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Cuidado com os enganadores: não há relação entre a doença Creutzfeldt-Jakob e vacinas da covid-19

Fonte: estadao.com.br | Data: 31/08/2026 16:33:05

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O que estão compartilhando: que a doença com a qual o piloto de avião e influenciador Lito Sousa foi diagnosticado, Creutzfeldt-Jakob (DCJ), teria relação com as vacinas contra a covid-19. Postagens compartilham fotos dele recebendo o imunizante.

O Estadão Verifica checou e concluiu que: é falso. Não há evidências científicas que sustentem essa alegação, segundo especialistas entrevistados pelo Verifica. As bulas das vacinas aplicadas no Brasil não citam a doença entre possíveis efeitos adversos dos imunizantes. A Creutzfeldt-Jakob é uma doença rara, que atinge cerca de uma a duas pessoas por milhão ao ano. Os dados da França e Estados Unidos mostram que o número de diagnósticos se manteve similar nos anos anteriores e posteriores à pandemia.

Não há evidências de que doença Creutzfeldt-Jakob tenha relação com vacinas da covid-19

O que é a doença de Creutzfeldt-Jakob?

A doença de Creutzfeldt-Jakob causa a degeneração do sistema nervoso e afeta funções cognitivas, como memória, equilíbrio, coordenação e movimentos. Ela está relacionada ao envelhecimento, acometendo principalmente pessoas entre 60 e 70 anos.

A condição é resultado de uma alteração da proteína príon, presente no nosso organismo, que muda de estrutura e induz outras proteínas normais a se modificarem, causando uma reação em cadeia.

A forma anormal das proteínas compromete o funcionamento do cérebro, explica a doutora em química biológica Tuane Vieira, professora adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Com esse formato alterado, ela não consegue mais desempenhar sua função fisiológica e passa a ser tóxica para a célula. Consequentemente, leva à morte dos neurônios.”

O professor Ricardo Nitrini, neurologista da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), explicou que há três formas conhecidas da doença. A esporádica é aquela sem uma causa externa, a partir de uma mudança espontânea da proteína, representando 85% dos casos. “Não se sabe por que a proteína príon, ou priônica, sofre mudança de estrutura nos casos esporádicos da doença, tornando-se proteína príon patológica”, disse ele.

Há ainda a forma genética, que está relacionada a alterações no gene PRNP, responsável pela produção da proteína príon. Ela corresponde a cerca de 10% do total dos casos, segundo o professor.

A terceira forma, extremamente rara, é a adquirida, com relato de alguns casos após procedimentos ou transplantes de tecidos ou materiais contaminados. O neurologista assegura, contudo, que não há transmissão entre pessoas no convívio diário.

Existe ainda uma variante ligada à “doença da vaca louca”, que pode ocorrer após a exposição ao agente causador da doença em bovinos. O Ministério da Saúde aponta que, desde 2005, quando foi instituída a obrigatoriedade de notificação da variante no Brasil, nunca houve um caso humano confirmado.

Lito Sousa foi diagnosticado com a doença de Creutzfeldt-Jakob.

 

Foto: Taba Benedicto/Taba Benedicto/ Estadão

A doença tem relação com imunizantes?

O diagnóstico do influenciador Lito causou grande comoção, devido à rápida evolução da doença. Nas redes sociais, publicações passaram a relacionar, sem base na realidade, que a condição estaria ligada aos imunizantes contra a covid-19.

Lito divulgou no antigo Twitter, em 2022, que recebeu a terceira dose da vacina. “Vacinem-nos, para proteger a todos, até os que não acreditam”, escreveu.

Os especialistas entrevistados pelo Verifica destacaram que não existe nenhuma evidência científica que ligue a imunização com a doença de Creutzfeldt-Jakob. “A relação entre vacinas contra covid e doença priônica é falsa”, disse o neurologista da USP.

O Verifica consultou a bula das principais vacinas aplicadas no Brasil, como CoronaVac, Comirnaty, Oxford/Covishield e Janssen Vaccine. Nenhuma cita a doença priônica entre efeitos adversos conhecidos dos imunizantes.

Especialistas indicam que não há relação de doença Creutzfeldt-Jakob com vacinas da covid.

Além disso, não existem dados que demonstrem um aumento de diagnóstico da DCJ após a pandemia e campanhas de vacinação. “Nós temos centenas de milhões de idosos que foram vacinados para a covid”, observou a professora Tuane. “Se fosse assim, teríamos um número muito maior, não seria uma doença rara na população.”

A agência de saúde da França publica uma série histórica de casos suspeitos da doença. É possível verificar na tabela que não houve um aumento significativo da notificação nos últimos anos.

Nos Estados Unidos, a Universidade Case Western Reserve, de Ohio, mantém um centro de vigilância sobre a Creutzfeldt-Jakob e monitora números de casos confirmados. Os dados também mostram uma similaridade nas notificações por ano.

O artigo foi veiculado em um repositório aberto, que não tem avaliação da comunidade científica. “É um pré-print [versão preliminar de uma pesquisa], ou seja, não é um artigo que foi revisado por pares”, disse a pesquisadora Tuane. “Não está publicado em uma revista científica, então não passou por nenhum rigor de avaliação.”

O texto foi publicado no site após o falecimento do médico Montagnier. O cientista, que ganhou o prêmio Nobel em 2008 por participar na descoberta do vírus do HIV, espalhou desinformação durante a pandemia sobre as vacinas da covid-19.

A publicação relaciona casos identificados da DCJ em pacientes que receberam a segunda dose de vacinas de RNA mensageiro. Segundo a professora Tuane, a correlação feita no estudo entre o aparecimento da DCJ e a vacinação nem sequer é compatível com o tempo de evolução da doença.