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Gestores de transportes de Lisboa visitam BRT em Goiânia e consideram levar “metronização” para ônibus em Portugal

Fonte: diariodotransporte.com.br | Data: 28/08/2026 20:14:22

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Publicado em: 28 de agosto de 2026



Diário do Transporte mostrou que com sistema, ônibus do BRT em Goiânia encontram 90% de semáforos verdes e velocidade sobe mais de 31%

ADAMO BAZANI

Colaborou Vinícius de Oliveira

Representantes da TML (Transportes Metropolitanos de Lisboa) estiveram em Goiânia nesta quinta-feira, 27 de agosto de 2026, para conhecer o sistema de controle e prioridade semafórica implantado nos corredores de BRT da capital goiana. A visita ocorreu no CCO (Centro de Controle Operacional), de onde são acompanhados ônibus, cruzamentos e informações utilizadas para ajustar os semáforos e reduzir as paradas dos coletivos.

O presidente do Conselho de Administração da TML, Carlos Humberto de Carvalho, disse que a entidade avalia soluções semelhantes para Portugal, principalmente em semaforização inteligente, tecnologia e informação em tempo real. A visita ocorre poucos dias depois de Goiânia concluir a metronização do BRT Leste-Oeste, sistema que, segundo números da Prefeitura já analisados pelo Diário do Transporte, aumentou em pelo menos 31,25% a velocidade média dos ônibus, de 16 km/h para mais de 21 km/h.

O encontro foi uma sequência de uma visita anterior de representantes de Goiânia a Lisboa.

Segundo a Prefeitura, a tecnologia utilizada no BRT combina sensores instalados nos veículos e ao longo dos corredores, comunicação com a central operacional e programação semafórica capaz de reconhecer a aproximação dos ônibus e priorizar sua passagem pelos cruzamentos.

Carlos Humberto de Carvalho destacou especificamente este componente.

“Uma coisa que nós estamos a ponderar é a semaforização inteligente. No fundo, é aquilo que vocês já estão a fazer para alguns modais de transporte. As questões tecnológicas, a informação em tempo real, são coisas indispensáveis para os usuários. É uma experiência que vale a pena conhecer”, disse, segundo o material divulgado pela Prefeitura.

Ônibus encontram sinal verde em 90% dos cruzamentos, diz Prefeitura

A implantação dos cinco quilômetros finais da metronização do BRT Leste-Oeste foi concluída em 21 de agosto de 2026.

Com esta etapa, a Prefeitura considera 18 quilômetros do eixo atendidos pela tecnologia.

Os números municipais mostram que, antes da mudança, os ônibus paravam em 52% dos cruzamentos. Depois da implantação, encontram sinal verde em aproximadamente 90% deles.

O número de paradas diante de semáforos no percurso caiu de mais de 30 para uma média de sete.

A Prefeitura também informa redução de 15 a 20 minutos no percurso entre os terminais Novo Mundo e Padre Pelágio.

A velocidade média passou de 16 km/h para mais de 21 km/h. Como mostrou o Diário do Transporte em 22 de agosto, considerando apenas o valor mínimo de 21 km/h informado pelo Município, o aumento foi de 31,25%. Como a Prefeitura diz que o resultado superou 21 km/h, o ganho real indicado pelos próprios números municipais é superior a este percentual.

A administração municipal anunciou ainda a expansão da tecnologia para todo o BRT Norte-Sul.

Relembre: Com metronização, ônibus do BRT em Goiânia encontram 90% de semáforos verdes e velocidade sobe mais de 31%

TML administra transporte metropolitano de Lisboa, mas não é o Metrô

Há uma diferença institucional importante entre os sistemas apresentados durante o intercâmbio.

A TML não é o Metropolitano de Lisboa, empresa que opera as linhas ferroviárias de metrô da capital portuguesa.

A Transportes Metropolitanos de Lisboa funciona como autoridade de transportes da Área Metropolitana de Lisboa. Entre suas atribuições estão planejamento, organização, financiamento, definição tarifária, fiscalização e articulação dos serviços de transporte de passageiros.

A TML também está por trás da Carris Metropolitana, rede de ônibus que abrange os 18 municípios da área metropolitana.

A operação rodoviária é realizada por empresas privadas contratadas em quatro áreas geográficas. A rede metropolitana passou a reunir mais de 700 linhas, cerca de 12 mil pontos e aproximadamente 1.575 ônibus no início de sua implantação integral. A Carris Metropolitana realiza a rede municipal de 15 dos 18 municípios e a totalidade dos serviços intermunicipais da região; Lisboa, Cascais e Barreiro mantêm operações municipais próprias.

É esta autoridade metropolitana que enviou representantes para conhecer a experiência de Goiânia.

Metrobus Lisboa-Oeiras ainda é projeto

Também é necessário diferenciar a atual rede de ônibus de Lisboa do chamado Metrobus Lisboa-Oeiras.

O Metrobus, oficialmente apresentado também como BRT Lisboa-Oeiras ou Transporte Rápido Lisboa-Oeiras, ainda não está em operação.

Ele faz parte do planejamento 2026-2030 da Câmara Municipal de Lisboa e deverá criar uma ligação em ônibus entre Lisboa e Oeiras. A proposta foi mantida entre os projetos de mobilidade previstos pela administração portuguesa em 2026.

O projeto prevê 21 quilômetros em canal dedicado, com 29 paradas e ônibus 100% elétricos.

Os dois principais eixos serão Alcântara–Algés e Benfica–Algés, com atendimento também a áreas como Ajuda, Restelo, Miraflores, Linda-a-Velha, Alfragide e Colégio Militar.

A Carris informa que o sistema deverá se integrar ao metrô, aos trens, aos ônibus, aos elétricos — como os bondes são chamados em Portugal — e aos modos de mobilidade ativa.

A configuração apresentada prevê 16 ônibus elétricos e aproximadamente 22 mil passageiros por dia, atendendo diretamente uma área onde vivem mais de 90 mil pessoas. O investimento estimado é de aproximadamente € 93,5 milhões. A entrada em funcionamento foi projetada para 2028.

Em abril de 2026, a Câmara de Lisboa informou que o projeto estava na etapa relacionada ao estudo de impacto ambiental.

Portanto, ao comparar os dois casos, Goiânia possui um sistema BRT em operação e em processo de modernização, enquanto Lisboa e Oeiras trabalham na implantação de uma nova infraestrutura de BRT.

O que Goiânia e o projeto de Lisboa têm em comum

Os dois projetos partem do mesmo princípio básico: dar prioridade física e operacional ao ônibus para reduzir a interferência do trânsito geral.

O BRT Lisboa-Oeiras foi projetado para operar em canal dedicado e com veículos elétricos. Em Goiânia, os dois principais eixos também utilizam infraestrutura segregada em parte relevante dos percursos, estações e terminais, mas as linhas podem sair das vias exclusivas e continuar por ruas compartilhadas com outros veículos.

Os dois modelos também dão peso aos sistemas tecnológicos de controle.

Em Goiânia, a prioridade semafórica está em funcionamento e é justamente o componente que despertou interesse da delegação portuguesa.

Lisboa, por sua vez, prevê ampliar o uso de inteligência artificial no controle da operação da Carris e inclui modernização dos sistemas semafóricos entre as ações de mobilidade de 2026.

Há também convergência na transição energética.

O Metrobus Lisboa-Oeiras está projetado para utilizar apenas ônibus elétricos. Goiânia possui uma frota ainda majoritariamente baseada em motores a combustão, mas já introduziu ônibus elétricos e veículos movidos a biometano no processo de renovação da Rede Metropolitana de Transportes Coletivos.

As diferenças entre os dois modelos

Item Goiânia Lisboa-Oeiras
Situação Em operação Projeto
Estrutura Dois BRTs metropolitanos Um novo BRT
Via BRT 30,5 km no estudo da NTU 21 km previstos
Tecnologia Prioridade semafórica já operando Sistema ainda a implantar
Frota Diesel, elétricos e biometano Elétrica prevista
Rede Linhas entram e saem dos corredores Canal dedicado projetado
Abrangência Região Metropolitana Lisboa e Oeiras
Operação Empresas da RMTC e Metrobus Operador ainda ligado à estruturação do projeto

Os números de extensão precisam ser comparados com cuidado.

O estudo nacional divulgado pela NTU nesta sexta-feira, 28 de agosto, contabiliza em Goiânia dois sistemas BRT, Leste-Oeste e Norte-Sul, com 30,5 quilômetros classificados especificamente como via BRT e outros 70,7 quilômetros de operação em tráfego compartilhado. A rede operacional associada aos dois sistemas chega, desta maneira, a 101,2 quilômetros.

Isso explica por que aparecem números diferentes dependendo da fonte e do critério.

Os 18 quilômetros divulgados pela Prefeitura correspondem à extensão atendida pela metronização do BRT Leste-Oeste.

Já o levantamento da NTU separa o que é efetivamente infraestrutura de BRT dos trechos percorridos pelos mesmos ônibus fora das vias segregadas.

No caso do Leste-Oeste, o estudo considera 13 quilômetros de via BRT e 50,9 quilômetros de trechos compartilhados associados às linhas.

Estudo da NTU coloca Goiânia entre apenas 15 cidades brasileiras com BRT

A visita portuguesa ocorreu no mesmo momento em que a NTU divulgou um levantamento nacional sobre BRTs.

Como mostrou o Diário do Transporte nesta sexta-feira, 28 de agosto, o estudo identificou apenas 17 sistemas de BRT em 15 cidades brasileiras, distribuídos por 35 corredores.

São 556 quilômetros de vias efetivamente dedicadas ao transporte coletivo por ônibus.

Desde 1974, quando Curitiba começou a operar seus primeiros corredores, o Brasil colocou em funcionamento menos de 12 quilômetros de infraestrutura BRT por ano, em média.

O levantamento diferencia BRTs completos de corredores e faixas de ônibus mais simples.

Entre os requisitos técnicos estão segregação do tráfego, prioridade operacional, estações, embarque rápido, acessibilidade e sistemas de controle e informação aos passageiros.

Goiânia aparece na pesquisa com os BRTs Leste-Oeste/Anhanguera e Norte-Sul.

O Leste-Oeste tem origem no Eixo Anhanguera, implantado em 1976, enquanto o Norte-Sul entrou em operação muito mais recentemente.

Relembre: BRTs no Brasil – só foram implantados menos de 12 km por ano desde 1974

Modelo de Goiânia divide responsabilidades entre Estado e municípios

Outro ponto tratado durante a visita foi o financiamento do transporte coletivo.

Carlos Humberto de Carvalho disse que chamou sua atenção a participação de diferentes entes públicos no financiamento do sistema goiano.

Na Região Metropolitana de Goiânia, a tarifa paga pelo passageiro não corresponde sozinha ao custo de operação. Estado e municípios participam do financiamento do serviço por meio do arranjo estabelecido para a RMTC.

O presidente da TML disse que pretende analisar a experiência.

A declaração não significa, entretanto, que os transportes públicos portugueses funcionem sem subsídios ou financiamento governamental.

A própria TML possui, entre suas competências legais, o financiamento do serviço público, das infraestruturas e das compensações relacionadas a tarifas sociais.

Na Área Metropolitana de Lisboa também existe integração tarifária por meio do sistema Navegante, que permite viagens entre diferentes operadores nos 18 municípios.

A diferença mencionada pela comitiva, portanto, está na forma específica como Goiânia organiza a divisão de responsabilidades financeiras entre Governo do Estado, municípios e operação metropolitana, e não na existência ou inexistência de recursos públicos para os transportes.

Uma região metropolitana em cada lado do Atlântico

Há outra semelhança institucional.

Tanto Goiânia como Lisboa precisam organizar viagens que ultrapassam os limites de um único município.

Na Grande Goiânia, a RMTC integra Goiânia e municípios vizinhos em uma mesma rede operacional e tarifária.

Em Lisboa, a TML exerce funções de autoridade metropolitana e a Carris Metropolitana organiza serviços rodoviários que atravessam os 18 municípios da AML.

Mas as estruturas não são iguais.

Goiânia construiu uma rede metropolitana fortemente organizada em torno dos ônibus e de seus corredores estruturais.

Lisboa possui uma composição modal mais ampla, com metrô ferroviário, trens suburbanos, ônibus municipais e metropolitanos, transporte fluvial, elétricos e outros serviços.

O Metrobus Lisboa-Oeiras deverá acrescentar mais um eixo sobre pneus a essa rede, enquanto em Goiânia o BRT já exerce uma função estrutural dentro do sistema metropolitano.

Prioridade semafórica é o ponto concreto do intercâmbio

Entre todas as características apresentadas durante a visita, a que teve manifestação objetiva da delegação portuguesa foi a prioridade semafórica.

O sistema implantado em Goiânia procura reduzir uma limitação frequente dos corredores de ônibus: mesmo circulando em via exclusiva, o veículo pode perder tempo em cruzamentos se os semáforos continuarem funcionando sem considerar sua aproximação.

A tecnologia não transforma o ônibus em metrô e os dois modos têm características diferentes de capacidade, infraestrutura e operação.

O resultado divulgado pela Prefeitura mostra, entretanto, que a redução das interrupções teve efeito mensurável na velocidade do BRT: de 16 km/h para mais de 21 km/h.

É esse componente operacional, associado ao monitoramento em tempo real, que a TML informou estar avaliando após a visita a Goiânia.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes