Saúde nas redes sociais: até onde a influência pode substituir a evidência?
Fonte: correiobraziliense.com.br | Data: 31/08/2026 06:26:57
Daniela Maria Alves Chaud, nutricionista,pesquisadora e doutoraem ciências aplicadas àpediatria pela Unifesp
No último mês, a Anvisa publicou um alerta sobre a soroterapia, prática que ganhou espaço nas redes sociais com promessas de aumento de energia, fortalecimento da imunidade, melhora do desempenho físico e bem-estar, esclarecendo que não existem evidências científicas que comprovem esses benefícios em pessoas saudáveis e alertou para os riscos da administração intravenosa de substâncias sem indicação clínica. O episódio revela um problema que ultrapassa a soroterapia. As redes sociais passaram a ocupar um espaço importante nas decisões sobre saúde e, quando informações sem embasamento científico são apresentadas como verdades ou soluções rápidas, a influência pode se tornar um risco.
Hoje, alimentação, exercícios, suplementos, medicamentos e tratamentos fazem parte da rotina de conteúdos consumidos nas redes. Há, sem dúvida, um lado positivo nesse movimento. Profissionais de saúde e instituições conseguem ampliar o acesso a informações e contribuir para a prevenção e a promoção de hábitos saudáveis. Mas esse mesmo ambiente também permite que experiências pessoais sejam transformadas em recomendações, que publicidade se confunda com orientação e que uma informação seja considerada verdadeira simplesmente porque foi repetida por alguém com muitos seguidores.
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Na nutrição, esse cenário merece atenção especial. É comum encontrar nas redes listas de alimentos que supostamente devem ser eliminados, suplementos apresentados como indispensáveis e dietas que prometem resultados em pouco tempo. A complexidade da alimentação é reduzida a regras simples, enquanto fatores como idade, condições de saúde, rotina, contexto familiar, cultura e realidade socioeconômica ficam de fora da conversa.
A busca por resultados rápidos também mudou a maneira como muitas pessoas enxergam o próprio corpo. Emagrecer, ganhar massa muscular ou alcançar determinado padrão estético passou a ser apresentado como uma meta que pode ser atingida apenas com métodos, suplementos ou dietas. O problema é que, quando o corpo de alguém é usado como prova de que uma estratégia funciona, toda a complexidade envolvida naquele resultado desaparece.
Essa lógica é ainda mais preocupante entre adolescentes e jovens. Uma revisão sistemática de 2025 encontrou associação entre comparação social nas redes, preocupações com a imagem corporal e sintomas relacionados a transtornos alimentares. Isso não significa que as redes sociais sejam responsáveis isoladamente por anorexia, bulimia ou compulsão alimentar, que são condições multifatoriais. Significa reconhecer que um ambiente que estimula a comparação permanente pode contribuir para agravar vulnerabilidades que já existem.
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O problema também aparece quando a influência digital ultrapassa alimentação e estética e começa a interferir diretamente em decisões de tratamento. A soroterapia é um exemplo recente, mas não é um fenômeno isolado. Ao longo do tempo, diferentes procedimentos, medicamentos, vitaminas e suplementos ganham popularidade nas redes acompanhados de promessas de resultados rápidos. O risco está em transformar uma experiência individual em recomendação geral, sem saber se existe indicação para o seu caso, quais são os riscos ou se aquela promessa tem respaldo científico.
Essa dinâmica é favorecida por uma lógica em que atenção e engajamento têm valor. Existem influenciadores responsáveis, críticos e atualizados, mas não podemos ignorar que as redes também recompensam conteúdos capazes de despertar desejo, identificação e reação imediata. A ciência, por outro lado, exige contexto e admite incertezas.
É nesse ponto que a diferença entre informação e influência se torna fundamental. Quem acompanha um conteúdo sobre saúde precisa saber que um relato pessoal não equivale a uma evidência científica e que uma recomendação feita para uma pessoa não necessariamente serve para outra. Não se trata de desconfiar de tudo o que está na internet, mas de compreender que alcance não é sinônimo de conhecimento.
É preciso recuperar uma visão menos imediatista da saúde. Bem-estar e qualidade de vida não deveriam depender da próxima dieta que viralizar, do suplemento que promete mais disposição ou do procedimento apresentado como solução para um problema cotidiano. A saúde é construída ao longo da vida, com alimentação adequada, atividade física, sono, prevenção e acompanhamento profissional, quando necessário, e as redes sociais podem contribuir para essa construção, desde que utilizadas como ferramentas de educação em saúde.
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