Por que a gigante das carnes está investindo em colágeno para a pele
Fonte: veja.abril.com.br | Data: 28/08/2026 17:00:47

Historicamente destinados a aplicações de menor valor agregado, como couro e insumos industriais, os subprodutos do boi estão virando matéria-prima para a indústria de cosméticos. E a maior processadora de carne do mundo, a JBS, criou uma empresa, a Genu-in, só para investir na produção de colágeno e gelatina.
A pele bovina é o insumo do Genu-in Skin, um ingrediente desenvolvido com base no colágeno bovino por meio de uma tecnologia exclusiva e patenteada pela companhia. O produto promete contribuir para melhorar a elasticidade e firmeza da pele, promessa que foi respaldada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em março deste ano, quando o órgão autorizou a Genu-in a associar seu colágeno a esses benefícios, com base em estudos clínicos realizados desde a criação da empresa.
Na prática, a autorização da Anvisa permite que as empresas que compram o ingrediente da Genu-in possam indicar esses efeitos em seus rótulos e peças publicitárias, o que é considerada uma vantagem para as vendas em um mercado cada vez mais competitivo.
A empresa afirma que seu diferencial está na composição dos peptídeos. O Genu-in Skin, produzido desde 2022 em uma fábrica em Presidente Epitácio, no oeste paulista, passa por um processo conhecido como hidrólise direcionada, que quebra o colágeno em peptídeos de tamanhos específicos.
Segundo a Genu-in, esses peptídeos são identificados, caracterizados e quantificados, de modo que o ingrediente mantenha um perfil molecular consistente entre os lotes, diferentemente do que acontece com um colágeno hidrolisado convencional. Nesses casos, a composição de peptídeos pode variar mesmo quando a matéria-prima é a mesma.
Dermatologistas, porém, frequentemente mantêm algumas ressalvas em relação ao uso de colágeno por via oral, mesmo no caso de produtos aprovados. O motivo é que o colágeno ingerido não chega intacto ao organismo. Durante a digestão, a proteína é quebrada em fragmentos menores, os chamados peptídeos, e em aminoácidos, que são absorvidos e distribuídos pelo organismo conforme suas necessidades. Isso leva parte dos especialistas a questionar a ideia de que o consumo de colágeno possa produzir efeitos direcionados especificamente à pele ou aos cabelos.
A Genu-in argumenta que o tamanho reduzido dos peptídeos de colágeno da empresa permite que parte deles resista à digestão no trato gastrointestinal e seja detectada na circulação após a digestão. Diretora de Pesquisa, Saúde e Nutrição da empresa, Vivian Zague reforça que o produto não é considerado um “colágeno hidrolisado genérico”. “A Genu-in conseguiu mapear, identificar e padronizar quais peptídeos estão presentes no ingrediente”, diz ela.
Zague esclarece, no entanto, que os peptídeos vendidos pela empresa não devem ser consumidos como uma forma de reposição de colágeno. O que o ingrediente desenvolvido pela companhia faz, na verdade, é estimular as células responsáveis pela produção da proteína a fabricar mais colágeno. É esse mecanismo que estaria por trás dos benefícios observados, principalmente na firmeza, elasticidade e estrutura da pele.
O alvo da empresa, segundo a diretora de pesquisa, são homens e mulheres a partir dos 30 anos de idade que buscam prevenir o envelhecimento da pele, além de consumidores em busca de alimentos e suplementos com maior densidade nutricional, alto teor proteico e funcionalidade biológica. Um público ainda mais estratégico também está na mira da Genu-in: pessoas que estão usando os análogos de GLP-1, popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”.
Como a perda de peso pode alterar a composição corporal e deixar a pele mais flácida, a empresa enxerga nesses consumidores uma oportunidade para posicionar o colágeno como um complemento no tratamento dos efeitos colaterais desses medicamentos. Veja abaixo a entrevista na íntegra com Vivian Zague, diretora de Pesquisa, Saúde e Nutrição da Genu-in, empresa da JBS.
VEJA: Como e com quais mecanismos o Genu-in® Skin é produzido? De que forma ele atua no organismo até chegar à pele?
Zague: O Genu-in Skin é um ingrediente desenvolvido com base no colágeno bovino, utilizando uma tecnologia avançada, exclusiva e patenteada, para produzir peptídeos padronizados, chamada Peptide Profile Tailoring, que se apoia em três pilares principais. O primeiro é o controle desde a origem da matéria-prima. Isso significa, além da rastreabilidade, matéria-prima fresca e integridade da molécula do colágeno, o que garante a padronização entre os lotes. O segundo pilar é o know-how de hidrólise enzimática direcionada. Em termos mais simples, usamos enzimas específicas em condições controladas para quebrar a molécula do colágeno nativo de uma maneira muito direcionada para gerar fragmentos, chamados peptídeos, com perfis moleculares definidos. E o terceiro pilar é a caracterização completa desses peptídeos, usando ferramentas avançadas como proteômica. Ou seja, não trabalhamos com hidrolisado genérico. A Genu-in conseguiu mapear, identificar e padronizar quais peptídeos estão presentes no ingrediente.
Depois da ingestão, os oligopeptídeos de colágeno presentes no Genu-in Skin são absorvidos no intestino e conseguem chegar na forma de peptídeos intactos na corrente sanguínea. Eles circulam e são distribuídos para diferentes tecidos conjuntivos, e atuam como um sinalizador biológico para as células da pele por efeito de tropismo. Esses peptídeos são muito parecidos com os próprios peptídeos endógenos da pele e atuam, então, como um mensageiro biológico, ou um sinalizador, fazendo com que as células produtoras de colágeno na pele aumentem a sua produção de colágeno e outros componentes da matriz extracelular dérmica. Eles têm um efeito de estimular o metabolismo dessas células produtoras de colágeno.
É importante esclarecer que o colágeno ingerido não vira colágeno diretamente, ele não entra como uma reposição. O mecanismo já demonstrado na literatura científica envolve dois efeitos complementares. O primeiro, por ser uma proteína hidrolisada, fornece aminoácidos como um aporte proteico, como elementos construtores para síntese de proteínas no geral. E o segundo, e o principal para relacionar com o efeito de benefício clínico, é a capacidade desses peptídeos de colágeno atuarem como moléculas bioativas, estimulando as vias celulares relacionadas à produção de colágeno e outras proteínas da matriz extracelular, resultando nos benefícios clínicos relacionados à firmeza, elasticidade e estrutura dérmica da pele.
VEJA: Dermatologistas frequentemente mantêm ceticismo em relação ao colágeno oral, mesmo com produtos aprovados pela Anvisa. Como vocês explicam esse descompasso e qual o diferencial de Genu-in Skin?
Zague: Esse ceticismo é compreensível. Durante muitos anos, o mercado fez promessas exageradas, pouco embasadas cientificamente, com produtos pouco padronizados. Mas esse cenário mudou, a literatura avançou muito. Hoje, nós temos dados robustos, mostrando uma evidência de eficácia forte, principalmente na pele. Então, o diferencial do Genu-in Skin é que não se trata apenas de colágeno hidrolisado genérico. Nós estamos oferecendo para o mercado um ingrediente padronizado com controle de perfil peptídico, com uma aprovação de alegação funcional autorizada pela Anvisa, que é “os oligopeptídeos de colágeno podem contribuir para melhorar a elasticidade e firmeza da pele”, justamente porque hoje a literatura traz uma robustez no fortalecimento dessa comunicação da eficácia clínica na pele.
VEJA: Há evidências de que os peptídeos chegam intactos à pele ou atuam por mecanismos indiretos? Quais?
Zague: Essa é uma pergunta bem importante quando se fala da suplementação com peptídeos de colágeno. Hoje, a ciência comprova tanto in vitro quanto em humanos que parte dos peptídeos de colágeno conseguem permanecer intactos no processo digestivo e serem absorvidos na forma de pequenos fragmentos bioativos.
Os oligopeptídeos de colágeno presentes no Genu-in Skin, por terem um tamanho molecular muito reduzido, apresentam resistência à digestão no trato gastrointestinal e isso permite que parte deles seja detectada na circulação após a ingestão. E, por tropismo, são direcionados por afinidade para o metabolismo da pele, agindo como sinalizadores. Eles atuam em receptores da membrana celular. A literatura científica já documenta algumas vias de sinalização intracelulares que são ativadas para que a célula responda produzindo mais colágeno e outras proteínas de matriz extracelular para recuperar e restaurar parte desse tecido.
Além disso, fornecem aminoácidos livres, que são importantes como aporte proteico para síntese de proteína no geral. É justamente por isso que é importante a padronização do perfil peptídico. Quando conseguimos caracterizar os peptídeos que estão presentes no ingrediente, é possível trabalhar com mais previsibilidade biológica e maior consistência entre os lotes.

VEJA: O produto é descrito como um colágeno “padronizado”. O que isso significa na prática? Como essa padronização impacta os resultados para o consumidor?
Zague: Ser padronizado significa que esse ingrediente busca manter um perfil de peptídeos consistente lote a lote. Significa que a Genu-in identificou, caracterizou, quantificou e mostrou que existe uma consistência entre os lotes na composição desses peptídeos de colágeno. Já os colágenos convencionais, mesmo de produtos originados da mesma fonte, podem apresentar perfis moleculares diferentes. A nossa tecnologia, com controle de origem, com a hidrólise direcionada e com a caracterização, garante essa padronização e essa consistência entre os lotes. A Genu-in tem o controle da matéria-prima, um processo enzimático, peso molecular e composição peptídica. Isso não garante apenas consistência, mas também uma previsibilidade melhor da absorção e da eficácia clínica do ingrediente.
VEJA: Para qual perfil de consumidor o produto tende a trazer mais benefícios?
Zague: O Genu-in® Skin foi desenvolvido para consumidores preocupados com saúde, bem-estar e cuidado com a pele. É um produto que foi desenvolvido para apresentar benefícios clínicos de melhora de firmeza e elasticidade da pele. Então, homens e mulheres na faixa de 30 anos e mais que buscam prevenção do envelhecimento cutâneo e que buscam um reparo dessa pele.
Um público que pode se beneficiar dessa estratégia de suplementação com os oligopeptídeos de colágeno presentes no Genu-in Skin são as pessoas que estão usando os análogos de GLP-1 ou “as canetas emagrecedoras”. Um dos efeitos associados ao uso dessas canetas é justamente uma piora da flacidez e perda da firmeza da pele. A suplementação com colágeno é uma estratégia nutricional interessante e que pode agregar e ajudar a melhorar a pele desses consumidores.
VEJA: O que representa, na prática, a inclusão do produto na lista IN28? Isso significa um diferencial em relação a outros produtos do gênero?
Zague: Na prática, a inclusão na lista positiva da Anvisa, a IN28, significa que o ingrediente foi avaliado dentro dos critérios regulatórios para uso em suplementos alimentares, incluindo a identidade, a segurança, as condições de uso e os estudos clínicos relacionados para a autorização da alegação funcional. Isso permite que a alegação seja usada dentro dos limites autorizados. É um diferencial regulatório importante porque separa o ingrediente avaliado e autorizado de outros ingredientes que apenas usam alegações genéricas ou comunicação de marketing sem que o mesmo tenha sido aprovado ou tenha um reconhecimento específico dos seus benefícios.
Além disso, a presença do ingrediente na lista positiva da Anvisa beneficia diretamente as indústrias de alimentos, de suplementos e farmacêutica. Ao adquirir o insumo da Genu-in, nossos parceiros podem utilizar as alegações de saúde e funcionalidade nos rótulos de seus produtos finais.
VEJA: O que motivou a JBS a investir no desenvolvimento de um ingrediente voltado para saúde e beleza da pele? Como a produção de colágeno se integra à cadeia já existente da empresa?
Zague: A decisão da Genu-in e da JBS em investir em ingredientes como Genu-in Skin está muito conectada às grandes tendências globais de alimentação, de saúde e de envelhecimento saudável. Hoje, o consumidor está cada vez mais atento, mais preocupado e buscando alimentos e suplementos com maior densidade nutricional, com alto teor proteico e com funcionalidade biológica, com benefícios para seu corpo. Existe uma mudança muito clara de comportamento. As pessoas não querem apenas viver mais, elas querem envelhecer melhor, com qualidade de vida, com funcionalidade, com bem-estar e, inclusive, com uma parte estética saudável.
A busca por saúde, bem-estar e aparência saudável acompanha a humanidade há séculos. O que mudou agora é que a ciência passa a entender melhor os mecanismos biológicos envolvidos no envelhecimento cutâneo e como a nutrição pode participar desse processo. Então, quando se fala de nutrição estética, de nutrição integrativa e de longevidade saudável, estamos falando de um movimento muito consistente e global.
Nesse contexto, os oligopeptídeos de colágeno ganham relevância científica porque não são vistos apenas como fonte de proteína, mas como ingredientes com potencial de interação biológica específica. E o investimento da JBS na construção e estruturação da Genu-in nasceu muito alinhado a esse cenário. A JBS, sendo uma das maiores empresas globais de proteína e de alimentos, entende que o futuro da nutrição passa também por ingredientes funcionais, por ciência aplicada e produtos de maior valor agregado.
Outro aspecto central desse investimento é o compromisso com sustentabilidade e economia circular. Os peptídeos de colágeno são produzidos a partir da pele bovina, que tradicionalmente era uma matéria-prima de menor valor agregado. E ela passa a ser utilizada de forma altamente tecnológica para a produção de ingredientes com aplicação em saúde e nutrição. Isso permite melhor aproveitamento da cadeia produtiva, rastreabilidade de matéria-prima, e desenvolvimento de soluções alinhadas tanto à inovação quanto à sustentabilidade.