Começar de novo
Fonte: estadao.com.br | Data: 29/08/2026 05:59:09
E se de repente alguém virasse a ampulheta e nos projetasse para onde tudo começou? E se insistíssemos numa rota já estabelecida, para reiniciar de onde paramos ou tropeçamos?
Nas eleições de 2026, os candidatos mais fortes querem manter vivo um caminho já trilhado. Lula quer fazer o que não conseguiu em seus três mandatos, mas não deseja voltar às origens, coisa que o levaria às promessas mais “puras” e radicais do PT de 1982. Flávio Bolsonaro, por sua vez, quer dar sequência à herança deixada pela Presidência de seu pai, patrimônio de valor discutível, mas não quer ir muito para trás e se deparar com um vazio improdutivo.
O Brasil não vive um bom momento. A polarização é resiliente. Candidatos menos expressivos rondam a arena principal, mas não abalam os principais. Não há “terceira via”, embora algum azarão possa surpreender. A repetição de promessas passa longe do que se poderia chamar de prioridades estratégicas. Não há planos de metas ou projetos. Cada candidato imagina um país. Improvisos e ênfases demagógicas tomam conta do cenário.
Talvez seja hora de começarmos de novo. Voltar à redemocratização dos anos 1980, nosso maior baú de boas ideias e intenções. Lá havia esperança, disposição de luta e uma causa comum. Revisitá-lo criticamente pode nos ajudar a ver onde foi que erramos. Corrigir o que está torto, ou seja, quase tudo. Houve avanços na assistência social, o SUS se consolidou, o País se modernizou e a industrialização foi em frente. A desigualdade, porém, não retrocedeu. A revolução digital nos pegou em cheio. Sacode a sociedade de cima a baixo, sem que se saiba se estamos absorvendo o que ela traz de positivo.
Depois de oito anos de Fernando Henrique e 20 anos de governos petistas-lulistas, quase nenhuma instituição funciona bem. Até o Supremo Tribunal Federal (STF) perdeu o prumo. Os partidos feneceram. Estamos sem garantias de que a política produzirá bons governos e de que a justiça será feita sem histrionismos personalistas. O País não está à deriva, mas claudica em diversas áreas, sentindo falta de um eixo organizador. As múltiplas e complexas pautas têm sido deixadas de lado ou são superficialmente abordadas.
Hoje não sabemos em qual direção o Brasil caminha. Estamos honrando a tradicional independência de nossa diplomacia? Mantemos nossos vínculos “ocidentais” ou estamos tateando em busca de algum reposicionamento?
Na segurança pública, temos ido piorando. A “profissionalização” do crime organizado exacerba a ausência de uma consistente política nacional. Dá-se mais importância aos casos de corrupção – que são gravíssimos e respingam por todos os lados – do que às mortes bestas motivadas pelo tráfico. Bons documentos oficiais ficam nas prateleiras, a sugerir que falta algo para que sejam executados. O lapso entre o que se escreve neles e a execução é recorrente.
O País está digitalizado. Quase toda a população se move com um celular nas mãos. O home office bomba em muitos setores. O delivery está nas ruas. Mas o País controla pouco os dados manuseados pelas grandes plataformas digitais. Sua soberania é mais ameaçada por isso do que pelas investidas maníacas de Trump. Se os dados digitais impactam a vida, quem os controla tem poder. Poderá não ser dono do mundo, mas terá, ao menos, condições de confrontar os que pretendem dirigir o mundo.
E as terras raras? E a crise fiscal, que nos dizem ser grave? Não faltam problemas.
A educação exige atenção dedicada, ferrenha. É a principal ferramenta do progresso. Índices de desempenho à parte, não estamos saindo do lugar. Ainda nos enroscamos em temas menores, tipo “os estudantes não devem usar a inteligência artificial (IA) para estudar”, sem darmos atenção ao letramento digital, ao ensino dos métodos para que estabeleçam relações inteligentes, autônomas e reflexivas com a IA. A escola básica de massa continua repleta de carências e desigualdades. As universidades têm insuficiências de ordem material, financeira e pedagógica. A pesquisa é feita, mas não se espalha, concentra-se em poucas unidades de ponta.
Começar de novo não é esperar que o baú dos anos 1980 nos diga o que fazer. É usá-lo como referência. Um novo reformismo seria o bálsamo de que necessitamos. Precisaria ser profundo, deitar raízes na sociedade. Mas não poderá ser feito de supetão, nem de modo “revolucionário”, com a explosão de todas as casamatas. Terá de se basear num refinado mapa que possibilite a navegação por entre as ilhas nacionais (políticas, ideológicas, culturais, regionais), de modo a articulá-las paulatinamente.
O problema é encontrar o agente que encarnará um projeto dessa magnitude. Poderiam ser os democratas progressistas, mas eles andam tão desencontrados e retraídos que, no momento, inspiram pouca confiança. Quem sabe não devem eles também começar de novo? Mobilizando a sociedade numa direção oposta aos populismos atuais. Precisamos parar de viver à procura de um “grande líder”. O importante é unir forças, construir uma agenda de reformas e uma gestão corajosa.