentes pautas de interesse do banco, incluindo discussões relacionadas ao crédito consignado, ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e à tentativa de aquisição do Master pelo Banco de Brasília (BRB).
A PF também sustenta que duas associações controladas por Lima foram utilizadas em uma operação considerada fraudulenta envolvendo uma suposta carteira de crédito avaliada em R$ 12 bilhões negociada com o BRB. O episódio levou à prisão do empresário em novembro do ano passado.
Em mensagens reunidas pela investigação, a proximidade entre Augusto Lima e Jaques Wagner aparece de forma explícita. Em uma delas, o empresário escreveu ao senador: “Você mais do que ninguém sabe de minha história e faz parte disso!!”.
Defesa e desdobramentos
Após a operação da Polícia Federal, Jaques Wagner negou ter recebido recursos ou atuado em favor do Banco Master no Congresso Nacional.
Os investigadores apontam supostos benefícios recebidos pelo senador, entre eles ingressos para eventos, uso de aeronaves e um apartamento avaliado em R$ 2,45 milhões.
Wagner afirmou que pediu a Augusto Lima que adquirisse o imóvel, que seria destinado à sua filha, e que posteriormente realizaria a recompra da propriedade.
Já a defesa de Augusto Lima declarou que o empresário sempre atuou dentro da legalidade e negou qualquer irregularidade.
Enquanto as investigações avançam, o Credcesta continua no centro de milhares de disputas judiciais na Bahia. Embora o produto tenha sido interrompido após a crise que atingiu os negócios de Augusto Lima, contratos firmados anteriormente seguem gerando questionamentos e processos movidos por servidores que alegam descontos indevidos e cobranças irregulares.