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Filme de Grace Passô, ‘Nosso Segredo’ convida o espectador a abrir mão da explicação

Fonte: estadao.com.br | Data: 29/08/2026 12:41:53

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Logo com seu primeiro longa-metragem, Nosso Segredo, que acaba de estrear nos cinemas brasileiros, Grace Passô conquistou três Kikitos no Festival de Gramado: melhor filme, fotografia e direção de arte. “Prêmios têm muitas importâncias”, diz ela em entrevista ao Estadão. “A primeira delas é a visibilidade, é espalhar essa palavra de alguma forma, além, claro, de coroar um processo muito longo, de um projeto que se deu ao longo de seis anos.”

Não que premiações sejam uma raridade na carreira da atriz, dramaturga e diretora de teatro e cinema. Ela foi a primeira mulher negra a ganhar o Prêmio Shell de dramaturgia, pela primeira peça que escreveu, Por Elise (2005), e desde então acumula troféus como dramaturga, diretora e atriz.

A atriz, dramaturga e cineasta Grace Passô

 

Foto: Nana Moraes/Divulgação

Foi justamente nas origens de sua trajetória como criadora que ela buscou inspiração para Nosso Segredo, sem temer suas raízes teatrais, retomando sua segunda obra, Amores Surdos (2006). O filme fala de uma família de classe média negra e mineira e sua dificuldade de lidar com o luto, em uma mistura de realismo e fantasia.

“Tenho a impressão de que as experiências no cinema e no teatro cada vez me segmentam menos e ressaltam que as linguagens existem para alargar códigos, nos mostrar caminhos que não imaginávamos antes”, afirma Passô. “O fato de eu ser uma pessoa formada nas bases do teatro talvez tenha feito nascer um filme que desafia alguns padrões de narrativa do cinema.”

Caçula entre sete irmãos, ela teve o privilégio, como diz, de seguir uma carreira artística que ninguém de sua família poderia sonhar ter. Aos 13, entrou para o curso de teatro e nunca mais deixou os palcos. No grupo Espanca!, logo viu a possibilidade de também criar os papéis e as histórias que queria contar.

O cinema veio mais tarde, com sua presença em filmes tornando-se frequente apenas a partir de 2016, com Elon Não Acredita na Morte, de Ricardo Alves Jr. Desde então, ela ganhou os prêmios de melhor atriz em 2018 nos festivais do Rio (por Praça Paris, de Lúcia Murat) e Brasília (por Temporada, de André Novais Oliveira) e em 2023 voltou a levar o Redentor e o Candango por O Dia que te Conheci, também de Oliveira.

Na direção de cinema, ela trilhou seu caminho a partir do média-metragem Vaga Carne (2019) e do curta República (2020). O primeiro é baseado em sua peça de teatro de mesmo nome, foi codirigido por Ricardo Alves Jr. e estreou no Festival de Berlim em 2020. O segundo foi feito durante a pandemia a convite de Kleber Mendonça Filho para o Instituto Moreira Salles. República ganhou os prêmios ABRACCINE do Festival de Brasília, Kinoforum e o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro por melhor curta do ano e melhor roteiro no Prêmio da Associação Brasileira de Autores Roteiristas.

Fantasia e realismo

Por mais que tenha se baseado no teatro, em Nosso Segredo, ela se viu instigada a ser livre na hora de reescrever sua obra para o cinema. Até porque o cinema permitia ampliar as dimensões mais fantásticas e simbólicas de Amores Surdos. No filme, Suely (Ju Colombo) vive com os filhos em uma casa em Belo Horizonte que está eternamente sendo reformada e ampliada. Gilson (Robert Frank) assumiu a ausência do pai e sustenta a família como taxista, Grazi (Jéssica Gaspar) e Guto (Flip) parecem à deriva, e o pequeno Tutu (Efraim Santos) é o dono do segredo do título.

Efraim Santos é Tutu no filme ‘Nosso Segredo’, que acompanha uma família em luto

 

Foto: Entrefilmes/Divulgação

Embora não seja autobiográfico, o filme é bastante pessoal para a roteirista e diretora. A casa que serve de locação é a mesma em que ela cresceu. Como Tutu, ela também perdeu o pai criança – na verdade, bebê.

Essa história é a de uma família, mas carrega uma dimensão ancestral que vai além do pessoal e do presente. “Eu sou uma mulher negra muito mergulhada no repertório filosófico de pensadoras e pensadores negros”, afirma Passô. “Há essa noção de que a temporalidade da nossa vida não se dá de maneira linear, como dito por Leda Maria Martins e trazido pelas matrizes africanas. Não se consegue ser negra hoje sem partir desse pressuposto de que existe uma coexistência no nosso presente de temporalidades. A memória talvez seja o grande segredo da família, as memórias todas ali dentro de nós. Existe a dimensão íntima dessa memória, mas também a social, da nossa história, dos nossos lutos, das nossas gerações coloniais ao longo do tempo.”

Essas dimensões ancestrais estão presentes desde o prólogo de Nosso Segredo, com a presença de personagens que são como mentores para a jornada dos protagonistas. Mas elas ficam mais evidentes conforme o longa avança. O longa-metragem começa com os pés firmes no realismo, antes de se transformar. “O filme usa o realismo como estratégia de identificação”, explica Passô.

O fantástico vai invadindo a tela aos poucos. “Quase para lembrar o espectador quanto nossa realidade é misteriosa. Existem mais coisas misteriosas nas nossas vidas do que não. Então o filme vai mostrando que na verdade é pseudo realista e vai torcendo o realismo até chegar ao absurdo.” É algo que só o cinema consegue nessas proporções.

Segundo Passô, a ideia era mesmo explodir a ideia de realismo no nosso cotidiano como algo racional e controlável. “É um convite para o espectador assistir a uma história sem querer controlá-la o tempo inteiro. Para o espectador viver essa experiência com felicidade, precisa não querer controlar o sentido das coisas o tempo todo, assim como na nossa vida. Não tentar explicar tudo, tolerar o mistério que está entre nós com tanta potência.”

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