Opinião | Emae estuda hidrelétrica reversível na região de Henry Borden, aproveitando Billings e Serra do Mar para a
Fonte: eixos.com.br | Data: 31/08/2026 06:17:40
Há um século, construir a Usina Henry Borden parecia um projeto improvável. Vencer a Serra do Mar e aproveitar um desnível natural superior a 700 metros para gerar energia exigiu inovação, ousadia e visão de longo prazo, resultando em uma das obras de engenharia mais emblemáticas do país.
O empreendimento impulsionou o desenvolvimento da Região Metropolitana de São Paulo e, até hoje, permanece como um ativo relevante para o sistema elétrico brasileiro.
O Brasil amplia rapidamente a participação das fontes renováveis, especialmente a solar e a eólica. O desafio não é mais apenas gerar energia limpa: é também armazená-la para utilizá-la quando a demanda aumenta ou a geração dessas fontes diminui. Nesse cenário, uma tecnologia consolidada em diversos países ganha protagonismo: as usinas hidrelétricas reversíveis (UHRs).
Amplamente utilizadas em diversos países europeus há décadas e consideradas a principal tecnologia de armazenamento de energia em larga escala no mundo, essas usinas ainda não existem no Brasil.
É um contraste curioso para um país que reúne condições naturais favoráveis, uma extensa infraestrutura hidrelétrica e uma matriz elétrica predominantemente renovável, características que o colocam entre os mercados com maior potencial para esse tipo de empreendimento.
Uma usina reversível funciona como uma grande bateria hidráulica, armazenando energia por meio do bombeamento de água entre dois reservatórios. Nos momentos em que há excedente de energia no sistema, como durante a madrugada ou em períodos de elevada geração solar e eólica, essa eletricidade é utilizada para bombear água do reservatório inferior para o superior.
Quando a demanda aumenta, especialmente entre o fim da tarde e o início da noite, a água retorna, movimenta turbinas e gera energia novamente. O resultado é um sistema elétrico mais flexível, eficiente e preparado para integrar fontes renováveis variáveis e reduzir o acionamento de termelétricas, normalmente mais caras e mais emissoras de gases de efeito estufa.
Poucos lugares no Brasil oferecem condições tão favoráveis para um projeto dessa natureza quanto a região da Usina Henry Borden. A combinação entre o reservatório Billings, a geografia da Serra do Mar e o mesmo desnível natural que viabilizou a usina original reúne condições especialmente favoráveis para a implantação de sistemas de armazenamento hidráulico.
Soma-se a isso uma infraestrutura elétrica já consolidada na região, capaz de gerar importantes ganhos de sinergia.
Nesse contexto, a Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae) desenvolve estudos para a implantação de uma nova usina reversível na região de Henry Borden. O projeto aproveitaria as características naturais da área e utilizaria a Billings como reservatório superior, permitindo que a água circulasse continuamente entre dois reservatórios por meio de equipamentos capazes de operar tanto como bombas quanto como turbinas.
Além de ampliar a capacidade de suprimento ao maior centro de carga do país, uma usina reversível nessa região fortaleceria a segurança energética nacional. Sua localização estratégica aumentaria a flexibilidade operacional do sistema, favoreceria o uso mais eficiente da infraestrutura de transmissão existente e contribuiria para a prestação de serviços essenciais ao Sistema Interligado Nacional (SIN).
O maior desafio para transformar esse potencial em realidade não está apenas na engenharia ou apenas na regulação, mas na convergência entre os dois.
O Brasil deu os primeiros passos ao estabelecer diretrizes para a contratação de sistemas de armazenamento hidráulico, mas ainda precisa consolidar um modelo regulatório capaz de reconhecer e remunerar adequadamente os diferentes serviços prestados pelas usinas reversíveis, como armazenamento de energia, flexibilidade operacional e suporte à confiabilidade do sistema elétrico.
Ao mesmo tempo, cabe às empresas do setor amadurecer o conceito no país, avançando em estudos, arranjos técnicos e modelos de negócio que viabilizem os primeiros projetos.
Assim como a construção da Henry Borden exigiu soluções inéditas há um século, a implantação da primeira usina reversível brasileira dependerá tanto do amadurecimento técnico e comercial do setor quanto da capacidade de o país consolidar um ambiente regulatório compatível com as necessidades da transição energética e capaz de oferecer previsibilidade aos investimentos de longo prazo.
Se o século XX foi marcado pelo desafio de produzir energia em grande escala, o século XXI será definido pela capacidade de armazená-la. E, mais uma vez, a Serra do Mar pode reunir as condições para que uma inovação transforme o futuro do setor elétrico brasileiro.
Henrique Verdan é superintendente de M&A e Novos Negócios da Emae.