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Atendimentos a pessoas com compulsão em apostas cresce no primeiro semestre de 2026 em Passo Fundo

Fonte: gauchazh.clicrbs.com.br | Data: 30/08/2026 04:08:17

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nakarin / stock.adobe.com
Crescimento nos atendimentos são um sintoma de consolidação nacional do mercado de apostas.

Os atendimentos de saúde a pessoas com ludopatia —  transtorno mental, reconhecido pela OMS, que se caracteriza pelo desejo incontrolável de jogar e apostar, apresentam tendência de crescimento em Passo Fundo, no norte do Estado, desde o início de 2026.

Em 2025, o município realizou 82 atendimentos a esse público. Neste ano, apenas entre janeiro e junho, foram realizados 73 atendimentos, de acordo com a prefeitura de Passo Fundo. 

O aumento dos atendimentos em Passo Fundo não é um cenário exclusivo. O panorama é  igualmente preocupante em todo o Brasil. Em 2025, as famílias brasileiras destinaram R$ 62,5 bilhões ao setor de apostas, conforme estimativa do Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros.  

A Secretaria Municipal de Saúde afirma que vem reorganizando serviços para cumprir à demanda por atendimentos. Até o momento, as ajudas estão centralizados no Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD Vida), localizado na rua Sete de Agosto, no Centro de Passo Fundo.  

A maioria dos pacientes que buscam atendimento em Passo Fundo são homens na faixa etária entre de 25 e 27 anos. A partir de uma avaliação, eles são direcionados para um tratamento individualizado, além do grupo de apoio para viciados em apostas e familiares. 

— O tratamento depende muito de cada avaliação, mas nós temos o acompanhamento psicológico, psiquiátrico, arteterapia, oficinas, assistente social e apoio à família— explica a secretária de saúde, Caroline Gosch. 

Segundo a Secretaria de Saúde, o município não conta com fila de espera para atendimentos. A procura pelo auxílio também se reflete em consultórios particulares. A psiquiatra e professora da Universidade de Passo Fundo, Rita Maynart Pereira, relata que vem recebendo cada vez mais pacientes jovens com esse histórico. 

— Um padrão que chama atenção é que quase todos já tinham antes uma relação difícil com telas e tecnologia, passando horas grudados no celular, e muitos já apresentavam certa impulsividade ou até uso de álcool. O jogo parece entrar como mais uma forma de buscar alívio e regular emoções difíceis — avalia a médica. 

As apostas online receberam autorização legal para funcionamento no Brasil em 2018, mas a regulação do setor só foi aprovada no final de 2023.  A divulgação massiva das apostas também está entre os principais fatores apontados para o crescimento do mercado. 

— Os anúncios costumam vender apostar como sinônimo de masculinidade, status e emoção, prometendo enriquecimento rápido, uma isca especialmente sedutora para quem tem entre quinze e trinta anos, faixa etária mais vulnerável à compulsão digital — explica a professora Rita. 

Além dos fatores externos, aspectos neurológicos também favorecem o vício. Isso porque o risco e a imprevisibilidade das apostas afetam o córtex pré-frontal, responsável pela tomada de decisões, disparando a dopamina, neurotransmissor ligado ao prazer ao sistema de recompensa do cérebro.  

Pessoas sensíveis a recompensas imediatas, impulsivas e com baixa tolerância à frustração são ainda mais vulneráveis ao vício, conforme Rita. 

— O que realmente eleva o risco é usar o jogo como válvula de escape emocional, para aliviar ansiedade, estresse ou frustração, e insistir tentando recuperar o que já foi perdido — explica a especialista. 

Identificação do vício 

A identificação e a aceitação do vício podem representar um desafio, especialmente em razão da vergonha associada ao tema e da dificuldade de abordar o assunto de forma aberta.  

Recentemente, o atacante do Bagé, Michel Henrique, usou as redes sociais para revelar que é viciado em apostas. Com 37 anos, o atacante, que já foi artilheiro do Campeonato Gaúcho em duas oportunidades, disse sofrer de ludopatia.

— Eu vivi isso durante nove anos da minha vida. Isso foi lá em 2017. Final de 2018 eu já estava completamente viciado. O vício em jogos online, não quer o teu dinheiro, quer a tua liberdade, a tua dignidade. Ele te aprisiona. Eu perdi a parte financeira, amizades, contato com familiares, eu me isolei e, por último, eu perdi a minha família — relata.

Cuidados 

O atendimento e o tratamento de saúde para ludopatas exige a combinação de diferentes estratégias, incluindo terapia cognitivo-comportamental, acompanhamento psiquiátrico, além de suporte à família, psicoeducação e a própria motivação da pessoa viciada.

— O Sistema Único de Saúde (Sus) não está plenamente preparado para essa demanda que cresce rápido. Poucos Centros de Atenção Psicossocial voltados a álcool e drogas têm protocolos específicos para o transtorno do jogo, e a capacitação dos profissionais de saúde sobre o tema ainda é limitada — avalia Rita. 

A regulamentação do setor definiu regras para as casas de apostas, incluindo a necessidade de informar de forma clara e precisa ao consumidor o serviço que está sendo contratado.  

— O que se recomenda sempre – o que não pode ser um estímulo -, é que se o consumidor for jogar, que verifique no site da Secretaria de Apostas se essas empresas estão instaladas no Brasil e se elas têm autorização governamental para funcionar — indica o coordenador do Balcão do Consumidor da Universidade de Passo Fundo, Rogerio da Silva. 

Para quem deseja parar de jogar, a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA-MF) disponibiliza uma plataforma de Autoexclusão. A partir de um cadastro, os indivíduos ficam impedidos, por pelo menos um mês, de acessar sites de apostas. Até agosto deste ano, 1,2 milhão de pessoas já aderiram à autoexclusão em todo o Brasil.  

Para identificar o vício em jogos, o Ministério da Saúde disponibiliza o Autoteste do Jogo, com perguntas para auxiliar no diagnóstico do problema. Ele está disponível no aplicativo e site Meu SUS Digital