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Aos 125 anos, a Esalq olha para os próximos degraus de sua história

Fonte: jornal.usp.br | Data: 28/08/2026 17:20:03

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SÉRIE ESPECIAL

Reportagens destacam a história, a produção científica e a contribuição da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz para o desenvolvimento do País

Fotos: Divisão de Comunicação / Esalq

Depois de transformar a agricultura brasileira e ampliar suas fronteiras de pesquisa, a escola chega aos 125 anos diante de novos desafios, das mudanças climáticas e da segurança alimentar à inteligência artificial, biotecnologia e aproximação entre ciência e sociedade

 Publicado: 28/08/2026 às 17:06

Texto: Rose Talamone

Imagine uma escada em construção. Ela já alcançou o 125º degrau, mas ninguém sabe exatamente quantos ainda serão construídos. A imagem foi escolhida pelo professor Evaristo Marzabal Neves para ajudar a contar a trajetória da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP. O primeiro degrau remete a 1901, quando começaram as aulas da então Escola Agrícola Prática. O 125º marca 2026.

Aos 85 anos e completando seis décadas de formado, Evaristo acompanhou pessoalmente quase metade dessa história. Viu uma escola essencialmente agrícola ampliar cursos, pesquisas, relações internacionais e áreas de atuação até chegar ao que define hoje como uma “miniUSP dentro da USP”. Em sua síntese, a formação passou do “servidor provinciano regionalizado” para a do profissional “cosmopolita internacionalizado”.

A imagem também ajuda a lançar a pergunta que conduz este último capítulo da série: como será a Esalq quando chegar aos 150 anos?

Foto: Divisão de Comunicação/Esalq

Evaristo Marzabal Neves, professor da Esalq – Foto: Divisão de Comunicação/Esalq

Nas cinco reportagens anteriores, acompanhamos a trajetória da escola e sua participação nas transformações da agricultura brasileira, entramos em laboratórios e campos experimentais, conhecemos novos desafios científicos e redes de pesquisa e inovação e ouvimos estudantes e ex-alunos sobre a formação recebida em Piracicaba. Neste sexto e último capítulo, o ponto de partida são os 125 anos já percorridos, mas o olhar está nos próximos 25.

Foto gerada com auxília de IA

O que já começou a mudar

Parte do que estará no centro das pesquisas quando a Esalq chegar aos 150 anos já pode ser observada nos laboratórios e campos experimentais. Mudanças climáticas, segurança alimentar, redução das emissões, uso mais eficiente de água e solo, inteligência artificial, genômica, microbioma, bioinsumos e transformação digital estão entre os temas apontados pelos pesquisadores ouvidos nesta série.

O desafio não é apenas incorporar novas tecnologias. As entrevistas mostram uma agricultura que terá de produzir diante de condições mais complexas: clima menos previsível, maior pressão sobre os recursos naturais, necessidade de reduzir impactos ambientais e uma população que continuará demandando alimentos.

Na produção animal, o professor Flávio Augusto Portela Santos considera que produtividade, sustentabilidade, bem-estar animal e segurança alimentar estarão cada vez mais interligados. Redução das emissões de gases de efeito estufa, sistemas integrados de produção e uso eficiente dos recursos naturais estão entre os desafios que identifica para a área.

O professor Evandro Maia Ferreira acrescenta a esse cenário ferramentas que deverão ampliar a capacidade de compreender e manejar os sistemas de produção. Genômica, nutrigenômica, microbioma, inteligência artificial, biotecnologia e transformação digital já fazem parte das pesquisas e, em sua avaliação, devem ganhar espaço na busca por uma produção de proteína animal sustentável.

Flávio Augusto Portela Santos e Evandro Maia Ferreira – Fotos: Divisão de Comunicação/Esalq

Em outra frente, o professor Ítalo Delalibera Júnior projeta uma mudança gradual na própria base tecnológica utilizada na agricultura. “A gente está passando por uma transformação, de um paradigma químico para um paradigma mais biológico na agricultura”, afirma. Entre as possibilidades estão produtos microbianos capazes de auxiliar as plantas a utilizar fertilizantes de forma mais eficiente, reduzindo a necessidade de insumos sintéticos. Para o pesquisador, essa transição já começou, mas ainda está em seus estágios iniciais.

No campo das mudanças climáticas, Fábio Marin chama atenção para outro desafio: a velocidade da adaptação. “O que mais me preocupa é o descompasso entre a velocidade da mudança e a velocidade da adaptação.” Cultivares levam anos para ser desenvolvidas, enquanto o clima se transforma nesse mesmo intervalo. Entre as questões que ainda precisam ser mais bem compreendidas, ele cita os efeitos combinados de calor e seca, as mudanças no comportamento de pragas e doenças e os conflitos crescentes pelo uso da água.

Ao imaginar a agricultura quando a Esalq chegar aos 150 anos, Marin espera encontrar modelos que combinem processos biológicos e aprendizado de máquina, cultivares desenvolvidas para as novas condições climáticas e uma agricultura de precisão capaz de otimizar simultaneamente produtividade, uso da água e emissões. Mas coloca uma expectativa acima das demais, “que a distância entre descobrir e aplicar tenha encurtado, que a ciência chegue mais rápido ao campo”.

Ítalo Delalibera Júnior e Fábio Marin – Fotos: Divisão de Comunicação/Esalq

Foto: Divisão de Comunicação / Esalq

Carlos Eduardo Pellegrino Cerri chega ao mesmo horizonte por outro caminho. Para ele, um dos grandes desafios será ampliar a produção necessária para atender à demanda por alimentos, fibras e energia com menor impacto ambiental. A resposta passa pelo aumento da eficiência no uso dos recursos naturais, aquilo que resume como “produzir mais com menos”: menos impacto, menos produtos químicos e menor utilização de recursos naturais.

José Belasque Júnior acrescenta a necessidade de rever a própria organização dos sistemas produtivos. Para ele, uma agricultura submetida a eventos climáticos extremos mais frequentes precisará ampliar a diversidade dos sistemas de produção. A integração entre lavoura, pecuária e floresta aparece entre os caminhos possíveis. “A gente precisa ter um sistema de produção que a gente chama de mais resiliente, até mesmo para enfrentar as mudanças climáticas”, afirma. Na pesquisa, acrescenta, será necessário trabalhar em rede, definir grandes perguntas e pensar estrategicamente nas contribuições de médio e longo prazos.

Carlos Eduardo Pellegrino Cerri, José Belasque Júnior e Paulo Eduardo Moruzzi Marques – Fotos: Divisão de Comunicação/Esalq

Outra perspectiva apresentada pelos pesquisadores amplia a discussão para as dimensões sociais dos sistemas de produção. O professor Paulo Eduardo Moruzzi Marques chama atenção para a agricultura familiar, agroecologia e soberania alimentar. “Meu desejo é que a Esalq direcione cada vez mais esforços para que a agricultura familiar, a agroecologia e a soberania alimentar estejam no centro de suas atividades de pesquisa, extensão e ensino”, afirma. Para Moruzzi, trata-se de corresponder efetivamente a uma concepção forte de desenvolvimento sustentável.

Foto: Denise Guimarães/Esalq USP

Ciência para problemas que não cabem em uma área

A complexidade desses desafios também vem alterando a maneira de organizar a pesquisa. Nas últimas décadas, a Esalq ampliou centros e redes que aproximam áreas do conhecimento e instituições diferentes.

Esse movimento tende a crescer. Para a professora Carla Bittar, presidente da Comissão de Pós-Graduação, a próxima etapa deverá combinar maior projeção internacional com parcerias estratégicas, dupla titulação, mobilidade de pesquisadores, interdisciplinaridade e atração de talentos. “A evolução futura dependerá da capacidade de promover inovação sem desviar da identidade acadêmica de excelência que historicamente distingue a Esalq”, afirma.

A ex-aluna e professora da Unesp Elaine Mendonça Bernardes acrescenta a dimensão institucional. Ao pensar nos desafios representados pelas mudanças climáticas, segurança alimentar e sustentabilidade, ela aponta também para a necessidade de construir novas respostas institucionais. Ao imaginar a Esalq aos 150 anos, Elaine espera que a escola mantenha a liderança na criação de formas de parceria e organização capazes de responder com maior agilidade às demandas da sociedade. E acrescenta outra expectativa: que contribua para “elevar o nível de discussão sobre ciência e tecnologia na sociedade brasileira”.

A ciência que chegará a 2051, portanto, não dependerá somente de novos conhecimentos e tecnologias. As entrevistas apontam também para a necessidade de ampliar a colaboração entre áreas, instituições e sociedade.

Carla Bittar, presidente da Comissão de Pós-Graduação da Esalq  - Foto: Gerhard Waller / Esalq USP

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A evolução futura dependerá da capacidade de promover inovação sem desviar da identidade acadêmica de excelência que historicamente distingue a Esalq”

Carla Bittar, presidente da Comissão de Pós-Graduação da Esalq – Foto: Gerhard Waller / Esalq USP

Essa lógica aparece também no aspecto global. “A ciência deixou de ter fronteiras, e os desafios que enfrentamos também são globais.”

Foto: Divisão de Comunicação / Esalq

Formar para um futuro que ainda não conhecemos

Os profissionais que estarão em plena atividade quando a Esalq completar 150 anos começaram ou ainda começarão sua formação em uma realidade marcada por mudanças tecnológicas, ambientais e sociais cada vez mais rápidas.

Para a professora Wanessa Mattos, presidente da Comissão de Graduação, os currículos precisam acompanhar avanços como agricultura digital, biotecnologia, inteligência artificial e agricultura de precisão, ao mesmo tempo que incorporam as demandas relacionadas à sustentabilidade. A formação, porém, não se resume ao domínio dessas ferramentas. Pensamento crítico, capacidade de inovação, trabalho em equipe, liderança e responsabilidade socioambiental também aparecem entre as competências que Wanessa considera necessárias aos profissionais.

A inteligência artificial é um exemplo dessa combinação. Na avaliação da professora, ela deve apoiar o ensino, a pesquisa e a produção do conhecimento, “sem substituir a capacidade de análise, reflexão e criatividade que caracteriza a formação universitária”.

Pesquisa e extensão completam essa preparação ao colocar os estudantes em contato com pesquisadores, produtores, empresas, órgãos públicos e diferentes demandas da sociedade. Desde 2023, com a curricularização da extensão, pelo menos 10% da carga horária dos cursos de graduação é destinada a atividades extensionistas.

Wanessa Mattos, presidente da Comissão de Graduação - Foto: Gerhard Waller / Esalq USP

Wanessa Mattos, presidente da Comissão de Graduação – Foto: Gerhard Waller / Esalq USP

Ao longo da história da Esalq, essa formação também levou ex-alunos a diferentes espaços de decisão. Egressos da escola ocuparam ministérios, secretarias de Estado e outras funções na administração pública, participando da formulação e da gestão de políticas públicas.

Se as ferramentas disponíveis em 2051 são impossíveis de prever, a formação pode preparar os estudantes para algo que certamente continuará existindo: problemas que exigirão conhecimento técnico, capacidade de análise e decisões tomadas diante de realidades complexas.

A professora Sonia Piedade, presidente da Comissão de Cultura e Extensão Universitária, coloca outra questão para os próximos anos: a Universidade precisará conhecer melhor a sociedade com a qual pretende dialogar. Segundo ela, a própria compreensão da extensão mudou. Não basta que um trabalho acadêmico tenha impactos sociais ou econômicos; é necessária uma atuação direta junto à sociedade. “É preciso escutar a sociedade, em seus mais diferentes setores, para aprender as suas demandas e seus anseios”, afirma Sonia. A abordagem, lembra, será diferente diante de estudantes do ensino fundamental e médio, profissionais de empresas, pequenos produtores ou grandes produtores.

Para ampliar o alcance da extensão, acrescenta, a Esalq terá também de “aprender e estudar melhor a sociedade e o país em que estamos inseridos”. É uma formulação particularmente importante para uma escola que nasceu voltada à agricultura, mas que hoje reúne públicos, áreas e formas de atuação muito mais diversas.

Sonia Maria De Stefano Piedade, presidente da Comissão de Cultura e Extensão - Foto: Gerhard Waller / Esalq USP

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É preciso escutar a sociedade, em seus mais diferentes setores, para aprender as suas demandas e seus anseios”

Sonia Maria De Stefano Piedade, presidente da Comissão de Cultura e Extensão – Foto: Gerhard Waller / Esalq USP

O tamanho do ponto de partida

A Esalq chega a essa nova etapa com uma estrutura muito diferente daquela criada em 1901. Sete cursos de graduação, 17 programas de pós-graduação, centenas de projetos de pesquisa, mais de uma centena de laboratórios, grupos de extensão e convênios compõem parte da estrutura da escola de 2026.

Os números ajudam a dimensionar o ponto de partida dos próximos 25 anos.

Foto gerada com auxília de IA

Que Esalq chegará a 2051?

As respostas dos entrevistados não produzem uma imagem única da escola aos 150 anos. Elas passam pela agricultura familiar e pela agroecologia, pela internacionalização e interdisciplinaridade, por novas formas de diálogo com a sociedade e por uma formação capaz de acompanhar as transformações tecnológicas sem abrir mão da capacidade crítica.

As perspectivas vêm de diferentes lugares dentro e fora da escola e convergem justamente na complexidade do desafio. A Esalq de 2051 terá de lidar simultaneamente com produção agrícola em grande escala e agricultura familiar; alta tecnologia e conhecimento construído no campo; pesquisa fundamental e inovação; demandas globais e problemas locais; inteligência artificial e formação humana.

Para Fábio Marin, o papel da escola diante desse cenário passa por duas frentes: “Continuar sendo a fronteira científica da agricultura tropical e continuar sendo a ponte entre ciência e decisão”.

Já para a diretora Thais Maria Ferreira de Souza Vieira, essa transformação passa pelo fortalecimento da Esalq como referência em ciência, inovação e formação de talentos para os sistemas agroalimentares.

Thais Maria Ferreira de Souza Vieira, diretora da Esalq - Foto: Gerhard Waller / Esalq USP

Thais Maria Ferreira de Souza Vieira,
diretora da Esalq – Foto: Denise Guimarães/Esalq

Fotos: Divisão de Comunicação / Esalq

O próximo degrau

Quando organizou os 125 anos da Esalq como uma escada, Evaristo Neves deixou o desenho deliberadamente inacabado. Não tentou nomear o último degrau.

Talvez porque tenha acompanhado tempo suficiente da instituição para saber o risco das previsões. Em sua própria trajetória, viu a pós-graduação se expandir, novos cursos surgirem, a participação feminina crescer, professores buscarem formação no exterior e a pesquisa deixar estruturas mais disciplinares para incorporar centros e redes multidisciplinares.

Hoje, os entrevistados conseguem identificar alguns dos desafios que estarão no caminho até 2051. Mudanças climáticas, segurança alimentar, produção sustentável, preservação dos recursos naturais, transformação digital, inclusão e novas formas de relação entre ciência e sociedade já estão diante deles. As respostas ainda estão sendo construídas. Por isso, aos 125 anos, a Esalq não chega ao topo da escada imaginada por Neves.

Chega a mais um degrau. E, como ele próprio escreveu ao terminar sua linha do tempo, “e la nave va”.

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Esta série teve a colaboração dos jornalistas Caio Albuquerque e Alicia Nascimento Aguiar e dos fotógrafos Gerhard Waller e Denise Guimarães Guedes; a arte é da jornalista Thais Helena dos Santos

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