Baixar Notícia
WhatsApp
Email

A Nova Starbase das SpaceX e a Corrida Mineral da Era Digital

Fonte: defesaemfoco.com.br | Data: 31/08/2026 19:07:33

🔗 Ler matéria original


Não fique refém dos algoritmos, receba nossas atualizações no Telegram ou no Whatsapp.

RESUMO

Em 25 de agosto de 2026, a SpaceX anunciou a construção de uma nova base de lançamentos, a Starbase Louisiana, ampliando sua infraestrutura de lançamento da Starship para além do complexo original em Boca Chica, Texas. O anúncio ocorre em paralelo a dois movimentos regulatórios de grande magnitude: o pedido, protocolado junto à Federal Communications Commission (FCC) dos Estados Unidos, para operar uma constelação de até um milhão de satélites não sob a marca Starlink, mas sob o novo sistema batizado Starmind, destinado à computação orbital de inteligência artificial , e a consolidação da própria Starlink como a maior rede de internet por satélite já construída. Este artigo tem por objetivo analisar, com base em fontes jornalísticas e técnicas verificáveis, a escala física e financeira da nova Star Base, esclarecer a distinção factual entre Starlink e Starmind, e discutir com o rigor metodológico que a ausência de dados proprietários da SpaceX exige a relação entre esses empreendimentos e a demanda por Elementos de Terras-Raras (ETR) e Minerais Críticos, incluindo estimativas para o Falcon 9. Conclui-se que, embora a SpaceX não divulgue publicamente o inventário mineral de seus veículos e satélites, a literatura técnica sobre ímãs permanentes, eletrônica aeroespacial e infra estrutura de dados permite construir um quadro qualificado e metodologicamente transparente da dependência mineral desses sistemas.

Palavras-chave: Starbase Louisiana. Starlink. Starmind. Elementos de Terras-Raras. Minerais Críticos. Falcon 9.

1 INTRODUÇÃO

A expansão da infraestrutura espacial privada tornou-se, na segunda metade da década de 2020, um dos principais vetores de demanda por minerais estratégicos, ao lado da eletrificação de veículos, da energia eólica e dos centros de dados de inteligência artificial. A SpaceX, empresa fundada por Elon Musk em 2002, ocupa posição central nesse processo: controla a maior operadora de satélites do planeta, opera o único veículo de lançamento parcialmente reutilizável em operação regular no Ocidente o Falcon 9 e desenvolve a Starship, o maior foguete já construído.

Em busca de promoções e descontos nas principais lojas virtuais? Siga o Desconto em Foco.

Em 25 de agosto de 2026, a companhia anunciou, ao lado do governador da Louisiana, Jeff Landry, a construção de um novo complexo de lançamento no Vermilion Parish, no litoral sul do estado, batizado de “Starbase Louisiana”. Este artigo parte desse anúncio para investigar três eixos: (i) a escala financeira e territorial do novo complexo; (ii) a trajetória regulatória que levou a SpaceX a solicitar, perante a FCC, autorização para até um milhão de satélites pedido que, é preciso esclarecer desde já, não se refere à Starlink, mas ao sistema de computação orbital Starmind, anunciado e nomeado publicamente por Musk em junho de 2026; e (iii) a dependência, direta e indireta, desses sistemas em relação a Elementos de Terras-Raras (ETR) e Minerais Críticos, incluindo o caso específico do Falcon 9 (Finelli; Silvini; Roush; et.tal, 2026).

Figura:1

Fonte: Epa; Silvini, 2026.

Cabe um alerta metodológico inicial, essencial à integridade científica deste trabalho: a SpaceX é uma empresa de capital fechado até 2026 e, mesmo após sua oferta pública inicial, não publica inventários de materiais de seus veículos e satélites em nível de detalhe suficiente para se afirmar, com precisão de quilogramas, quanto de cada elemento é utilizado em cada unidade produzida. Onde a literatura técnica não oferece esse dado primário, este artigo constrói estimativas explicitamente qualificadas como tal, ancoradas em parâmetros publicados por fontes reconhecidas como a Agência Internacional de Energia (IEA), o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) e a consultoria SFA Oxford, evitando a todo custo apresentar como fato aquilo que é, na melhor das hipóteses, uma inferência fundamentada (Finelli; Silvini; Roush; et.tal, 2026).

Vídeo: 1 Base que será voltada às missões da Starship.

Fonte: Silvini, 2026.

2 A NOVA STARBASE: LOUISIANA, ESCALA TERRITORIAL E INVESTIMENTO

A Starbase Louisiana representa a segunda instalação da SpaceX a receber essa denominação, sucedendo a Starbase original, incorporada como cidade autônoma em Cameron County, Texas, em maio de 2025, sobre a antiga vila de Boca Chica

De acordo com a cobertura da imprensa especializada, o projeto envolve investimento mínimo declarado de US$ 100 bilhões (aproximadamente R$ 515 bilhões) e ocupará uma área de cerca de 50.585 hectares o equivalente a 506 km², superfície aproximadamente 53% maior que a do município de Belo Horizonte (Finelli; Silvini; Roush; et.tal, 2026).

Esse valor merece um esclarecimento importante em relação à ordem de grandeza frequentemente circulada: não se trata de um investimento de US$1 bilhão, mas de US$100 bilhões cem vezes maior, o que situa o empreendimento entre os maiores projetos de infraestrutura privada já anunciados nos Estados Unidos. A extensão territorial de aproximadamente 500 km², por sua vez, está tecnicamente correta e coincide com o valor amplamente noticiado pela imprensa. (Finelli; Silvini; Roush; et.tal, 2026).

Diferentemente do complexo texano, a Starbase Louisiana não terá estruturas de fabricação de foguetes, concentrando-se nas operações de lançamento, pouso e reaproveitamento da Starship, com previsão de suporte a milhares de voos por ano no longo prazo, mais de uma dezena de torres de lançamento e capacidade projetada de até trinta voos diários em regime de operação plena. O início das obras está previsto para 2027, com o primeiro lançamento estimado para 2029. (Finelli; Silvini; Roush; et.tal, 2026).

Figura: 2 Cápsula SpaceX

Fonte: Silvini; Space X, 2026.

É preciso também corrigir uma associação frequente, mas imprecisa: o Falcon 9 não opera, nem deverá operar, a partir da Starbase Louisiana ou da Starbase Texas. O Falcon 9 é lançado prioritariamente do Complexo de Lançamento 39A e da Estação da Força Espacial de Cabo Canaveral, na Flórida, e da Base da Força Espacial de Vandenberg, na Califórnia infraestruturas herdadas do programa espacial estadunidense e adaptadas pela SpaceX desde a década de 2010. As Starbases, tanto a do Texas quanto a da Louisiana, são dedicadas exclusivamente à Starship, o veículo de nova geração, integralmente reutilizável, concebido para viagens interplanetárias em particular às missões lunares do programa Artemis e à futura exploração de Marte (Finelli; Silvini; Roush; et.tal, 2026).

A escolha da Louisiana também se insere em um contexto de flexibilização regulatória: no fim de julho de 2026, o governo dos Estados Unidos sinalizou intenção de reduzir exigências ambientais aplicáveis à indústria espacial, movimento que se soma às contrapartidas já assumidas pela SpaceX em relação à restauração de zonas úmidas costeiras um histórico sensível para a companhia, que enfrentou processos judiciais e multas relacionadas a impactos ambientais em Boca Chica desde os primeiros testes da Starship, em 2023. (Finelli; Silvini; Roush; et.tal, 2026).

3 DA STARLINK AO STARMIND: ESCLARECENDO A CORRIDA POR UM MILHÃO DE SATÉLITES

O segundo eixo deste artigo exige uma distinção factual indispensável, frequentemente confundida no debate público: a constelação Starlink e o sistema recém-anunciado Starmind são projetos tecnicamente distintos, com propósitos, arquiteturas e cronogramas regulatórios próprios.

Figura: 3 Base de lançamento da Starship com Heavy e o foguete Falcon 9 SpaceX.

Fonte: O’Kane, 2026.

3.1 Starlink: a rede de conectividade

A Starlink é a rede de internet via satélite da SpaceX, em operação comercial desde 2020. Até maio de 2026, contava com mais de 12 mil satélites lançados e cerca de 9,2 mil em operação, distribuídos entre as gerações v0.9, v1.0, v1.5, v2 Mini e v2. Em janeiro de 2026, a FCC autorizou o lançamento de mais 7.500 satélites de segunda geração, elevando o total autorizado para a constelação Gen2 a 15 mil unidades, bem abaixo dos quase 30 mil que a SpaceX havia solicitado originalmente. A autorização prevê cronograma de implantação escalonado, com 50% dos novos satélites em operação até dezembro de 2028 e o restante até dezembro de 2031, além de redução planejada da altitude operacional de 550 km para cerca de 480 km ao longo de 2026, por razões de segurança orbital.

3.2 Starmind: o milhão de satélites é outro sistema

O pedido de autorização para até um milhão de satélites número citado pelo senhor Carlos em sua solicitação não se refere à Starlink, mas ao Starmind, sistema protocolado junto à FCC em 30 de janeiro de 2026 e batizado publicamente por Elon Musk em junho do mesmo ano, após o registro da marca pela xAI, subsidiária incorporada à SpaceX. Enquanto a Starlink transportar dados entre pontos da Terra, o Starmind foi concebido como uma camada de computação orbital: cada satélite funcionaria como um nó de processamento de inteligência artificial, executando inferência e devolvendo resultados à Terra por meio de enlaces ópticos de alta capacidade conectados à própria rede Starlink.

As primeiras unidades de teste, denominadas AI1, foram apresentadas em junho de 2026, com lançamento previsto para 2027. As descrições técnicas disponíveis ainda preliminares e não raro divergentes entre si nas fontes jornalísticas consultadas indicam estruturas de grande porte, com painéis solares na faixa de 70 a 75 metros de envergadura, radiadores de resfriamento dedicados e capacidade de computação da ordem de 120 a 250 kW por unidade, empregando processadores gráficos de última geração. Musk enquadrou o projeto em termos explicitamente civilizacionais, associando-o à busca por uma economia energética de escala solar referência à chamada Escala de Kardashev, sistema hipotético de classificação de civilizações pelo grau de aproveitamento da energia estelar (Finelli; Silvini; Roush; et.tal, 2026).

A distinção é relevante para este artigo porque a demanda mineral de um satélite de conectividade (Starlink) e a de um satélite-servidor de inteligência artificial (Starmind) são estruturalmente diferentes: o segundo carrega, além dos subsistemas padrão de um satélite controle de atitude, propulsão, telemetria , um payload computacional comparável a um rack de centro de dados terrestre, com demanda proporcionalmente maior de semicondutores, sistemas de refrigeração e, por extensão, de minerais críticos associados a essas cadeias.

4 ELEMENTOS DE TERRAS-RARAS E MINERAIS CRÍTICOS NA CONSTRUÇÃO DE UMA STARBASE

Não existe, até a redação deste artigo, qualquer inventário público, auditado ou divulgado pela SpaceX, sobre a quantidade de Elementos de Terras-Raras ou Minerais Críticos empregada na construção física da Starbase Louisiana. Trata-se de uma obra de infraestrutura pesada torres de lançamento, plataformas de concreto, tanques criogênicos, porto de água profunda, usina de energia, fábrica de propelentes e aeroporto, cuja composição mineral majoritária é a de qualquer grande obra civil e industrial: aço, concreto, cobre e alumínio, não Elementos de Terras-Raras.

A presença de ETR e Minerais Críticos nesse tipo de empreendimento concentra-se em subsistemas específicos, e não na obra civil como um todo: motores elétricos de grande porte utilizados em guindastes, esteiras e sistemas de movimentação de foguetes; geradores e turbinas da usina de energia local; sensores, atuadores e ímãs permanentes de neodímio-ferro-boro (NdFeB) presentes em instrumentação industrial e em sistemas de automação; e, de forma mais indireta, os semicondutores e componentes eletrônicos de todo o sistema de controle e telemetria em terra. A literatura sobre minerais críticos aplicados à defesa e ao setor aeroespacial indica que essa dependência se concentra, sobretudo, em motores elétricos miniaturizados e sistemas de precisão, e não em volume ou seja, o valor estratégico dos ETR nesse contexto está associado à criticidade funcional, não à massa total empregada (Finelli; Silvini; Roush; et.tal, 2026).

Nesse sentido, qualquer estimativa numérica de toneladas ou quilogramas de ETR na construção civil da Starbase Louisiana seria, neste momento, especulativa e sem lastro documental, razão pela qual este artigo opta por não fabricar tal número. O dado metodologicamente honesto é qualitativo: a obra é intensiva em aço e energia, e a fração de Elementos de Terras-Raras nela embutida está concentrada na eletrificação, automação e nos sistemas de geração elétrica, seguindo o mesmo padrão observado em outras grandes obras de infraestrutura energética e industrial contemporâneas.

5 O CUSTO MINERAL DE UMA MEGA CONSTELAÇÃO: PARÂMETROS PARA A STARLINK E O STARMIND

Diferentemente da obra civil, os satélites propriamente ditos permitem uma estimativa mais qualificada, ainda que igualmente sujeita a margens de incerteza relevantes, por dependerem de dados de massa que a própria SpaceX divulga de forma parcial.

O satélite Starlink v2 Mini, hoje o modelo mais lançado da constelação, tem massa de lançamento estimada em torno de 800 kg, com dois painéis solares de 52,5 m² cada, propulsão a íons de argônio e sistema de controle de atitude baseado em rodas de reação componente que, em praticamente toda a indústria de satélites, emprega ímãs permanentes de terras-raras (tipicamente NdFeB ou, em aplicações que exigem maior estabilidade térmica, ligas de samário-cobalto) por sua relação incomparável entre massa e força magnética. A literatura especializada em minerais críticos para o setor espacial confirma que ligas de samário-cobalto compostas de aproximadamente 25% a 40% de samário e 45% a 60% de cobalto são preferidas em componentes expostos a variações térmicas extremas, caso das rodas de reação, atuadores e giroscópios de satélites, por manterem desempenho magnético estável em temperaturas que variam de próximo do zero absoluto a 350°C.

Ainda assim, a fração de massa de um satélite ocupada por ímãs de terras-raras é pequena diante da massa total da ordem de poucos pontos percentuais, concentrada nos subsistemas de controle de atitude e a SpaceX não publica esse dado de forma discriminada. Um exercício de ordem de grandeza, e apenas isso, pode ser construído a partir de um parâmetro amplamente citado na literatura sobre eletrônicos avançados: a fabricação de dispositivos eletrônicos sofisticados pode demandar, ao longo de toda a cadeia produtiva, entre 50 e 350 vezes o peso final do produto em matérias-primas extraídas parâmetro que reflete o custo material real de refino e purificação de elementos presentes em baixíssima concentração na natureza, e não a massa final incorporada ao produto acabado.

Aplicando esse referencial de forma estritamente qualitativa a uma constelação hipotética de um milhão de satélites Starmind cenário ainda não aprovado pela FCC e cujo desfecho regulatório, segundo a própria imprensa especializada, provavelmente resultará em número substancialmente menor que o solicitado, o que se pode afirmar com responsabilidade acadêmica é o seguinte: mesmo considerando uma fração conservadora de ETR por satélite, da ordem de algumas centenas de gramas a poucos quilogramas em ímãs e componentes eletrônicos críticos, a multiplicação por uma frota de centena de milhares a um milhão de unidades projetaria uma demanda agregada de dezenas a poucas centenas de toneladas de Elementos de Terras-Raras uma cifra pequena diante do consumo global anual de ETR (da ordem de 130 mil a 150 mil toneladas, segundo estimativas do USGS e da IEA), mas concentrada em elementos de fornecimento estrategicamente sensível, como disprósio, térbio e samário, cuja cadeia de refino permanece dominada pela China.

Essa é, deliberadamente, uma estimativa de ordem de grandeza e não um dado técnico da SpaceX. Ela cumpre a função de situar o leitor sobre a escala do problema pequena em volume absoluto, relevante em criticidade geopolítica, sem incorrer na fabricação de números que a empresa jamais divulgou.

6 STARMIND: A CONSTELAÇÃO DE DATA CENTERS ORBITAIS E SEU CONTEÚDO MINERAL

O Starmind merece capítulo próprio porque representa uma categoria mineral distinta dentro do próprio universo SpaceX: não é um satélite de telecomunicações, mas um satélite-servidor. Segundo as especificações preliminares divulgadas por Musk e replicadas pela imprensa especializada em junho e agosto de 2026, o satélite de teste AI1 deverá integrar processadores gráficos de última geração associados, nas descrições disponíveis, à linha Rubin, da Nvidia , painéis solares de 70 a 75 metros de envergadura e radiadores de resfriamento de cerca de 30 metros, com potência de pico estimada entre 120 kW e 250 kW, a depender da fonte consultada.

Essa arquitetura aproxima o Starmind, em termos de composição mineral, muito mais de um centro de dados terrestre de inteligência artificial do que de um satélite de comunicação convencional. A literatura sobre a infraestrutura mineral da IA é convergente ao apontar que servidores e chips de alto desempenho dependem de neodímio e disprósio para os motores e ventiladores de refrigeração de alta eficiência, além de gálio, germânio, tântalo, metais do grupo da platina, cobre, prata e ouro nos próprios semicondutores um perfil mineral mais amplo e mais denso do que o de um satélite Starlink convencional, ainda que, tal como no caso da Starlink, a SpaceX não tenha publicado o inventário de materiais do satélite AI1 (Big Go Finance;Lopes, 2026).

Do ponto de vista de engenharia de sistemas, é razoável e assim deve ser lido, como inferência qualificada e não como dado oficial que cada unidade Starmind concentre uma massa de ETR e minerais críticos proporcionalmente superior à de um satélite Starlink de massa equivalente, em função do payload computacional embarcado, dos sistemas de dissipação térmica mais robustos (necessários porque, no vácuo, o resfriamento depende inteiramente de radiação, e não de convecção como em um data center terrestre) e da maior densidade de componentes eletrônicos de precisão. Ainda assim, à luz da escala planejada até um milhão de unidades, número que a própria imprensa especializada trata com ceticismo quanto à sua viabilidade final, qualquer projeção agregada em toneladas permanece, neste estágio do projeto (satélites de teste ainda não lançados), um exercício prospectivo, não uma medição (Big Go Finance;Lopes, 2026).

Video:2 A tecnologia da SpaceX e da Starlink pode viabilizar a computação orbital de IA por meio de energia solar, conectividade a laser e infraestrutura em escala de satélite. Elon Musk, Ian Dahl e Dan Huot, da SpaceX, discutem o assunto.

Figura:4 Imagem interna do Falcon 9, feita pela SpaceX em órbita para lançamentos dos Satélites Satlink em órbita baixa de sua contestação.

Fonte: Chatelain, 2026.

7 O FALCON 9 E SEUS ELEMENTOS DE TERRAS-RARAS

O Falcon 9 é o veículo de lançamento mais utilizado da SpaceX, com dois estágios movidos a oxigênio líquido e querosene de aviação (RP-1): o primeiro estágio equipado com nove motores Merlin 1D, capazes de gerar cerca de 7.600 kN de empuxo ao nível do mar, e o segundo estágio com um único motor Merlin otimizado para vácuo. É também o veículo responsável, historicamente, pelo lançamento da imensa maioria dos satélites Starlink já colocados em órbita (Radar Orbital, 2026).

Figura:5 Falcon 9 e Crew Dragon na vertical no pad antes de uma missão da tripulação da NASA NASA · Domínio público.

Fonte: Radar Orbital, 2026.

A SpaceX não publica um inventário de materiais do Falcon 9, e nenhuma fonte técnica consultada para este artigo apresenta uma cifra oficial de quilogramas de Elementos de Terras-Raras embarcados no veículo. O que a literatura sobre materiais aeroespaciais permite afirmar, com segurança, é onde esses elementos tendem a estar presentes: nos atuadores elétricos que orientam os motores Merlin durante o voo (vetorização de empuxo), nos sensores inerciais e giroscópios do sistema de aviônica, nos motores elétricos das pernas de pouso e das grades de grid fins do primeiro estágio reutilizável, e em componentes eletrônicos do sistema de guiamento, navegação e controle. Em todos esses casos, ligas de samário-cobalto pela sua estabilidade em ambientes de vibração intensa, choque térmico e variação extrema de temperatura entre a queima dos motores e o vácuo da reentrada são historicamente preferidas na indústria aeroespacial a ímãs de neodímio-ferro-boro, mais potentes, porém mais sensíveis a altas temperaturas. Em termos de massa total, contudo, o Falcon 9 é um veículo dominado por estrutura metálica (ligas de alumínio-lítio no tanque e na estrutura primária) e propelente o foguete pesa cerca de 549 toneladas no lançamento, das quais mais de 90% correspondem a oxigênio líquido e querosene. Os componentes que contêm Elementos de Terras-Raras atuadores, sensores, aviônica representam uma fração ínfima dessa massa total, plausivelmente medida em poucos quilogramas por veículo, concentrados em subsistemas de altíssima criticidade funcional e baixíssimo peso relativo. Não há, até a presente data, estudo público que quantifique esse valor com precisão, e este artigo não pretende preencher essa lacuna com um número que não pode sustentar com fontes verificáveis apenas registrar, com honestidade acadêmica, que ele existe, é pequeno em massa e crítico em função.

8 A “STARMIND” E ARQUITETURA COMPUTACIONAL ORBITAL: EXERGIA, SEMIÓTICA E A TRANSIÇÃO KARDASHEV NA INFRAESTRUTURA ESPACIAL.

A revelação recente do projeto “Starmind” por Elon Musk não deve ser interpretada meramente como uma extensão numérica da constelação Starlink, mas sim como uma reconfiguração ontológica do locus de processamento de dados. Ao propor a implantação de aproximadamente um milhão de satélites dedicados à computação distribuída, o discurso abandona a lógica mercantil de conectividade para adentrar o domínio da infraestrutura crítica de inteligência artificial. Trata-se, pois, de um deslocamento do suporte material da cognição digital: da superfície terrestre para o vácuo orbital.

Do ponto de vista termodinâmico, a justificativa técnica apresentada é impecável. Os data centers convencionais operam sob uma severa restrição entrópica, na qual a dissipação de calor residual impõe custos exorbitantes em sistemas de refrigeração e inviabiliza a expansão contínua em regiões com limitada capacidade elétrica. No espaço, contudo, a radiação térmica ocorre de forma quase passiva, e o acesso à energia solar se dá sem as interrupções cíclicas inerentes à atmosfera. A expressão “faz sempre sol no espaço” sintetiza, com precisão coloquial, a viabilidade de um regime de exergia contínuo, ou seja, uma fonte de trabalho útil praticamente inesgotável, livre das mediações de redes elétricas e das variáveis climatológicas.

Vídeo 2:Elon Musk explica como a SpaceX poderia construir centros de dados de IA no espaço.

A referência à escala Kardashev II, evocada no anúncio, insere o projeto numa teleologia civilizacional específica. Nessa taxonomia, o estágio II caracteriza-se pela capacidade de capturar a totalidade do fluxo energético de uma estrela. Ao transferir a computação para satélites alimentados por painéis solares de alta eficiência, a humanidade estaria, em tese, ensaiando seus primeiros passos rumo a uma economia política baseada na apropriação integral do output estelar. Tal perspectiva, embora grandiosa, carrega implicações profundas sobre o controle de recursos, pois quem detém a infraestrutura orbital de IA, detém, na prática, o monopólio da capacidade cognitiva planetária.

Paralelamente, é curioso observar a evolução semiótica da nomenclatura corporativa. A primeira geração de engenhos espaciais da empresa bebeu da iconografia ficcional e da biologia de rapina Falcon, Merlin, Kestrel, aludindo à velocidade e à predação. Posteriormente, com a maturação do projeto Starship e das constelações Starlink, há uma deriva lexical em direção ao vocábulo “Star”, que denota não mais um objeto individual, mas um sistema de posicionamento celestial. Nesse novo inventário, apenas o motor Raptor remanesce como vestígio arcaico dessa primeira fase ornitológica. Tal persistência terminológica, contudo, pode ser lida como um símbolo da coexistência entre o impulso físico de escape (a ave de rapina) e o novo paradigma de permanência e disseminação orbital (a estrela). O “Starmind”, portanto, não é apenas um acrônimo tecnológico; é a culminação de um processo discursivo que transforma o espaço de um território de passagem para um habitat computacional permanente (Afreen, 2026).

9 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Starbase Louisiana, anunciada em agosto de 2026, é um empreendimento real de US$100 bilhões distribuído por cerca de 500 km² no litoral do Vermilion Parish e não, como por vezes circula de forma imprecisa, um projeto de US$1 bilhão. Ela se destina exclusivamente às operações da Starship, o veículo interplanetário da SpaceX; o Falcon 9 continua operando a partir de Cabo Canaveral e Vandenberg. Paralelamente, o pedido de autorização para até um milhão de satélites, protocolado junto à FCC em janeiro de 2026, não pertence à Starlink hoje autorizada para 15 mil unidades de segunda geração, mas ao Starmind, a nova constelação de computação orbital de inteligência artificial anunciada por Elon Musk em junho de 2026.

Quanto à demanda mineral desses empreendimentos, a conclusão mais honesta que a literatura disponível permite é de natureza qualitativa: Elementos de Terras-Raras e Minerais Críticos estão presentes de forma crítica, porém minoritária em massa, em ímãs permanentes de rodas de reação, atuadores, sensores e sistemas de refrigeração tanto na obra civil da Starbase quanto nos satélites Starlink, nos futuros satélites Starmind e no próprio Falcon 9. A ausência de inventários públicos de materiais por parte da SpaceX impede qualquer afirmação numérica precisa sobre toneladas ou quilogramas totais, e este artigo optou deliberadamente por não fabricar tais números, em respeito ao compromisso com fontes verificáveis que orientam toda a produção acadêmica de seu autor.

Fica como agenda de pesquisa a necessidade de maior transparência regulatória sobre o conteúdo mineral crítico da indústria espacial privada tema que ganha urgência à medida que projetos como o Starmind aproximam, cada vez mais, a infraestrutura orbital da infraestrutura de dados terrestre, e com ela, a mesma dependência estrutural de uma cadeia de suprimentos de terras-raras concentrada, sobretudo, na China.

REFERÊNCIAS

AFREEN, Pareesa. Elon Musk revela ‘Starmind’, mega constelação planejada de satélite de IA da SpaceX.Por parte.Partes Afreen.Publicado em 25 de junho de 2026.Disponível em:https://www.thenews.com.pk/latest/1407142-elon-musk-reveals-starmind-spacexs-planned-aisatellite-megaconstellation.Acesso em: 30 ago.2026.

BIGGO FINANCE. SpaceX Unveils “Starmind” Orbital AI Data Center Constellation Plan, Up to 1 Million Satellites. [S. l.], ago. 2026. Disponível em: https://finance.biggo.com/news/d719d8d2-700b-44d6-ba85-d828129cffe4.Acesso em: 30 ago. 2026.

BPMONEY. SpaceX anuncia complexo de US$ 100 bi para lançamentos da Starship na Louisiana. [S. l.], ago. 2026. Disponível em: https://bpmoney.com.br/internacional/spacex-anuncia-complexo-de-us-100-bi-para-lancamentosda-starship-na-louisiana/.Acesso em: 30 ago. 2026.

CHATELIAN, Christian. A hegemonia da Starlink começa a ser desafiada: FCC aprova constelação de mais de 4 mil satélites e inaugura nova fase da corrida espacial.Por Christian Chatelain Publicado 11 Fev. 2026, 21h08.Disponível em:https://www.gizmodo.com.br/a-hegemonia-da-starlink-comeca-a-ser-desafiada-fcc-aprova-co nstelacao-de-mais-de-4-mil-satelites-e-inaugura-nova-fase-da-corrida-espacial-43361.Acesso em: 30 ago. 2026.

DIÁRIO DO COMÉRCIO. Elon Musk anuncia base de foguetes de R$ 514 bilhões em área 50% maior que Belo Horizonte e promete criar 11 mil empregos. [S. l.], ago. 2026. Disponível em: https://diariodocomercio.com.br/mix/elon-musk-anuncia-base-de-foguetes-de-r-514-bilhoes-em-a rea-50-maior-que-belo-horizonte-e-promete-criar-11-mil-empregos/.Acesso em: 30 ago. 2026. 100

FORBES BRASIL. SpaceX anuncia a “maior base de lançamento da Terra” com um investimento de US$ bilhões. [S. l.], ago. 2026. Disponível em: https://forbes.com.br/forbes-tech/2026/08/spacex-anuncia-a-maior-base-de-lancamento-da-terra-c om-um-investimento-de-us-100-bilhoes/Acesso em: 30 ago. 2026.

GADGETBOND. Elon Musk confirms “Starmind” as SpaceX’s AI satellite constellation name. [S. l.], jun. 2026. Disponível em: https://gadgetbond.com/starmind-spacex-ai-satellite-constellation-named/. Acesso em: 30 ago. 2026.

GEARMUSK. SpaceX Confirms Starmind as Name for Its 1 Million AI Satellite Constellation. [S. l.], jun. 2026. Disponível em: https://gearmusk.com/2026/06/24/named-starmind-ai-satellite/.Acesso em: 30 ago. 2026. GUNTER’S SPACE PAGE. Starlink Block v2-Mini. [S. l.], 2026. Disponível em: https://space.skyrocket.de/doc_sdat/starlink-v2-mini.htm.Acesso em: 30 ago. 2026.

INTERNATIONAL ENERGY AGENCY (IEA). Rare Earth Elements – Analysis. Paris: IEA, 2025. Disponível em: https://www.iea.org/reports/rare-earth-elements.Acesso em: 30 ago. 2026.

JORNAL GRANDE BAHIA. SpaceX projeta maior base espacial do mundo na Louisiana com investimento de US$ 100 bilhões. [S. l.], ago. 2026. Disponível em: https://jornalgrandebahia.com.br/2026/08/spacex-projeta-maior-base-espacial-do-mundo-na-louis iana-com-investimento-de-us-100-bilhoes/. Acesso em: 30 ago. 2026.

JORNAL UFG. Geopolítica, minerais críticos e energia: a infraestrutura invisível que alimenta a IA. Goiânia, 2026. Disponível em: https://jornal.ufg.br/n/193222-geopolitica-minerais-criticos-e-energia-a-infraestrutura-invisivel-q ue-alimenta-a-ia.Acesso em: 30 ago. 2026.

LOPES, André. Starlink, de Elon Musk, está autorizada a enviar mais 7.500 satélites no espaço. jan. 2026. Exame. Disponível em: https://exame.com/tecnologia/starlink-de-elon-musk-esta-autorizada-a-enviar-mais-7-500-satelite s-no-espaco/. Acesso em: 30 ago. 2026.

NOTEBOOKCHECK. SpaceX names its AI Orbital Data Center satellite constellation. [S. l.], jun. 2026. Disponível em: https://www.notebookcheck.net/SpaceX-names-its-AI-Orbital-Data-Center-satellite-constellatio1 328148.0.html.Acesso em: 30 ago. 2026.

O’KANE, Sean. SpaceX will build a second, $100B ‘Starbase’ spaceport in Louisiana Sean O’Kane.August 25, 2026. 11h26. Disponível em:https://techcrunch.com/2026/08/25/spacex-will-build-a-second-100b-starbase-spaceport-in-lo uisiana.Acesso em: 30 ago.2026.

SEU DINHEIRO. Área equivalente a um terço do território da cidade de São Paulo terá porto, fábrica de combustível e até aeroporto: como vai ser a nova base espacial de US$ 100 bilhões da SpaceX. [S. l.], ago. 2026. Disponível em: https://www.seudinheiro.com/2026/economia/como-vai-ser-a-nova-base-espacial-de-us-100-bilho es-da-spacex-elon-musk-mlem/.Acesso em: 30 ago. 2026.

SFA (OXFORD). Critical Minerals in Space. Oxford, 2026. Disponível em: https://www.sfa-oxford.com/knowledge-and-insights/critical-minerals-in-low-carbon-and-future-t echnologies/critical-minerals-for-space-and-technology/. Acesso em: 30 ago. 2026.

SILVINI, Pedro.Elon Musk anuncia base de foguetes de R$ 514 bilhões em área 50% maior que Belo Horizonte e promete criar 11 mil empregos.Diario do Comercio. Por Pedro Silvini 26 ago.2026.https://diariodocomercio.com.br/mix/elon-musk-anuncia-base-de-foguetes-de-r-514-bil hoes-em-area-50-maior-que-belo-horizonte-e-promete-criar-11-mil-empregos/.Acesso em: 30 ago.2026.

RADAR ORBITAL Falcon 9 SpaceX’s partially reusable medium-lift launcher — the most-flown orbital rocket of the 2020s and the vehicle that built the Starlink constellation. Disponível em:https://orbitalradar.com/launch-vehicles/falcon-9.Acesso em: 30 ago. 2026.

TECHCRUNCH. SpaceX will build a second, $100B ‘Starbase’ spaceport in Louisiana. [S. l.], ago. 2026. Disponível em: https://techcrunch.com/2026/08/25/spacex-will-build-a-second-100b-starbase-spaceport-in-louisi ana/. Acesso em: 30 ago. 2026.

TECNOBLOG. Starlink é autorizada a pôr mais 7.500 satélites em órbita. [S. l.], jan. 2026. Disponível em: https://tecnoblog.net/noticias/starlink-e-autorizada-a-por-mais-7-500-satelites-em-orbita/.Acesso em: 30 ago. 2026.

TESLARATI. SpaceX’s newest Starmind will make earth data centers obsolete. [S. l.], jun. 2026. Disponível em: https://www.teslarati.com/spacex-starmind-ai-satellite-vs-starlink/. Acesso em: 30 ago. 2026.

THE NEWS (PAQUISTÃO). Elon Musk reveals ‘Starmind’, SpaceX’s planned AI satellite megaconstellation. [S. l.], jun. 2026. Disponível em: https://www.thenews.com.pk/latest/1407142-elon-musk-reveals-starmind-spacexs-planned-ai-sat ellite-megaconstellation.Acesso em: 30 ago. 2026.

WIKIPEDIA. Falcon 9 Full Thrust. [S. l.], 2026. https://en.wikipedia.org/wiki/Falcon_9_Full_Thrust.Acesso em: 30 ago. 2026.

WIKIPEDIA. Starbase, Texas. [S. l.], 2026. Disponível Disponível https://en.wikipedia.org/wiki/Starbase,_Texas.Acesso em: 30 ago. 2026. em: em:

WIKIPEDIA. Starlink. [S. l.], 2026. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Starlink. Acesso em: 30 ago. 2026. para

XATAKA BRASIL. Domínio da Starlink no espaço começa a mudar: outra empresa já obteve autorização 4 mil satélites. [S. l.], fev. 2026. Disponível em:  https://www.xataka.com.br/diversos/dominio-da-starlink-no-espaco-comeca-a-mudar-outra-empr esa-ja-obteve-autorizacao-para-4-mil-satelites.Acesso em: 30 ago. 2026.

Participe no dia a dia do Defesa em Foco

Dê sugestões de matérias ou nos comunique de erros: WhatsApp 21 99459-4395

COP Internacional

Apoio